Quando Raphael Garcia, de 34 anos, avistou o contorno dos prédios e sentiu os ventos finalmente empurrarem seu pequeno barco a remo, o Sater, em direção à costa baiana em 22 de agosto de 2026, ele trazia no corpo a marca de 136 dias de isolamento e combate contra as correntes marítimas, na travessia do Atlântico Sul.
O momento foi coroado pela presença no desembarque da sua grande inspiração, o navegador Amyr Klink, que 42 anos antes realizou o mesmo percurso entre Lüderitz, na Namíbia, e Salvador.
O encontro encerrou um ciclo de quatro anos de preparação. Em 2022, Raphael teve a ideia de refazer a travessia depois da leitura do livro Cem Dias Entre Céu e Mar (compre aqui), no qual Amyr, então com 28 anos, relata sua jornada pioneira de 100 dias a bordo do lendário barco I.A.T..

A comparação entre as duas travessias revela um paradoxo: a tecnologia transformou radicalmente a preparação, a comunicação e a segurança na navegação, mas não foi capaz de alterar a força e a imprevisibilidade do oceano.
Em 1984, o pioneiro navegou guiado por mapas impressos e pela navegação celestial, que utiliza o Sol, a Lua, os planetas e as estrelas para determinar a posição do barco na Terra. “Eu vivi o privilégio da ignorância e a sorte da dedicação anônima ao projeto,” relembra Klink. Sem contato em tempo real com a terra firme, o navegador da era analógica dependia da sorte e da intuição para corrigir desvios.
Em 2026, a rotina a bordo do barco de Raphael foi cercada pela tecnologia. A navegação contava com GPS de altíssima precisão, telefonia e internet via satélite, sistemas de energia solar e um rádio VHF constante para monitorar cargueiros. Mas, mais do que a precisão das coordenadas, ele destaca o ganho psicológico: “A grande diferença talvez seja a paz de espírito que esses equipamentos te dão. Se o barco estiver afundando, existe um botão de emergência que aciona o centro de resgate por satélite, por exemplo.”

Contudo, essa hiperconexão carrega contradições. Para Amyr, a vigilância tecnológica moderna altera a própria essência da aventura: “O excesso de conectividade traz uma angústia que eu não sei se é positiva.” Enquanto ele cruzou o Atlântico envolto no silêncio do mundo, Raphael carregava a consciência de ser monitorado, tendo de lidar com a ansiedade da terra firme e o tráfego intenso de navios transatlânticos de 400 metros cruzando sua rota no escuro, durante as noites.
Apesar de todas as ferramentas modernas, Raphael levou 36 dias a mais do que Amyr para concluir o percurso. A explicação para a diferença escancara os limites humanos diante dos elementos naturais. Logo na saída da costa africana, em abril de 2026, ele enfrentou uma sequência impiedosa de tempestades com ventos de até 35 nós e ondas de cinco metros. Para proteger a embarcação e evitar capotagens que pudessem danificar equipamentos cruciais, como o dessalinizador de água e os sistemas elétricos, ele optou por acionar a âncora de mar, travando o barco alguns dias.
A vida marinha impõe seu ritmo. A proliferação de cracas no casco reduziu drasticamente a velocidade da embarcação. A limpeza do fundo do barco, uma tarefa delicada e perigosa, foi adiada pela presença constante de tubarões ao longo de toda a rota e pelas águas gélidas vindas da Antártica.
Esses fatores reforçam o diagnóstico de Amyr: “A imprevisibilidade do mar e as dificuldades sempre serão parecidas. A tecnologia mudou a navegação, mas o oceano continua impondo seus limites”. Por mais avançados que sejam os algoritmos de previsão meteorológica, eles não impedem a formação de uma tempestade.

A rotina a bordo permaneceu uma prova de fogo física e mental. Sem ter praticado remo ou frequentado o mar até decidir realizar o projeto em 2022, Raphael teve de estudar dezenas de livros e encarar uma rotina diária treinando remadas. As dores intensas nas costas, pernas e mãos tornaram-se companheiras diárias antes e durante a travessia. “Você fica 10, 12 horas remando e é normal ter dor. Às vezes eu parava, dava uns socos na perna, alongava e continuava. Você não tem a opção de parar,” relata.
Se a solidão em alto-mar assusta, para Raphael, o isolamento total — passando mais de um mês sem avistar qualquer rastro humano — serviu como um momento de depuração. Enquanto Klink construiu sua história sob o peso do pioneirismo absoluto, ele encarou o desafio psicológico de refazer uma jornada quase mitológica.
O próprio Amyr reconhece a complexidade da tarefa: “Tentar refazer pode ser até mais difícil do que ser o pioneiro, porque ele já sabia de todas as dificuldades que eu passei”.
Ao desembarcar na Bahia, exausto, mas em boas condições físicas, Raphael trouxe consigo diários escritos à mão — curiosamente salvos pela simplicidade do papel e da caneta, enquanto parte dos seus eletrônicos sucumbiam à umidade salina. As anotações darão origem a um livro, que deve ser lançado no primeiro semestre de 2027.
A tecnologia pode encurtar distâncias teóricas, prever rotas e emitir alertas, mas a travessia oceânica continua sendo, em sua essência, um diálogo solitário entre o ser humano e a natureza. Nas palavras de Raphael, a maior lição não veio dos painéis digitais, mas das águas: “A principal virtude é ter paciência. Você está em um ambiente em que não manda nada. Você não tem controle. O mar dita tudo, e você entende que ali é apenas um passageiro”.
















