As delícias de se atrasar para o futuro

As delícias de se atrasar para o futuro

Naquele Réveillon, o mundo ainda posava para o momento e a amizade não precisava de legenda

A fotografia sempre teve esse dom meio indecente de me brecar a alma. Você está vivendo, pagando contas, fingindo que entende de tecnologia e, de repente, uma foto antiga aparece. Pronto: o presente perde a autoridade.

Mas há algo diferente nessa e não é só imagem. É atmosfera. Essa foto tem cheiro de maresia, gosto de champagne e uma música tocando ao fundo. O mundo ainda não havia aprendido a posar para si mesmo. O sol queimava de verdade, os sorrisos não pediam aprovação e as amizades não precisavam de legenda. Eram amizades, e isso bastava.

Os laços eram feitos no sal da pele, no riso alto e nos segredos guardados. Ninguém precisava anunciar que estava “vivendo intensamente”. Quem vive intensamente não avisa, chega tarde, abre outra garrafa e perde o relógio.

O bronze não vinha de cabine, vinha de janeiro. A elegância não vinha do logotipo, vinha de casa. A lealdade não era discurso, era hábito. E amizade não era networking,  essa palavra horrorosa que transformou o amigo em oportunidade com telefone. Amizade era porto. Às vezes seguro, às vezes bêbado. Mas porto.

E que turma… Daquelas que não cabem numa fotografia, cabem apenas numa época. Da esquerda para a direita, desfilam como personagens de um romance escrito depois de duas taças: Cynira Arruda, Mirtia Galotti e Regina Marcondes Ferraz, nomes que não são pronunciados, são brindados.

Em seguida, uma loura misteriosa que a história teve a elegância de não identificar. Alguém sabe o nome dessa divindade? Porque mulher assim não aparece numa fotografia, ela faz aparição. Ela está apoiada no maior gentleman do Rio, Paulo Fernando Marcondes Ferrazbon vivant, polista, batuqueiro e boêmio. Um homem que parecia ter sido inventado por um compositor apaixonado depois de uma madrugada no Antonio’s.

Paulo Fernando pertencia a uma categoria masculina em extinção: sabia usar uma camisa branca, contar uma história, servir uma mulher e entrar numa roda de samba sem parecer que fazia pesquisa antropológica.

Era gentleman sem ser engomado, boêmio sem ser inconveniente e elegante sem cometer a cafonice de parecer preocupado com a própria elegância. Esse tipo de charme não se aprende: ou você nasce com ele, ou passa a vida comprando paletó italiano para disfarçar que não nasceu.

Ali também está Ilde Lacerda, eterna musa de Ibrahim Sued. E ser musa de Ibrahim não era para principiantes. Exigia sobreviver a jantares, champagnes, ciúmes e pelo menos três escândalos antes da sobremesa.

E Kiki Garavaglia, com aquele sorriso que não sorria para a câmera, sorria para a vida. Parece a mesma coisa, mas não é. Hoje, sorri-se para fazer uma fotografia; naquela época, fotografava-se porque alguém estava sorrindo.

Era Réveillon no Copacabana Palace. Jorge Ben comandava o show e o Rio ainda acreditava que uma noite podia resolver o ano inteiro. Início dos anos 1990, quando o branco das roupas não era tendência, mas esperança. Copacabana brilhava com aquela vulgaridade maravilhosa das cidades que sabem ser sofisticadas sem perder o rebolado. O champagne suava nos baldes de prata e o samba entrava pelos ouvidos para desorganizar educadamente o corpo.

Do lado de fora, o mar fingia inocência; lá dentro, Jorge Ben cantava. Havia mulheres fabulosas, homens bronzeados e garçons que sabiam mais segredos do que muitos psicanalistas. O mundo podia acabar, desde que acabasse depois do café da manhã.

A virada não chegava com lista de metas. As promessas eram sussurradas ao mar: um amor, uma viagem, mais coragem, menos saudade. Algumas durariam, outras morreriam antes do Carnaval, como deve acontecer com toda promessa feita sob efeito de Dom Pérignon e esperança.

Havia caviar, champagne e certa irresponsabilidade aristocrática diante do relógio. Mas havia, sobretudo, presença. As pessoas estavam inteiras no instante. Ninguém interrompia uma conversa para conferir se o mundo havia percebido sua felicidade: a felicidade precisava sobreviver sem testemunhas.

Hoje, antes de brindar, ajeita-se a mesa, procura-se a luz e repete-se o gesto. Naquela noite, primeiro bebiam. Se a fotografia saísse tremida, melhor: era sinal de que a vida também estava se mexendo.

Hoje temos filtros; eles tinham luz.

Hoje temos seguidores; eles tinham companheiros.

Hoje temos contatos; eles tinham histórias.

Hoje temos arquivos capazes de guardar tudo, menos a emoção exata de ter estado lá.

Esta fotografia não mostra apenas pessoas bonitas numa noite extraordinária. Mostra um tempo em que a vida não era conteúdo, era acontecimento.

Talvez seja essa a crueldade das fotos antigas: elas conhecem o futuro que seus personagens ignoravam. Nós olhamos sabendo o que o tempo fez, eles sorriem sem saber. É nessa diferença que a saudade arma sua emboscada.

Mesmo assim, não vejo tristeza, vejo o privilégio de ter vivido noites que não precisavam ser explicadas e de ter pertencido a uma turma cuja maior vaidade não era parecer feliz, era estar junta.

Uma grande fotografia não congela um instante, ela o solta novamente dentro de nós. E, por alguns minutos, Jorge Ben volta a cantar, o champagne volta a gelar, Copacabana volta a acreditar no amor e todos eles continuam ali, jovens, bronzeados, inteiros e maravilhosamente atrasados para o futuro.

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