O documentário Viva Marília, em cartaz nos cinemas, é diferente de todos aqueles que exploram a biografia de uma celebridade. Não se parece com um programa de televisão ou uma exaltação “chapa branca” sobre uma figura pública.
Existe uma linguagem definida para contar a vida e a trajetória da atriz carioca Marília Pêra (1943-2015). São dispensados os depoimentos de familiares, colegas e amigos. Só se ouve a voz de Marília, e o resultado é um jogo psicanalítico irresistível entre a atriz e o espectador, que assume o papel de terapeuta.
É Marília quem fala, se autoanalisa, se contradiz e se corrige através de entrevistas concedidas em mais de cinco décadas e cenas de personagens representativas no teatro, no cinema e na televisão. A própria artista oferece as ferramentas que explicam as qualidades que a consagraram como uma brilhante atriz e os defeitos que a tornaram polêmica nas relações pessoais e profissionais.
Nada disto, porém, é explícito ou gratuito. O bom entendedor desvendará a personalidade conflituada da estrela sem deixar de admirar a obstinada busca pela perfeição que fazia com que ela se jogasse nos desafios sem rede de segurança — e, algumas vezes, se machucasse. “Eu não tenho paciência para coisa morna,” diz no filme.

Dirigido por Zelito Viana e codirigido por Esperança Motta, filha da atriz com o jornalista e escritor Nelson Motta, autor do roteiro, Viva Marília é um documentário fiel ao personagem principal e respeitoso ao que seria a sua vontade até hoje, caso um câncer não tivesse tirado Marília de cena em 2015, aos 72 anos. Em seu documentário póstumo, a estrela continua a dona da própria narrativa.
O roteiro de Motta e a edição de Jordana Berg costuram as declarações de Marília com imagens que endossam o que acabou de ser ouvido. Algumas vezes, a artista fala através das personagens e parece ser a própria — em outras, o contrário. “Ela sempre mostrou a sua multiplicidade e reconhecia as contradições,” disse Esperança.
Marília Soares Pêra nasceu e cresceu pobre no Rio Comprido, bairro próximo ao centro do Rio. Entre as relíquias surgem imagens da infância que Esperança nem sabe como foram registradas. “Não conheci meu avô, mas todos diziam que ele idolatrava a filha, talvez algum amigo pudesse ter uma câmera e emprestou a ele,” arrisca a codiretora, já que, se fotografias eram raras na década de 1940, imagina filmagens.

Seus pais, o ator Manuel Pêra (1894-1967) e a atriz Dinorah Marzullo Pêra (1919-2013), segundo Marília, apesar de talentosos, não tiveram sorte, e a filha abraçou a missão de tornar o sobrenome famoso. “Meus pais sofriam com pouco dinheiro, papéis pequenos e isso me alavancou,” disse. “Eu decidi vingar a minha família.”
O tom dramático remete ao começo de tudo. Marília estreou nos palcos aos 4 anos, como uma das filhas que a Medeia da tragédia grega, interpretada por Henriette Morineau (1908-1990), matava todas as noites. Em outra peça, Frenesi, na mesma companhia de Morineau, a garotinha penava com um furúnculo real nos braços, e uma colega a apertou com força, conforme a cena exigia. A dor foi tanta que Marília não conseguiu chorar de mentira, como mandava o texto. Queria era chorar de verdade.
No intervalo, assim que caiu a cortina, veio a primeira bronca jamais esquecida. “Morineau me avisou que uma atriz pode morrer em cena, mas faz o que tem que fazer o seu papel até o fim,” lembra. “Ela ficou três dias sem falar comigo e foi a primeira noção de profissionalismo que recebi na minha vida teatral.”

Cenas como esta atestam a postura da atriz. Marília era exigente ao extremo com todos e, sobretudo, consigo mesma. Antes de cada entrevista, se preparava como se fosse defender uma tese diante de uma banca. Isto justifica a consistência dos trechos exibidos no filme. Por outro lado, respondia às perguntas com uma sinceridade rara de ser vista entre os colegas preocupados em agradar aos formadores de opinião.
Um exemplo é quando relembra o atentado sofrido pelo elenco de Roda Viva, peça de Chico Buarque dirigida por Zé Celso Martinez Corrêa (1937-2023). Em 18 de julho de 1968, integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) agrediram os artistas e depredaram o Teatro Ruth Escobar, em São Paulo. “Eu não tinha noção da importância política daquele espetáculo,” confessa. “Era alienada, na minha casa não se falava em política.”
Versátil como poucas, Marília transitou com técnica e talento entre o drama e a comédia, produzia e dirigia teatro e dançava e cantava quando musical era coisa de americano na Broadway. Coerente em suas convicções, priorizou o teatro mesmo quando as bilheterias não correspondiam às suas expectativas e, no auge da Rede Globo, ficou longe da televisão entre 1974 e 1987 — a exceção foi a minissérie Quem Ama Não Mata, em 1982.

No cinema, brilhou em O Rei da Noite (1975) e Pixote — A Lei do Mais Fraco (1980), dirigidos por Hector Babenco, e Bar Esperança — O Último que Fecha (1983), de Hugo Carvana. Considerava o seu papel em Central do Brasil (1998), de Walter Salles, muito pequeno. Admite, porém, que ficou feliz com a repercussão internacional do filme protagonizado por Fernanda Montenegro.
Como filha, Esperança não disfarça o orgulho da mãe genial. Umas das suas lembranças mais vivas é a emoção de vê-la ovacionada em Paris por dez minutos no final da peça Mademoiselle Chanel, dirigida por Jorge Takla em 2004. Marília interpretou a estilista francesa em um teatro do Champs-Élysées falando em português.

Esperança confessa que, muitas vezes, sentiu raiva do teatro, responsável pelas ausências de uma mãe que nunca jantava em família ou colocava os filhos para dormir. Por outro lado, a mulher, que jamais se identificou como feminista, ensinou a ela e a irmã (a atriz Nina Morena, de 46 anos) a importância de ser independente para pegar a bolsa e sair de onde não estivessem à vontade.
“Com o tempo, entendi a capacidade dela de dar conta da carreira, da casa, dos filhos e, mesmo quando eu fazia a maior bobagem, era a minha mãe que sempre estava ao meu lado,” declara. “Por isso, acho importante quebrar a imagem da diva inatingível, atriz admirável e mostrá-la no filme do jeito mais humano possível.”















