No dia 5 de julho, quando cruzei a linha de chegada da Québec Mega Trail, no Canadá, eu não estava apenas concluindo uma prova. Estava, também, encerrando uma jornada que me levou ao limite do corpo, da mente e, principalmente, da minha capacidade de continuar acreditando em mim mesma.
Foram mais de 35 horas em movimento quando o relógio marcou 139 quilômetros. Ao avistar a chegada, já não conseguia organizar direito os pensamentos. Eu só sentia - alívio, orgulho, exaustão e uma gratidão enorme por ainda estar ali. Meu primeiro pensamento foi: “Eu consegui”. Depois, vieram todas as lembranças do caminho, dos treinos e das vezes em que me perguntei se aquilo não seria grande demais para mim.
A dimensão da conquista foi chegando aos poucos: sabia que tinha concluído a prova mais difícil da minha vida, mas demorei para entender que também estava me tornando a primeira brasileira a completar os 139 quilômetros da Québec Mega Trail.
Decidi enfrentar esse desafio porque queria descobrir até onde eu poderia ir. Já havia vivido provas longas, mas sabia que essa seria diferente: uma ultramaratona de montanha, com milhares de metros de elevação, terreno técnico, frio, escuridão e duas noites praticamente sem dormir. Meu maior objetivo não era conquistar uma colocação ou provar alguma coisa para os outros, mas chegar ao final sabendo que havia entregado tudo o que eu tinha.

A preparação exigiu muito mais do que correr. Foram meses treinando o corpo para suportar longas horas, subidas, descidas e o impacto acumulado. Tudo começou em janeiro de 2026 e no total, foram mais de 1.000km rodados.
O treino mais insano da preparação foi correr 3 maratonas seguidas num fim de semana - uma maratona noturna na sexta-feira em terreno de trilha, outra maratona no sábado, às 14hrs, numa pista de 500 metros (totalizando 84 voltas) e outra maratona em rua aberta. Além da parte física, treinei muito meu mental: precisava aprender a continuar mesmo cansada, desconfortável e sem ter certeza de que conseguiria terminar.
Poucos minutos antes da largada, uma chuva muito forte caiu e, logo depois, deu lugar ao sol. Fomos presenteados com um arco-íris lindo, que afastou toda a ansiedade pré-largada. Nas primeiras horas, tentei controlar a empolgação e respeitar a distância - em uma prova tão longa, pensar no final logo no começo assusta. Então, dividi as etapas em pequenos pedaços: chegar ao próximo ponto, atravessar o próximo trecho, subir mais uma montanha…
Com o passar das horas, o corpo começou a cobrar. Vieram as dores, o cansaço, o frio, a dificuldade para comer e, principalmente, o sono. A segunda noite foi um dos momentos mais duros - a mente já não funcionava com a mesma clareza, o corpo queria parar e cada quilômetro parecia muito maior do que realmente era. Comecei a ter alucinações: via rostos de pessoas, de animais, mas só tinha eu ali.
Houve momentos em que pensei que talvez não conseguisse, mas nunca pensei em desistir. Pensava apenas em continuar por mais alguns minutos, 1% melhor a cada passo. Me lembrava de tudo o que tinha feito para chegar até ali, das pessoas que estavam torcendo por mim e do motivo pelo qual havia começado.
Foi assim, avançando de pouco em pouco, que cheguei ao final.
Depois de 139 quilômetros, entendi que força não é não sentir medo, dor ou vontade de parar. Força é sentir tudo isso e, mesmo assim, encontrar uma razão para dar o próximo passo.
A maior lição que levo dessa prova é que nem sempre precisamos enxergar o caminho inteiro. Às vezes, só precisamos acreditar que somos capazes de dar mais um passo. E depois outro. Até perceber que chegamos muito mais longe do que imaginávamos. 1% melhor que ontem é o mantra que carrego pra vida.















