Uma das pessoas mais influentes do século XXI para a arte mundial está entre nós. Sheikha Al Mayassa bint Hamad Al, 42 anos, desembarcou em São Paulo, em sua primeira visita ao Brasil, que segue para o Rio de Janeiro e Inhotim.
A viagem foi articulada pelo francês Alexandre Allard, empreendedor radicado no Brasil, que a conhece há anos por meio de amigos em comum. Na capital paulista, visitou o MASP e o Sesc Pompéia, jantou no restaurante Preta Maria da chef Bela Gil e falou com um grupo seleto de jornalistas.
Para Marcello Dantas, diretor cultural da Casa Bradesco e um dos anfitriões da visita, Al Mayassa é uma das líderes de uma transformação histórica no Golfo: a construção de uma cena cultural própria, capaz de colocar a região no centro do debate internacional.
“Ao colocar no mapa instituições ambiciosas como o Museu Nacional do Catar, o Louvre e o Museu de Arte Islâmica, o Oriente Médio oferece recortes e formas narrativas muito diferentes de tudo o que estava sendo feito no mundo. São porta-vozes de algo muito forte,” disse Dantas.
Enquanto Abu Dhabi investe no licenciamento de grandes instituições do ocidente, a exemplo do Guggenheim e do Louvre, a Sheikha utiliza seu budget anual de US$ 2 bilhões de forma mais autêntica e orgânica. Um dinheiro novo que traz uma nova linguagem. E o Catar tem algo particular: uma visão que abarca 1,5 bilhão de muçulmanos — da África à Ásia.

À frente da Qatar Museums desde 2005, Al Mayassa liderou a construção de uma estratégia cultural de longo prazo para o país. Entre seus projetos estão o Museu de Arte Islâmica — cuja compra de obras foi feita de maneira silenciosa em leilões pelo mundo—, o Mathaf: Museu Árabe de Arte Moderna e o Museu Nacional do Catar, projetado por Jean Nouvel. Em 2025, veio outro marco: a primeira participação oficial do Catar na Bienal de Veneza, com um pavilhão permanente.

Agora, estão em desenvolvimento o Art Mill Museum, o Lusail Museum, dedicado à arte orientalista, a Rubaiya Qatar, quadrienal de arte contemporânea, e o maior depósito de arte da região.
A seguir, a conversa do Page9 com Al Mayassa sobre arte, poder, diplomacia, dinheiro e o futuro cultural do Catar.
Em suas pesquisas sobre a cultura e o cenário artístico brasileiro, o que mais tem despertado a sua atenção?
O que mais me chamou a atenção foi o investimento na cultura local. O que vi até agora — só estou aqui há um dia — foi uma hospitalidade incrível, pessoas gentis e muito talento: em moda, design, produtos de beleza, cinema, fotografia. Fiquei realmente inspirada, porque me lembra o que também fazemos para apoiar criativos locais, dando a eles uma plataforma para brilhar.
Fui ao MASP — adoro arquitetura, e a Lina Bo Bardi é excepcional. Fiquei impressionada com a diversidade do acervo e o foco em celebrar a arte brasileira. Também visitei o SESC Pompeia e gostei da forma como há inovação e integração entre esporte e cultura como estilo de vida — exatamente o que fazemos no Catar.
Para nós, cultura não se limita às artes — cultura é sobre estilo de vida. Como podemos coexistir? Como podemos unir pessoas de todas as disciplinas para celebrar a humanidade, celebrar nossas diferenças? Senti, pelo que vi, que há muita união na comunidade brasileira, que as pessoas se apoiam umas às outras. E acho isso muito bonito.
De onde surgiu a ideia de criar, há 20 anos, um projeto cultural para o Catar?
Meu pai era um visionário. Perdemos ele neste verão. Ele cresceu órfão — sua mãe morreu ao dar à luz — e muitas mulheres cuidaram dele, acho que por isso tinha um profundo respeito pelas mulheres. Claro, ele tinha um pai, mas que estava muito ocupado administrando os assuntos de Estado.
Chegou ao poder de um jeito incomum e saiu de um jeito incomum: afastou o próprio pai, e depois entregou o poder ao filho. Durante seu governo, aboliu a censura, criou a Al Jazeera, criou a Qatar Foundation e colocou minha mãe à frente dela. Ele queria uma sociedade saudável e ativa baseada em conhecimento, que um dia deixasse de depender dos hidrocarbonetos. Para ele, investir em cultura era, acima de tudo, sobre desenvolvimento humano: como fazer meu país, meu povo, a região acreditarem em si mesmos? Como empoderar as vozes de talentos e criadores árabes?
Quando terminei a universidade, eu queria ser a primeira mulher ministra das Relações Exteriores do meu país — foi para isso que entrei na faculdade. Alguns meses depois de começar a trabalhar, surgiu um problema no Museu de Arte Islâmica. Meu pai disse: “esse projeto é seu, cuide disso.” Assim que comecei a participar das reuniões, percebi que era, na prática, um trabalho em tempo integral.
Trabalhava sete dias por semana, o que não era problema — adoro trabalhar. Revisitamos todos os projetos e criamos um plano de 25 anos para apoiar a Visão Nacional 2030. Foi assim que cheguei a essa posição. Em 2030, completamos esse plano de 25 anos e começamos o próximo capítulo, a "Visão 2050".
Hoje, se pensarmos na inteligência artificial e no desenvolvimento tecnológico, a economia criativa é a única que consegue ser resiliente e ainda desperta emoções e une as pessoas. De certa forma, ele foi visionário — teve a intuição de que isso se tornaria muito importante.
E você era tão jovem quando tudo começou.
Sim, tinha acabado de terminar a universidade — 22, 23 anos. 60% da nossa população tem menos de 30 anos, e meu pai não considerava se alguém era homem ou mulher, jovem ou velho: se ele acreditava em alguém, dava a oportunidade e confiava plenamente. Ele acreditou em mim e me tornei, de fato, seu braço direito no desenvolvimento da estratégia cultural.
Ele também começou jovem. Trabalhamos duro, acreditamos no que fazemos, temos muito orgulho do nosso país. Não queremos cair na ideia de “já temos o suficiente". Para mim e para muitos da minha geração, ele continua sendo essa referência de disciplina. Ele deixou claro que nosso papel é contribuir com a sociedade— mesmo que a mãe fique em casa, ela está formando a próxima geração de contribuintes. Não dá para simplesmente relaxar e aproveitar a vida. Precisamos servir de alguma forma. Acho que é isso o que somos como nação: todo mundo participa."
Imagino que você seja uma grande influência para outras mulheres do Catar também.
Isso você tem que perguntar a elas. Eu não sei, mas gostaria que fosse assim.
De onde veio o seu interesse por arte?
Crescemos em uma família em que a arte era algo natural. Visitávamos museus, íamos ao teatro, ouvíamos música, visitávamos sítios arqueológicos — fazia parte de quem somos. Mesmo no Catar: quando terminou o protetorado britânico, nos anos 1970, a primeira coisa que fizemos foi construir um Museu Nacional — fomos o primeiro país do Golfo a ter um. Arte e cultura são muito importantes no nosso sistema educacional.
Se você olhar nossos sítios arqueológicos e objetos dos séculos XVIII e XIX, há muito artesanato — somos um povo que trabalha com as mãos, como aqui no Brasil. Acho que há uma semelhança grande entre nós.
Ao que você atribui a sua força como mulher à frente de um projeto tão ambicioso?
Crescer em uma família de serviço público te faz entender, desde cedo, que esse é o seu caminho, e que seu papel é levar seu privilégio e suas responsabilidades a sério. Meu objetivo diário é contribuir com a sociedade. Sempre digo que sou filantropa antes de qualquer coisa, porque, quando você empodera designers e criativos, transforma a vida deles, dá a eles validação, confiança e a oportunidade de nos representar para o resto do mundo. Acho que isso é o que mais me recompensa.
Qual impacto você deseja que a cultura tenha sobre as novas gerações de qatarenses?
Acho que vai dar a eles um senso de pertencimento e identidade — saber quem são e para onde querem ir. É importante que as pessoas se sintam seguras em sua herança, mas que também se engajem com a cultura contemporânea da forma que fizer sentido para elas.
A cultura é uma forma de educação informal. É inspiradora, inovadora, te ajuda a pensar fora da caixa, o que é importante em qualquer profissão. Hoje o mundo está muito polarizado porque as pessoas ficam presas em caixinhas. A cultura te permite imaginar possibilidades e soluções, em vez de ficar preso ao problema.
Na minha visão, você não pode ser educado se não for culto. Mas pode ser culto sem ser educado formalmente. Penso, por exemplo, nas pessoas que participam de programas como os do Bernardo Paz, que eu sempre quis visitar. Muitas talvez nunca tenham ido à escola, mas, por meio desses programas, ganham uma educação e uma ferramenta para se tornarem relevantes e se sustentarem. Acho isso muito poderoso.
De que maneira você acha que a arte é capaz de nos transformar?
Acho que ela desperta emoções e nos mantém abertos ao resto do mundo. Estamos construindo um museu infantil chamado Dadu, e toda a filosofia por trás dele é ‘globalizar o local e localizar o global’ — ou seja, dar à nossa comunidade uma perspectiva global, sem perder a identidade e a herança locais.
O Catar é uma comunidade muito diversa — temos brasileiros, europeus, asiáticos, africanos, americanos vivendo lá. Esse museu une a comunidade celebrando uma visão global, mas garantindo que todos tenham uma identidade local.
E você a vê como ferramenta de diplomacia?
Claro. Eu queria ser diplomata, e acho que a cultura faz exatamente isso — é outra forma de diplomacia, mas ainda mais ampla. Ela permite falar de muitas coisas que a política não permite. Você pode assistir a um filme com alguém e discutir os elementos daquilo; pode ir a um desfile de moda e falar sobre o que ele significa; pode ver uma exposição de arte e trazer até humor para questões complexas. Por isso muitos ministérios de relações exteriores têm um departamento cultural: sabem que essa é uma forma de aproximar as pessoas.
Qual é o significado de poder para você?
Poder é responsabilidade. Se você tem poder, precisa ser humilde e responsável pelas pessoas sob sua liderança, porque o poder não é permanente — e, enquanto você o tem, precisa ser responsável com ele.
E de sofisticação?
Sofisticação, para mim, é simplicidade. Quanto mais você tem, mais simples precisa ser. E quanto mais humano você é, mais sofisticado se torna.
O que o dinheiro não pode comprar?
Acho que o dinheiro não compra tudo — especialmente no mundo da arte. No fim, não importa quanto dinheiro você tem: é preciso ter sofisticação, conhecimento e acesso para construir coleções e instituições culturais. Dinheiro não compra respeito. Dinheiro não compra sofisticação. Dinheiro não compra amizade.
E acho importante que os jovens de hoje permaneçam com os pés no chão — há muita arrogância e ignorância no mundo, e a cultura pode nos lembrar da nossa humanidade, da nossa fragilidade e da nossa humildade.
Existe algum projeto que você ainda deseja realizar, mas a hora certa ainda não chegou?
Acho que há muitos projetos que são como uma fermentação — eles chegam quando precisam chegar. O Pavilhão de Doha, do Gerhard Richter, que vamos inaugurar em novembro, começou em 2013. Conversas podem levar muito tempo até se concretizarem, mas acho que isso faz parte do processo criativo: você trabalha em função do artista, não pode impor seu tempo ou sua ideia.
É preciso respeitar o tempo e também sua própria “data de validade”, porque um dia chegará outra pessoa que fará algo diferente, mais relevante para o seu próprio tempo. Foi o que meu pai fez: quando decidiu se afastar, sentiu que já havia estabelecido o que queria, e era hora de uma nova geração liderar.













