Sou de uma época em que ser uma influência era xingamento de mãe e não plano de carreira. Nada contra, eu nado contra, e toquemos o barco porque talvez este seja apenas o momento histórico em que finalmente começamos a colher os frutos de décadas pagando mal aos professores.
O que sempre me intrigou é um hábito muito particular dessa categoria profissional de anunciar que está num lugar que “quase ninguém conhece”, sacando o telefone como se fosse bússola para comunicar ao mundo que acaba de descobrir um segredo. A frase parece inofensiva, mas diz muito mais sobre quem a pronuncia do que sobre o lugar, pois há um abismo entre admitir “eu não conhecia” e decretar que “quase ninguém conhece”. A primeira frase reconhece um limite do próprio repertório e a segunda transforma esse limite em privilégio. De repente, a própria ignorância deixa de ser uma lacuna e passa a parecer acesso exclusivo.
Dias atrás encontrei um belo exemplar deste fenômeno. Uma jornalista brasileira importante da era pré-internet publicou uma fotografia numa praia portuguesa que, segundo ela, “quase ninguém conhecia”. Ao fundo havia famílias que frequentam aquele areal desde que a avó usava engana-mamãe, crianças correndo com picolé verde flúor escorrendo pelos dedos, homens com uma pança do tamanho da fome maldizendo senhoras acima do peso... enfim o cotidiano mais banal de um lugar conhecido há décadas por milhares de pessoas, menos por ela.
O mais curioso é o papel desempenhado por essa palavra minúscula: quase. Dizer que ninguém conhece exigiria uma dose de delírio incompatível até com as redes sociais, mas o “quase” resolve o problema. É uma espécie de airbag moral da vaidade contemporânea: permite exagerar sem mentir completamente; conserva o ego intacto enquanto lhe empresta um toque de modéstia. Se alguém contestar, basta responder que nunca se disse “ninguém” – apenas “quase”.
O telefone entra nessa história como cúmplice perfeito; não porque registre a viagem, mas porque a transforma imediatamente numa narrativa de descoberta. Cada praia vira joia escondida, uma vila italiana torna-se um segredo bem guardado, todo pedaço do Mediterrâneo é um lugar que ainda não foi explorado – a propósito, é curioso atribuir anonimato a um mar que já foi navegado por fenícios, gregos, romanos, árabes, venezianos, cruzados, mochileiros alemães, aposentados ingleses e excursões da CVC. Há mais de dois mil anos passa gente por ali, mas bastou, porém, um voo low cost, uma press trip com influencers seguidos por milhões e um algoritmo generoso para surgir mais um Colombo.
Na verdade, ninguém quer descobrir um lugar realmente desconhecido porque o desconhecido dá trabalho. Não aparece nas listas, não tem avaliações, não oferece a tranquilidade de saber que milhares de pessoas já fotografaram exatamente o mesmo pôr do sol sem morrer de intoxicação alimentar. Procuramos um lugar que já tenha sido aprovado pelos outros, mas que ainda nos permita representar a fantasia da descoberta. É aí que mora a contradição, pois o influenciador vende exclusividade justamente a partir do consenso; precisa que milhares de pessoas já tenham validado o restaurante, a praia ou o hotel para chamá-los de “achado”. O segredo só funciona depois de viralizar.
Há quem chame isso simplesmente de vaidade, mas eu acho pouco. Vaidade sempre existiu: reis erguiam estátuas, burgueses encomendavam retratos, aristocratas brigavam pelo lugar de honra à mesa e nada disso exigia rebatizar o mundo a cada demonstração de amor-próprio. O ego sempre encontrou maneiras de se exibir, mas o que há de novo é a necessidade de transformar o mundo inteiro em figurante da própria autoestima.
A filósofa Marilena Chaui deu um nome muito mais interessante a esse mecanismo: subjetividade narcísica. Não se trata apenas de gostar da própria imagem, mas de transformar a experiência inteira num espelho. O mundo deixa de ser algo que encontramos e passa a existir como cenário daquilo que sentimos, pensamos e, sobretudo, publicamos. A praia deixa de valer por sua história, pelos pescadores, pelas famílias que a frequentam há gerações ou pelos verões acumulados naquela areia. Passa a valer porque eu estive ali, porque a fotografei e porque agora ela faz parte da minha narrativa.
É uma inversão discreta, mas profunda. A frase deixa de ser “eu nunca tinha ouvido falar deste lugar” e passa a ser “este lugar só começou a existir quando eu ouvi falar dele”. Parece exagero, mas é exatamente isso que se esconde por trás de um inocente “quase ninguém conhece”.
A descoberta nunca foi geográfica, mas autobiográfica. Talvez seja por isso que, muito antes das redes sociais, João Falcão tenha construído A Dona da História sobre uma intuição parecida. A peça, uma delícia com Marieta Severo e Andréa Beltrão nos distantes anos 1990, parte da ideia desconfortável de que a memória não guarda simplesmente o mundo; ela o reorganiza para que caiba dentro da narrativa que fazemos de nós mesmos. Pessoas, lugares e acontecimentos passam a existir, para cada um de nós, na forma como conseguimos contá-los. É uma ideia bonita quando nasce da memória, porque toda lembrança também é uma forma de invenção.
Nas redes sociais, porém, essa lógica sofre uma mutação curiosa. A memória deixa de reorganizar o passado e passa a disputar o presente. O lugar já não é reinterpretado anos depois, pois precisa nascer imediatamente como narrativa. A praia ainda está cheia de gente, o café mal chegou à mesa, o garçom ainda nem trouxe a conta, e o telefone já trabalha para convencer o resto do mundo de que aquilo acaba de ser descoberto.
Talvez seja por isso que quase ninguém mais diga simplesmente “eu não conhecia” e hoje preferimos acreditar que descobrimos um segredo a admitir que apenas ampliamos um pouco o nosso repertório. A praia continuou exatamente onde sempre esteve. O desconhecido, no fim das contas, éramos nós.















