Há milênios, a humanidade explora substâncias naturais que alteram a mente. Hoje, a viagem ganhou um leve upgrade: está mais curta, segura e eficiente.
O tema vem ganhando espaço e é retratado em produções populares, como no documentário How to Change Your Mind (Como Mudar Sua Mente), da Netflix, que explora a história e o uso terapêutico de psicodélicos como LSD, MDMA, mescalina e psilocibina.
Apoiadas por esse renascimento cultural e por bilhões em investimentos, startups e pesquisadores levam plantas e cogumelos ao laboratório para redefinir a medicina mental. Utilizando inteligência artificial e biotecnologia, empresas reeditam essas moléculas para tratar depressão pós-parto, ansiedade e dependência química sem os riscos e a longa duração das experiências tradicionais.
A aposta da indústria farmacêutica sinaliza uma nova era: a ciência não quer apenas entender a jornada terapêutica das drogas alucinógenas, mas criar uma versão aprimorada para curar sem assustar.
No entanto, essa corrida por moléculas "suavizadas", viagens expressas e soluções computadorizadas divide especialistas que atuam no front do atendimento clínico.
Durante a Rio Innovation Week, evento de tecnologia, inovação e conhecimento, que aconteceu no Rio de Janeiro em agosto, Kari Gleiser, psicóloga clínica norte-americana especializada em traumas profundos e palestrante do palco Ciência para Todos, trouxe a discussão para o painel sobre saúde mental, colocando sob o holofote o real significado dessas substâncias quando aplicadas com acompanhamento terapêutico rigoroso. Pollyana Esteves, psicoterapeuta, mestre pela Universidade da Pensilvânia e por Harvard, também analisou os rumos e as controvérsias deste mercado emergente.
O objetivo da indústria farmacêutica é óbvio: reduzir custos operacionais de clínicas, facilitar a logística dos pacientes e ampliar a adesão ao tratamento. Mas, do ponto de vista da eficácia clínica, uma experiência mais curta é capaz de manter a capacidade de transformação?
Para Kari Gleiser, que concluiu o programa de treinamento da Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies em psicoterapia assistida por MDMA e possui formação em Psicoterapia Somática Interacional Psicodélica (PSIP), a resposta exige cautela científica e consideração do contexto neurobiológico.
"Precisamos esperar para ver o que os dados empíricos nos dirão sobre a eficácia de viagens mais curtas ou menos intensas," diz. "Pode ser que, para certas pessoas e preferências, uma experiência curta diminua as barreiras de entrada. No entanto, sob a perspectiva das janelas críticas de neuroplasticidade — como apontam as pesquisas em neurociência de Gül Dölen —, experiências subjetivas mais longas de estados alterados de consciência abrem janelas mais amplas de neuroplasticidade. Isso estende o período de transformação neuroquímica e neuroanatômica durante a fase de integração pós-jornada."
Sobre a duração da experiência, Pollyana Esteves sustenta que encurtar o processo pode privar o paciente dos recursos emocionais necessários para a mudança estrutural. "A viagem tem que ser o que tem que ser. Quando o psicodélico entra em contato com a pessoa, ele faz o efeito que ela precisa. Com uma sessão mais curta ou menos intensa, você corre o risco de não ter justamente o benefício que o psicodélico traz."
Para quem trabalha com a recuperação de traumas, remover a experiência psíquica subjetiva é exatamente o oposto do que a psicoterapia precisa.
"Sob a perspectiva clínica de quem trabalha há décadas na recuperação de traumas, os sobreviventes costumam ter redes de medo hiperativas que promovem o evitamento experiencial. Isso gera uma vida interior e exterior restrita, levando à depressão e ao esgotamento," diz Kari Gleiser. "Quando ouço que alguém quer limitar a parte experiencial dos psicodélicos, fico receosa. Uma das teorias sobre o motivo de os psicodélicos funcionarem tão bem com a psicoterapia é que eles amplificam a experiência ao mesmo tempo em que reduzem o medo. Por que criaríamos remédios psicodélicos que limitam justamente o que é potencialmente mais curativo?"
Pollyana detalha como o enfrentamento desses estados emocionais intensos dentro de um consultório seguro é o coração da terapia: "As pessoas têm medo da bad trip. Mas uma bad trip em um consultório, com alguém que sabe o que está fazendo em um espaço controlado, é tudo o que a gente quer: trazer os seus monstros para podermos resolver. A bad trip é ruim quando você está sozinho e não sabe ressignificar. Na macrodose, a dissolução do ego é uma sensação desconfortável de encarar medos, mas é para isso que a terapia existe — para tocar nessas feridas profundas de maneira suportável."
Ela acrescenta que, para quem busca apenas os efeitos biológicos sem a alteração perceptiva, a alternativa já existe no mercado sem a necessidade de criar moléculas sintéticas alteradas: "Para quem quer só os efeitos fisiológicos de neuroplasticidade, anti-inflamatórios e melhora do ânimo sem o efeito psicodélico, já existe a microdosagem. Não há necessidade de tirar a experiência da viagem da macrodose. O controle do nível da experiência é feito ajustando a própria dose, e não modificando a substância artificialmente."
Outro desafio da medicina psicodélica tradicional são as contraindicações físicas. Substâncias como a ibogaina, extraída de uma raiz africana e altamente eficaz no tratamento de dependência química severa, possuem cardiotoxidade conhecida, limitando seu uso em pacientes cardíacos ou debilitados.
Kari Gleiser enxerga com bons olhos os esforços para contornar esses riscos biológicos: "Apoiaria qualquer esforço para tornar os psicodélicos mais seguros e acessíveis, desde que respaldados por pesquisas cuidadosas e éticas que forneçam evidências empíricas sobre segurança."
Já Pollyana defende uma abordagem baseada na escolha estratégica entre os psicodélicos naturais existentes, em vez de alterar quimicamente substâncias complexas. "A ibogaína vem de uma planta e tem essa questão cardíaca. Para fazê-la sem risco, muda-se demais a natureza do negócio. Se tenho um paciente com problema cardíaco, não vou usar ibogaína; vou usar outra substância, como o cogumelo, que não tem contraindicação cardíaca, nem efeito colateral sério além de um eventual enjoo ou dor de cabeça. O mais importante é o profissional ter formação completa em todos os psicodélicos para individualizar o tratamento conforme o corpo e as necessidades de cada paciente."
A personalização de tratamentos por meio de IA é uma das frentes mais valorizadas pelos investidores em saúde digital, com a promessa de mapear perfis genéticos, comportamentais e neurológicos para prescrever protocolos exatos.
Por outro lado, ambas as especialistas lançam um alerta vermelho sobre a substituição do vínculo humano pela computação. "Para ser totalmente transparente, sou contra o uso de IA em âmbitos de investigação e ação que exigem relacionalidade humana, como a cura de traumas de apego e feridas relacionais," diz Kari Gleiser. "A IA é uma ferramenta maravilhosa para coleta de fatos, mas não para a prestação de serviços de saúde mental e acompanhamento, que exigem coração, espírito e embodied mind."
Pollyana compartilha do receio de que a tecnologia atrofie a capacidade clínica de escuta e raciocínio dos profissionais. "Tenho muito medo de as pessoas pararem de pensar. Quando um paciente chega, preciso raciocinar em cima dele. Não vejo a doença, enxergo a pessoa. Se chegarem três pacientes com depressão, cada uma terá um tratamento diferente. A IA é o presente, mas se confiarmos demais nela, perderemos a conexão, o olhar para a anamnese e os detalhes fisiológicos. Nenhuma IA consegue entender e sentir o que cada indivíduo único precisa no momento da sessão."
A psiquiatria tradicional acostumou a sociedade ao uso contínuo e diário de ansiolíticos e antidepressivos, que tratam sintomas sem necessariamente resolver as causas subjacentes. A terapia psicodélica propõe uma ruptura radical: poucas sessões intensivas com potencial de cura a longo prazo.
Essa transição, porém, exige que médicos e terapeutas mudem totalmente sua postura profissional. Kari aponta que a prontidão do sistema de saúde depende de uma mudança cultural profunda na relação médico-paciente: "Aproveitar e otimizar o poder de cura dos psicodélicos vai muito além de dar uma pílula ou sentar ao lado de alguém durante uma sessão. O sistema precisa capacitar os profissionais para navegar por paisagens relacionais, emocionais e inconscientes complexas. Idealmente, os aplicadores devem ter tido suas próprias experiências transformadoras para conhecerem esses estados de mente. A maior mudança é sair de trás das pranchetas e jalecos brancos, assumindo a disposição de se conectar de forma profundamente humana, autêntica e sintonizada — o que exige vulnerabilidade e risco relacional tanto do clínico quanto do paciente".
Pollyana analisa a resistência estrutural do mercado médico brasileiro em migrar da remediação crônica para a solução definitiva. "O foco do psicodélico é a cura. Ele é um tratamento com início, meio e fim, porque vai direto na raiz do problema. No Brasil, o grande desafio é sair da cultura de tratar só a consequência."
Para ela, essa transformação passará inevitavelmente por uma reeducação da classe médica: "Os médicos precisam estar preparados para perder pacientes no sentido nobre da palavra — no sentido de curar a pessoa e deixá-la ir embora, em vez de mantê-la em consulta e medicação por 15 ou 20 anos."
O estigma que pesa sobre os psicodélicos remonta à década de 1960, quando a pesquisa científica foi interrompida bruscamente por proibições políticas e regulatórias.
Vencer essa herança cultural e o desconhecimento do público geral é o passo decisivo para a consolidação dessa nova medicina. "Acredito que essas barreiras já estão se deteriorando no público geral," diz Kari Gleiser. "O uso público cresce quase 10% ao ano nos EUA e no Brasil, e a recente aceleração das pesquisas científicas ajudará a clarear a percepção pública. O ponto de virada já aconteceu. Agora, as questões vitais são: como tornar os psicodélicos universalmente acessíveis a quem precisa, sem limitá-los apenas a quem tem recursos financeiros elevados? Todos têm o direito de se curar."
Kari faz ainda uma ressalva ética essencial sobre a origem dessas práticas. "Precisamos honrar e proteger as tradições indígenas, que compreendiam o poder dessas medicinas muito antes de o estabelecimento médico se encantar por elas."
Pollyana observa que o desafio atual é reeducar as pessoas com base nas mais de 500 mil pesquisas científicas de universidades sérias mostrando que é seguro e não causa dependência. "Nos Estados Unidos, uma sessão pode custar US$ 2.500. Se as formações e certificações continuarem caríssimas, o tratamento ficará restrito aos mais abastados. A nossa próxima grande luta, assim que as autorizações avançarem, será garantir que a população mais carente também tenha acesso à cura. Além de tratar quadros graves como depressão e trauma, os psicodélicos abrem uma janela de aprendizado que permite reestruturar hábitos, superar compulsões e ajudar o indivíduo a se reconectar com quem ele realmente é."















