Cinco dicas (e um alerta) para sua viagem a Mendoza

Cinco dicas (e um alerta) para sua viagem a Mendoza

As vinícolas de excelência e a alta gastronomia — a poucas horas do Brasil

MENDOZA, Argentina – Um portão discreto numa estrada arborizada marca a entrada da Cheval des Andes, esta vinícola preciosa em Lujan de Cuyo, aqui nos arredores de Mendoza.

Ao cruzá-lo, já nos encontramos em meio a um vinhedo imaculado, de onde sai um dos melhores vinhos argentinos da atualidade. Com uma vista espetacular dos picos nevados da Cordilheira dos Andes ao fundo, somos recebidos para uma visita exclusiva seguida de degustação, num ambiente simples e elegante.

A Cheval des Andes – uma parceria entre o mítico Château Cheval Blanc, de Bordeaux, e a argentina Terrazas de los Andes – foi fundada em 1999 e é seguramente um símbolo da evolução da indústria de vinhos do país vizinho. Até o século passado, o cenário argentino era de vinícolas tradicionais e familiares, produzindo vinhos medianos, baratos e muito voltados ao mercado interno.

No final dos anos 90, tudo começou a mudar. Mendoza tornou-se o epicentro de um processo extremamente rápido de evolução, com investimentos externos, o surgimento de vinícolas de padrão internacional e o desenvolvimento de um setor de turismo pujante e cada vez mais sofisticado.

A poucas horas de voo do Brasil, Mendoza se consolidou, portanto, como uma excelente opção para quem quer apreciar vinhos de alta qualidade numa região de grande beleza natural. Para aqueles dispostos a gastar um pouco mais, aqui vão cinco dicas – e um alerta importante – para planejar sua viagem a Mendoza.

A primeira é tentar agendar uma visita à Cheval des Andes. O processo é complicado porque a vinícola aceita apenas um grupo de visitantes por dia – mas vale muito a pena pela beleza e elegância do lugar e a qualidade dos vinhos. Diferentemente da quase totalidade das vinícolas argentinas, a Cheval des Andes produz apenas um rótulo, o que significa que usa apenas as melhores uvas de cada safra em seu vinho.

Seguindo a tradição de Bordeaux, a vinícola muda a composição do seu vinho ano a ano: na safra de 2021, a mais recente disponível no mercado, o blend é de 49% Cabernet Sauvignon, 48% Malbec, e 3% Petit Verdot.

A segunda dica é não perder a oportunidade de conhecer o Valle de Uco, outra das principais regiões produtoras de Mendoza. A pouco mais de uma hora do centro da cidade, Uco se destaca pelas belezas naturais e por estar ainda mais perto da cordilheira do que Lujan de Cuyo. Além disso, a região reúne algumas das vinícolas mais famosas de Mendoza, como Salentein, Rutini, Alfa Crux e Zuccardi.

Uma boa opção no Valle de Uco é conhecer o complexo vitivinícola Clos de los Siete, fundado pelo famoso (e polêmico) enólogo francês Michel Rolland, falecido em março.

O Clos de los Siete conta com quatro vinícolas independentes e oferece a possibilidade de conhecer vinhos diferentes e de alta qualidade na mesma área.

As quatro são a Bodega Rolland, de propriedade do fundador e sua família; a Bodega Cuvelier de los Andes, da família que controla o excepcional Château Leoville-Poyferré em Bordeaux; a Bodega DiamAndes, da família do Château Malartic-Lagravière, também de Bordeaux; e a Bodega Monteviejo.

A terceira dica em termos de vinho é conhecer o trabalho do enólogo Karim Mussi. Um dos wine makers mais criativos da Argentina, Mussi lidera um grupo de vinícolas em Mendoza, como Alandes e Altocedro, e em Salta (província mais ao norte), como a Abras.

Mas um dos destaques de seu trabalho é a linha Jardín de los Caprichos. Trata-se de uma série de vinhos de edição limitada, numerados e criados de forma experimental, elaborados a partir de barricas únicas que fogem do padrão comercial da vinícola.

Cada rótulo possui um nome e uma personalidade próprios, que refletem as paixões de Mussi por música, literatura e arte. Os vinhos podem ser varietais ou cortes complexos, muitas vezes sem uma safra declarada (non-vintage) para priorizar a expressão artística do enólogo. 

Por serem edições extremamente pequenas, não são encontradas no varejo comum. Geralmente são comercializadas diretamente na bodega, localizada em Maipu, ou destinadas aos membros do seu clube de vinhos, disponível no Brasil. O Jardin de los Caprichos n0 15, por exemplo, é um varietal de Cabernet Sauvignon, com passagem de 18 meses em barris de carvalho francês, da safra 2018.

A quarta dica é na gastronomia, que se desenvolveu muito em Mendoza nas últimas décadas, inclusive com o surgimento de várias casas com estrelas Michelin. Há dois lugares que gostaria de destacar, sendo um para almoço e outro para jantar.

Para almoçar, a dica é o Siete Fuegos, a casa do chef argentino Francis Mallmann, que se tornou mundialmente famoso pelo uso criativo das brasas no preparo das carnes. Localizado no complexo The Vines Resort and Spa, no Valle de Uco, o Siete Fuegos é um paraíso para os carnívoros, com cortes típicos argentinos, como a tira de asado e a entraña. Já na parte de vinhos, o restaurante se destaca pela simpatia e competência da sommelière brasileira Lidia Lima, recém-chegada à Argentina depois de uma temporada na região de Napa.

Outra opção imperdível, esta para o jantar, é o estrelado Casa Vigil, de propriedade do enólogo Alejandro Vigil, famoso por seu trabalho para as bodegas Catena Zapata e El Enemigo. O restaurante fica num complexo inspirado na história da Divina Comédia, de Dante, e é cercado de vinhedos. Nos seus vários salões, é servido um menu degustação criativo com produtos locais, que pode ser acompanhado de uma excelente harmonização com vinhos de Vigil.

A quinta dica é um hotel-boutique localizado em uma tranquila área residencial de Lujan de Cuyo, central para quem quer aproveitar todas as atrações de Mendoza. Trata-se do Susana Balbo Winemaker's House & Spa Suites, membro da rede Relais & Châteaux.

De propriedade da famosa produtora Susana Balbo, uma das primeiras mulheres enólogas de Mendoza, o hotel possui apenas sete suítes, algumas com 72 metros quadrados, sauna privativa e banheira. Discreto, elegante e silencioso, ele se destaca também pelo serviço personalizado e eficiente, e pela possibilidade de realizar degustações programadas com os vinhos da proprietária, inclusive seu famoso branco de uva Torrontés.

O restaurante do hotel também é um ponto alto: recomendado pelo Guia Michelin, o La Vida possui uma carta enxuta mas extremamente bem executada, com opção de menu degustação ou à la carte. É possível também realizar harmonizações com os vinhos de Susana Balbo.

“Mas e o alerta?”, você já deve estar se perguntando. Aqui vai: apesar de muitos afirmarem o contrário, existem operações de lei seca nas estradas da região. No trajeto de volta de nossa viagem ao Valle de Uco, todos os carros estavam sendo parados no posto policial da Ruta Nacional 40, a principal via de acesso às vinícolas da área.

E a oficial que nos abordou não estava sequer interessada em ver os documentos do carro; pediu apenas minha carteira de motorista e solicitou que eu fizesse o teste do bafômetro.

Diferentemente do resto da Argentina, a legislação do trânsito da Província de Mendoza permite um limite de até 0,5 g/l de álcool no sangue para motoristas de carros, e o meu teste ficou bem abaixo do que a lei autoriza.

De qualquer forma, para evitar problemas e tirar uma preocupação da cabeça, o ideal é contratar um motorista ou guia para as visitas às vinícolas. 

Flávio Ribeiro de Castro ama comer e beber bem.