De férias, mas nem tanto

De férias, mas nem tanto

Quando as crianças entram no planejamento, as férias saem do mapa conhecido e ensinam o que nenhuma sala de aula consegue

Quando o leão passou perto do jipe, Maria Júlia, 10 anos, ficou em silêncio.

Nada de grito ou susto, mas olhos bem abertos e o som da savana ao redor. “Não vi ali a excitação que eu imaginava,” lembra a mãe, a empresária e influenciadora Carol Buffara. “Era fascínio puro.”

A família havia feito um safári no Botsuana, país da África Austral, em novembro de 2025, destino pouco associado a férias com crianças, mas que entregou o que Carol descreve como “memória de verdade”. “Esse tipo de vivência fica para sempre porque conecta as crianças com a natureza de um jeito profundo e impossível de reproduzir em telas.”

A experiência de Carol com a filha faz parte de um movimento maior. A WYSE Travel Confederation aponta que jovens viajantes em programas de turismo com propósito representam mais de 23% dos turistas internacionais. A demanda reflete uma busca por experiências que constroem confiança e habilidades práticas. O Global Travel Trends Report 2026, da American Express Travel, reforça: 82% dos viajantes de alta renda afirmam que aprender algo novo durante uma viagem cria uma experiência mais memorável. É exatamente essa lógica que está por trás da escolha por destinos que ensinam enquanto encantam.

Nathalia Gomes, mãe de cinco meninos (dois de 16 anos, um de 10 e dois de 4), está bastante acostumada a viajar com os filhos. Autora do site Kids2gether, fez das próprias viagens vitrine para o serviço que oferece: ajudar outras famílias a desenhar roteiros que envolvam os pequenos sem abrir mão da diversão para os adultos. Em suas últimas férias em família, ela, o marido e os filhos decidiram pelo Japão. Especialmente os gêmeos de 16 anos, que já conheciam o país pelos animes, pelo streetwear de Harajuku, pelas redes sociais, mas queriam ver tudo ao vivo. O grupo foi por 20 dias entre Tóquio, Kyoto e Osaka, e os mais velhos voltaram querendo mais. “Todos nós aprendemos demais sobre a cultura asiática. Vivemos uma verdadeira imersão em hábitos que são contrastantes aos nossos.”

Uma pesquisa da operadora britânica Scott Dunn, divulgada em 2025, revelou que os adolescentes são hoje os maiores influenciadores nas decisões de viagem em família.

Mas o que separa um destino que empolga só os adultos de um que prende a atenção até dos adolescentes? Para Nathalia Gomes, a resposta está em três palavras: equilíbrio, autonomia e autenticidade. “Os adolescentes ficam instigados com experiências autênticas, muitas vezes instagramáveis, e com vivências que dão algum tipo de autonomia para eles,” diz ela. “Os adultos talvez busquem mais relaxamento ou turismo de natureza. Por isso, tem que ter equilíbrio no roteiro.” Há um fator, no entanto, que ela considera primordial: incluir os filhos no planejamento. “Quando eles ajudam a escolher as atividades, sentem que têm voz e não são arrastados pelos pais. Passam a participar melhor, e isso independe de idade.”

“Esse tipo de vivência fica para sempre porque conecta as crianças com a natureza de um jeito profundo e impossível de reproduzir em telasˮ

— Carol Buffara

Em família (estendida)

Daniela Magalhães, roteirista, levou as filhas de 8 e 10 anos para Madri e Barcelona no último julho junto aos avós das meninas. Ficaram duas semanas em apartamentos pelo Airbnb, acordando e dividindo o espaço. Viajar entre gerações é também se abrir para aprender sobre o diferente e sobre o outro. “Dividindo o apartamento, pudemos estreitar a intimidade com os avós delas. Foi uma convivência bem próxima por duas semanas, o que fez com que elas interagissem com os meus pais de maneiras novas. A caçula descobriu que, assim como minha mãe, ama as lojinhas de museus.” 

A experiência de Daniela tem nome: turismo multigeracional. E está em ascensão: o relatório Luxury Tailormade Travel Trends 2026 lista viagens entre diferentes gerações como um dos principais movimentos do turismo de luxo global.

Para onde mais viajar?

No Brasil, o Projeto Tamar é uma das opções mais interessantes para famílias. Com seis centros espalhados pelo litoral — Praia do Forte (BA), Fernando de Noronha (PE), Aracaju (SE), Vitória (ES), Ubatuba (SP) e Florianópolis (SC) —, o projeto oferece programação especial durante as férias escolares. Na unidade de Ubatuba, a atividade Biólogo por um Dia permite que crianças alimentem e deem banho em tartarugas marinhas e de água doce e participem de atividades de bem-estar animal. Em Aracaju e na Praia do Forte, há ainda a alimentação de tubarões e o Novo Submarino, espaço climatizado com aquários de animais de profundidade que só poderiam ser vistos a bordo de um submarino de verdade.

No Belmond Hotel das Cataratas, em Foz do Iguaçu, a proposta é igualmente impactante: o único hotel dentro do Parque Nacional do Iguaçu oferece acesso às Cataratas antes e depois do horário de visitação, com tucanos e queixadas circulando livremente pelo jardim.

Mais ao norte, o Mirante do Gavião Amazon Lodge, em Novo Airão (AM), às margens do rio Negro, é o destino brasileiro mais inusitado da lista ― e talvez o mais transformador. O lodge de luxo fica em frente ao Parque Nacional de Anavilhanas, o segundo maior arquipélago fluvial do mundo. A programação para famílias inclui trilhas, birdwatching, caiaques, SUP, focagem noturna de jacarés e visita a comunidades ribeirinhas ― uma janela para modos de vida que nenhum livro didático alcança.

No exterior

No Botsuana, a Wilderness opera dois lodges no Delta do Okavango: Mombo e DumaTau. Ambos oferecem suítes familiares, veículos privativos para game drives e o programa Bush Buddies, criado para crianças ― com identificação de pegadas, observação de aves e contação de histórias africanas ao redor da fogueira. No DumaTau, os pequenos podem ainda virar sous-chefs e ajudar no preparo de pizzas no bush. É exatamente onde Carol Buffara levou Maria Júlia. Para crianças acostumadas a aprender sobre animais em telas, ver um elefante de perto muda tudo.

Nos Estados Unidos, o resort Amangiri, em Utah, tem programação surpreendente. A Canyon Crossing Experience combina escalada, pontes suspensas e escavação de dinossauros a partir de fósseis reais, para crianças a partir de 6 anos. Para os mais velhos, há canoagem no Antelope Canyon e passeio de balão. Na Itália, o Aman Rosa Alpina, nas Dolomitas, transforma a montanha em laboratório de descobertas. As crianças saem para trilhas equipadas com mochila, lupa e caderno para registrar o que encontram ― insetos, fósseis, formações geológicas. O ponto alto é a visita ao Museu Ursus Ladinicus, que guarda fósseis de um urso pré-histórico. Para os adolescentes, há e-bikes, paredes de escalada, tirolesa e trampolins gigantes nos parques de altitude.

Na América do Sul, o Explora opera dois hotéis que funcionam sob a mesma lógica: ao chegar, a equipe de expedição monta um roteiro personalizado, levando em conta a idade e os interesses de cada filho. No Valle Sagrado, entre Cusco e Machu Picchu, as explorações passam por sítios arqueológicos, comunidades locais, onde as crianças aprendem sobre culturas que existem há milênios, e pelo rio Urubamba de bicicleta, com Machu Picchu como ponto alto do roteiro. No Atacama, o deserto mais árido do mundo vira cenário para cavalgadas nas dunas, banho nas Termas de Puritama e caminhadas entre vulcões e salares.

O cruzeiro da Cruise Line para o Alasca é uma das novidades mais aguardadas de 2026. Pela primeira vez, dois navios (o Magic e o Wonder) navegam simultaneamente pela região, partindo de Vancouver, no Canadá, em itinerários de sete noites entre maio e setembro. As rotas incluem Skagway, Juneau e Ketchikan, além da visita ao Glaciar Dawes, uma geleira de água doce que ultrapassa 180 metros de altura.

No Quênia, o Cottarʾs 1920s Camp, no Masai Mara, acaba de lançar o Tracks for Tomorrow, um safári conduzido por etnobotânico, astrônomo e guia local, com escola de guerreiro Maasai e experiência educativa com guepardos.

Na Grécia, o Club at Peligoni, em Zakynthos, oferece escola de natação com a campeã olímpica Rebecca Adlington, além de wakeboard e wing foiling com campeões mundiais. Em Roma, o Six Senses propõe aula de gladiador para 7 a 12 anos, combinando história e cosplay. E no Mandarin Oriental Marrakech, pais com crianças a partir de 5 anos podem participar de uma aula de apicultura com traje completo.

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