Do windsurf à hotelaria, Kauli Seadi continua a favor do vento

Do windsurf à hotelaria, Kauli Seadi continua a favor do vento

Tricampeão mundial, encontrou fora das competições uma forma de permanecer exatamente onde sempre quis estar: na água

Há um som que Kauli Seadi conhece bem: o silêncio que se instala segundos antes de uma onda gigante desabar, quando o próprio vento parece tomar fôlego diante da fúria inebriante do mar. É a mesma água que fez um menino de 13 anos chorar de frustração ao não conseguir erguer a vela afundada do próprio equipamento, pesado demais para o seu tamanho. Décadas depois, aos 43, essa mesma mistura de euforia e reverência sustenta a vida do tricampeão mundial de windsurf, hoje empresário, marido e pai.

Não foi em busca de fama que embarcou, ainda adolescente e já patrocinado pela Mormaii, em 1999, para a ilha de Maui, no Havaí, com pouco mais do que uma prancha e um inglês básico. Foi pela adrenalina, e pela vontade simples de ficar cada vez melhor. Aprendeu sozinho a cozinhar, lavar roupa e viver sem os pais por perto. A recompensa veio depois. Em 2001, celebrou o primeiro título do circuito mundial, na modalidade freestyle, disputada em Fuerteventura, nas Ilhas Canárias, e um prêmio de cerca de US$ 10 mil que lhe mostrou que aquilo também podia ser profissão.

Ele fala das vitórias, mas se anima de verdade ao contar as horas na sala de shape. Após os treinos, desmontava equipamentos, cortava e reformava peças de fábrica, redesenhava pranchas e velas. Um dia chegou a pensar em cursar engenharia e encontrou no próprio esporte seu laboratório. Parte do que testou ali, a indústria depois incorporou aos próprios moldes. Foi com esse material autoral e veloz que, em 2005, 2007 e 2008, vieram os títulos mundiais mais desejados na categoria wave.

Depois do tricampeonato, foi em Ibiraquera, Santa Catarina, onde já havia erguido uma casa aos 18 anos, que tentou pela primeira vez transformar a paixão em negócio. A ideia era um beach club para quem quisesse velejar. Não deu certo. O clima instável e a água fria do Sul afastavam quem tinha apenas alguns dias para praticar.

São Miguel do Gostoso, no Rio Grande do Norte, entrou na vida de Kauli por sugestão de um colega alemão, conhecedor dos melhores destinos de windsurf do mundo. Bastou uma visita, em 2009, para decidir viver ali. No ano seguinte, comprou o terreno do clube e deu início ao projeto. A vida pessoal andou junto. Em 2011, em um evento em Natal, reencontrou, por coincidência, Maria Fernanda, oceanógrafa que já conhecia de Florianópolis. Casaram-se, e ela tornou-se parte fundamental de tudo que viria a seguir.

Em Gostoso, a paixão pelo mar ganhou uma nova escala. Em vez de pranchas, Kauli passou a desenhar a lápis os projetos dos próprios hotéis. O que começou com um clube de praia e cinco bangalôs virou, com o tempo, um grupo que hoje reúne três hotéis e dois clubes náuticos no litoral potiguar. Maria Fernanda é responsável pela gestão administrativa, papel hoje tão central na operação quanto o olhar apaixonado dele para cada detalhe.

Consolidado como grande waterman brasileiro, ele fez da adaptação o seu maior talento, redescobrindo nas águas do Nordeste a diversão plena de suas primeiras sessões no Havaí. A bússola, contudo, pede novas aventuras. O próximo horizonte já está traçado para cruzar a Polinésia Francesa de veleiro ao lado de Maria Fernanda e dos filhos, Keala e Keahi.

O vento que sempre empurrou Kauli confirma a intuição primária de que ele encontrou seu lugar no mundo ainda menino, e tudo o que construiu desde então foi apenas uma forma diferente de continuar diante do mar. 

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