Trail running: a obsessão que troca o pace pela paisagem

Trail running: a obsessão que troca o pace pela paisagem

Ainda checando seu pace? Para conquistar uma montanha isso pouco importa. O desafio da nova obsessão fitness mundial é outro

Enquanto as maratonas de asfalto e as grandes corridas de rua se tornam cada vez mais performativas — com redes sociais inundadas por medalhas, influenciadores disputando espaços e uma busca quase obsessiva pelo ritmo perfeito —, acontece uma revolução silenciosa. 

Cansados da pressão estética e da monotonia dos recordes pessoais medidos em segundos, corredores de todo o mundo estão apontando suas bússolas para terrenos mais íngremes e imprevisíveis. O mercado global de trail running (corrida em trilhas e montanhas) já ultrapassa a marca de US$ 20 bilhões, impulsionado por milhões de praticantes que buscam muito mais do que apenas queimar calorias. 

O que está em jogo nas montanhas é uma experiência existencial de autodescoberta, conexão com a natureza e superação de limites físicos e mentais.

 

Para quem passa anos focado no minimalismo e na constância da corrida de rua, a transição para a montanha exige um verdadeiro "choque de realidade" mental e fisiológico. No asfalto, o ritmo por quilômetro (o famoso pace) é a lei que dita o sucesso de um treino. Nas trilhas, tentar se apegar a essa métrica é um caminho rápido para a exaustão.

 

Dionatan Simon, responsável técnico da Born Trail Run, especialista em Fisiologia do Exercício e mestrando em Ciências Médicas, é taxativo ao desconstruir essa lógica. "No trail, o pace perde muito da sua utilidade porque o terreno muda o tempo todo. O corredor deve priorizar a percepção de esforço, a frequência cardíaca, o tempo total de exposição ao exercício e a altimetria acumulada. O objetivo é sustentar o esforço, não manter um ritmo fixo."

 

Essa percepção é compartilhada por Bruno Franco, gestor da Bodytech e mestre em Ciências da Atividade Física, que aponta que essa quebra de paradigma tem forte embasamento científico. “Na trilha, a lógica do ritmo constante simplesmente não se sustenta — e isso não é opinião, é física. Pesquisadores da Universidade de Innsbruck, na Áustria, desenvolveram em 2026 o modelo de 'ritmo ajustado à inclinação' (RAI) porque os padrões tradicionais de asfalto não davam conta de prever o desempenho na montanha. O trail impõe demandas biomecânicas altamente variáveis, o que torna os relógios comuns de piso plano inadequados." 

Segundo Bruno, o segredo do sucesso para o iniciante reside em três pilares práticos de monitoramento: esforço percebido e frequência cardíaca, deixando de lado a obsessão pelo marcador de minutos por quilômetro; o ganho de elevação acumulado (D+) como a métrica real de carga de treino, muito mais relevante do que a distância horizontal pura; o tempo total de exposição, ciente de que dez quilômetros em uma trilha técnica podem exigir o mesmo tempo e energia de uma meia maratona plana.

A biomecânica da trilha

A imprevisibilidade do terreno — que mistura pedras soltas, raízes úmidas, lama e declives severos — exige que a preparação física de um atleta de montanha mude drasticamente. O corpo precisa aprender a responder de forma ultraveloz a cada fração de segundo. 

"No trail, não basta fortalecer os músculos," diz Dionatan Simon. "É preciso desenvolver habilidades específicas como equilíbrio, estabilidade, coordenação, propriocepção e força excêntrica para suportar as descidas. O treinamento precisa preparar o atleta para responder rapidamente às irregularidades do terreno, algo muito menos exigido na corrida de rua."

 

Para sustentar essa demanda, a musculatura estabilizadora do tornozelo, do quadril e do core passa a ser recrutada de maneira contínua. Bruno Franco cita estudos científicos para ilustrar essa diferenciação anatômica: "Um estudo interessante feito em Israel encontrou diferenças estruturais importantes no tendão de Aquiles de corredores de rua quando comparados aos de trilha, sugerindo que a superfície de treino dita a adaptação do tendão no longo prazo. Na musculação, isso significa que precisamos priorizar o trabalho unipodal, como afundos e agachamentos em uma perna, além de focar no fortalecimento excêntrico de quadríceps e panturrilha para absorver os severos impactos das descidas técnicas." 

Além da musculação, a própria postura e a "leitura de terreno" tornam-se ferramentas de segurança cruciais. Na trilha, o maior risco de quedas e entorses não vem necessariamente da complexidade do caminho em si, mas da exaustão e do excesso de velocidade. Bruno alerta para dados de uma pesquisa norte-americana de 2026 realizada com corredores de ultra-distâncias: "O que previu quedas e torções não foi a dificuldade técnica do trecho, mas o ritmo acelerado e o cansaço extremo. Correr rápido demais para o seu nível técnico é o principal fator de risco. Costumo dizer que um corredor de elite de asfalto é como uma Ferrari: fantástica, mas sem suspensão ou pneus para as pedras. Se tentar descer rápido demais, o estrago será gigante".

 

Para contornar esses riscos, Dionatan Simon sugere uma abordagem prática e despida de vaidade. "O erro mais comum é tentar correr todas as subidas e frear demais nas descidas. Em subida acumulada, caminhar forte muitas vezes é mais eficiente do que insistir na corrida. Nas descidas, o ideal é olhar alguns metros à frente, manter o corpo relaxado e evitar fixar o olhar apenas no próximo passo. Ler o terreno com antecedência melhora a fluidez."

Equipamento certo e planejamento

Ao contrário da rua, onde um bom par de tênis e roupas leves costumam bastar, o trail running exige uma engenharia de equipamentos que envolve mochilas de hidratação, bastões de caminhada e solados de alta aderência (os famosos grips). 

A introdução dessas ferramentas na rotina de treinos deve ser feita de forma gradual e metodológica. "Todo equipamento deve ser treinado exaustivamente antes de uma prova," diz Dionatan. "O atleta precisa aprender a correr com o peso da mochila cheia, testar sua estratégia de nutrição ativa, adaptar-se aos bastões e conhecer o grip do tênis. No trail, nunca se estreia nenhum tipo de equipamento no dia de uma competição."

 

Bruno acrescenta que a transição do calçado também requer atenção especial: "Trocar o tênis de asfalto pelo de trilha é mudar sua ferramenta de propriocepção. O tênis de trail geralmente prioriza a estabilidade e a aderência em detrimento do amortecimento ultra macio, fazendo com que o pé receba informações diferentes do solo. O ideal é adotar um período de transição de duas a três semanas de treinos curtos para que as estruturas do pé se adaptem".

 

No que tange ao volume de treinos, a prescrição para quem quer estrear nas montanhas exige cautela extra. O risco de lesões por sobrecarga é real e documentado. Estudos recentes desenvolvidos por pesquisadores na África do Sul e na Itália em 2026 confirmam que volumes mal dosados, recuperação inadequada e frequência excessiva de treinos na semana (mais do que três sessões intensas) são os principais gatilhos para lesões em atletas iniciantes de ultra-trail.

 

A recomendação unânime dos especialistas para montar a planilha ideal é substituir os volumes baseados estritamente em quilometragem por rodagens estruturadas pelo tempo de esforço, mesclando treinos curtos em terrenos técnicos para o fortalecimento articular e reservando períodos generosos de descanso ativo entre as sessões.

Do lifestyle ao turismo de luxo: as runcations

A explosão do trail running não se limita aos treinos diários; ela transformou profundamente a forma como as pessoas viajam. O turismo esportivo registrou um faturamento global de mais de US$ 560 bilhões e, com o ritmo acelerado de crescimento, projeta-se que esse mercado ultrapasse a impressionante marca de US$ 1,3 trilhão até 2032.

 

Dentro dessa transformação de mercado, surge com força o conceito de runcation. Trata-se de roteiros turísticos planejados especificamente para atletas que desejam desbravar novas fronteiras geográficas correndo. 

Courchevel é o exemplo perfeito de como o turismo se adaptou a essa nova demanda: a região se redesenha de forma vibrante durante o verão como um verdadeiro santuário dos esportes ao ar livre. Com mais de 270 km de trilhas sinalizadas, o vilarejo atrai corredores de montanha de todo o mundo para eventos consagrados como o Courchevel X Trail e a Courchevel Marathon. A infraestrutura alpina da cidade permite que, após um treino extenuante em altitude, o atleta desfrute de spas de luxo, lagos de águas cristalinas como o Lac de la Rosière e o Aquamotion — o maior centro aquático em ambiente de montanha da Europa. 

Do outro lado do globo, Taiwan consolida-se como outro destino para o turismo de corrida. Graças à sua geografia, a ilha permite que o viajante saia do ambiente urbano e cosmopolita de Taipei e esteja, em poucas horas, correndo em meio a florestas tropicais centenárias, cânions esculpidos pelo tempo ou trilhas diante das encostas do Oceano Pacífico. Essa necessidade de buscar o ar livre possui explicações que vão muito além do turismo de consumo. "Acredito que o crescimento do trail running acontece porque ele entrega uma experiência completa, que combina desafio físico, contato com a natureza e superação," diz Dionatan Simon. "Diferentemente da rua, na montanha o objetivo passa a ser vencer o percurso, tomar boas decisões e administrar o esforço. Muitas pessoas buscam o bem-estar mental. Estar na natureza reduz o estresse e cria uma sensação de liberdade que poucos esportes oferecem."

 

Bruno Franco concorda com essa visão com evidências comportamentais coletadas globalmente. "O trail entrega duas coisas que o asfalto perdeu: natureza e imprevisibilidade”. Um estudo global de 2026, liderado por pesquisadores no Reino Unido cobrindo dados de 58 países, comprovou que o contato com a natureza está diretamente associado a uma maior autocompaixão, restauração psicológica e satisfação geral com a vida. “É por isso que tanta gente migra para a trilha. Não se trata apenas de desempenho atlético, trata-se de saúde e regeneração mental."

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