Durante boa parte da vida, Dieter Morszeck pensou em como tornar as viagens melhores. Em 1972, aos 21 anos, entrou na Rimowa, empresa de malas fundada por seu avô em Colônia, na Alemanha, e iniciou uma trajetória que ajudaria a transformar um negócio familiar em uma das marcas mais reconhecidas do mercado global de luxo.
Dieter deu continuidade à tradição de inovação que já marcava a história da família: liderou a expansão da Rimowa para o mercado japonês, um passo importante na internacionalização da marca e, em 2000, introduziu as malas de policarbonato, material mais leve e resistente que estabeleceria um novo padrão na indústria.
Em 2017, quase 45 anos depois de sua entrada na companhia, Dieter acertou a venda de 80% da Rimowa para a LVMH por € 640 milhões. Dieter permaneceu com 20% da empresa até que, em 2021, sua participação restante também foi adquirida pelo grupo.
A venda não representou sua aposentadoria. Dieter continuou envolvido em outros negócios, entre eles a aviação, outra de suas paixões. Mas foi em Portugal que surgiria um projeto de natureza bastante diferente daquele que havia marcado sua trajetória até então.
O homem que passou décadas pensando em como as pessoas viajavam decidiu criar, no Alentejo, um lugar para fazê-las parar.
Depois de visitar a Quinta do Paral e conhecer de perto a propriedade, conversei com Dieter Morszeck para o Page9 sobre o que o levou até ali, o que trouxe da experiência à frente da Rimowa e por que a Vidigueira acabou se transformando em um novo capítulo de sua vida.

Portugal não foi uma escolha aleatória. Depois da venda da Rimowa, as viagens de negócio diminuíram. Como Dieter havia vivido no Brasil e sua esposa, Lily Morszeck, é carioca, o casal procurou um lugar para viver na Europa onde houvesse proximidade de língua e cultura.
“Foi por isso que Portugal se tornou uma segunda pátria,” conta.
Em 2017, Dieter comprou 85 hectares na Vidigueira e iniciou o projeto da Quinta do Paral.
Não era uma folha em branco. Os primeiros registros encontrados da propriedade remontam a 1703, quando era conhecida como Quinta do Peral, com ‘e’, nome possivelmente associado à existência de pereiras no local. Ao longo de sua história, a quinta passou por famílias da nobreza portuguesa, entre elas o Visconde da Esperança e, mais tarde, o Conde de Palma e sua esposa, a Condessa de Santar.
Há algo familiar nessa situação. Na Rimowa, Dieter representou a terceira geração de uma família diante do desafio de preservar uma história e, ao mesmo tempo, levá-la adiante. No Alentejo, encontrou novamente um patrimônio anterior a ele e, de certa forma, a mesma questão: o que preservar e o que transformar?
Quando pergunto o que trouxe daquela experiência para a Quinta do Paral, a resposta é direta: “A minha filosofia é fabricar os melhores produtos.”
Para ele, essa mesma lógica está por trás do vinho e da hospitalidade. Dieter diz que, em menos de dez anos, a Quinta conseguiu produzir alguns dos melhores vinhos de Portugal e destaca que, no hotel, a preocupação com qualidade aparece também na escolha de materiais da região e no acabamento.
A antiga casa senhorial do século XIX, que pertenceu à Condessa de Santar, sobreviveu à transformação da propriedade e hoje faz parte do hotel.
É nesse cenário que contraste com a vida anterior de Dieter fica mais evidente.
Se uma mala é desenhada para acompanhar o movimento, a Quinta do Paral parece ter sido pensada para fazer exatamente o contrário.

O The Wine Hotel tem apenas 22 acomodações, entre quartos contemporâneos, apartamentos, suítes e a antiga casa senhorial.
A arquitetura não tenta reproduzir o luxo internacional que poderia estar em qualquer lugar. Arcadas de tijolos, paredes caiadas, terracota, madeira e celosias geométricas reinterpretam elementos da arquitetura alentejana em uma linguagem contemporânea. Algumas suítes ocupam o átrio central e são marcadas por grandes arcos de tijolos rústicos; outras se abrem para os jardins e para o horizonte das vinhas.
Há sofisticação, naturalmente. Algumas suítes chegam a cerca de 100 metros quadrados, com lareiras, terraços e banheiras de mármore travertino. Mas o maior luxo talvez esteja justamente no que não se consegue colocar numa ficha técnica: espaço, silêncio e tempo.
A própria Quinta define sua proposta como uma celebração do Alentejo e convida o hóspede a desacelerar, ouvir a terra e respeitar outro ritmo de vida.

A gastronomia segue a mesma direção. A cozinha usa ingredientes locais e sazonais, numa proposta de comfort food alentejana com um tratamento mais sofisticado. Há pão feito no forno a lenha, produtos da região e, claro, os vinhos produzidos poucos metros adiante.

Nada parece ter muita pressa.
A hospitalidade, porém, é uma extensão de um projeto que começou pelo vinho.
A Quinta do Paral trabalha com vinhas velhas da Vidigueira, algumas com mais de 60 anos, e com castas profundamente associadas à região. Entre elas está a Antão Vaz, talvez a variedade branca mais emblemática dessa parte do Alentejo.
Há também Arinto, Perrum, Aragonez, Tinta Grossa e Tinta Caiada, além de variedades internacionais. Nos vinhos que mais me interessaram durante a visita, porém, é justamente a identidade local que aparece com maior clareza.
O Vinhas Velhas Branco trabalha Antão Vaz e Perrum; o Vinhas Velhas Tinto, Aragonez e Tinta Grossa. E há um vinho de talha produzido com Tinta Grossa e Tinta Caiada.
Não se trata de dizer que a Quinta do Paral está reinventando o vinho alentejano. A região tem produtores históricos e projetos importantes anteriores a ela. O que chama atenção é uma propriedade relativamente nova buscar parte de sua identidade em elementos antigos da Vidigueira.
A poucos quilômetros dalí fica Vila de Frades, charmosa vila que se tornou uma espécie de guardiã do vinho de talha, tradição milenar em que uvas são fermentadas em grandes recipientes de barro.
A relação de Dieter com a vila está entrando em uma nova fase.
Ele está restaurando a Casa do Consulheiro, uma antiga casa senhorial que será transformada em hotel. Em frente, está sendo construída a Adega do Paral, uma adega abobadada ao nível do solo, onde a proposta é servir boa comida, os vinhos da Quinta e, naturalmente, Vinho de Talha.
“Vamos dar continuidade a uma antiga tradição,” disse Dieter.
Há também uma ambição que ultrapassa os limites da propriedade. “Vila de Frades ainda é um pouco adormecida, mas estou convencido de que terá um bom futuro e que os turistas virão conhecer esta interessante aldeia no coração da região vitícola.”
Aos poucos, ela passa a fazer parte do próprio projeto de Dieter no Alentejo.
Os vinhos da Quinta começam também a reunir reconhecimento internacional, embora eu ache mais interessante observar a consistência do projeto do que procurar um rótulo definitivo.
No Portugal 2026 Special Report, publicado por Tim Atkin MW (Master of Wine), um dos nomes mais respeitados do mundo do vinho, e assinado pela crítica Beth Willard, dez vinhos da Quinta do Paral foram avaliados entre 89 e 94 pontos.
Dois chegaram aos 94 pontos: o Tinto Reserva 2021 e o Vinho de Talha 2024. O Vinhas Velhas Tinto 2020 recebeu 93 pontos; o Superior Branco 2024 e o Vinhas Velhas Branco 2019 ficaram com 92.
Mas talvez o reconhecimento mais interessante seja outro. Na mesma publicação, o projeto recebeu o prêmio Wine Tourism Award.
Faz sentido.
A Quinta do Paral não parece querer ser apenas uma vinícola com um hotel, nem um hotel de luxo que por acaso produz vinho. Vinhas, adega, gastronomia, arquitetura, paisagem e, agora, uma relação cada vez mais próxima com Vila de Frades começam a formar partes de uma mesma história.
Durante décadas, Dieter Morszeck trabalhou para aperfeiçoar um objeto feito para acompanhar pessoas pelo mundo. No Alentejo, passou a construir o contrário: um lugar que tenta convencê-las a ficar.
Ao que tudo indica, o primeiro a ser convencido foi ele.















