Em grupos de mulheres, é comum ouvir a frase "não está fácil a vida da mulher hétero", dita meio brincando, meio a sério. O comentário encontra eco em um filme que ainda nem chegou aos cinemas, mas já está causando rebuliço nas redes sociais.
Desde o lançamento de seu primeiro trailer, no fim de julho, e da exibição no Festival de Sundance de 2026, Wicker ultrapassou as barreiras das salas de cinema e ganhou grande repercussão nas plataformas digitais.
O conceito de uma pescadora que encomenda um marido feito de vime e a caracterização física do personagem interpretado por Alexander Skarsgård geraram uma onda de comentários bem-humorados no X, no Reddit, no TikTok e no Instagram, especialmente de mulheres hétero.
O próprio Skarsgård alimentou a brincadeira em entrevista à Entertainment Weekly, afirmando em tom irônico que a maioria dos atores masculinos sonha em interpretar Hamlet, mas que sempre sonhou ter mamilos feitos de vime.
Em fóruns e redes sociais, a premissa do longa foi recebida com entusiasmo por muitas mulheres. Comentários multiplicaram trocadilhos com a palavra wood (madeira ou pau) e brincadeiras sobre os riscos de arranhões com farpas. Algumas usuárias compararam a trama a uma versão adulta de Pinóquio, centrada na relação entre a personagem de Olivia Colman e seu companheiro de vime.
A repercussão também estimulou discussões sobre a forma como o público e a crítica recebem histórias semelhantes. Criadoras de conteúdo observaram que narrativas sobre homens que desenvolvem vínculos com companheiros artificiais ou não humanos costumam ser tratadas como reflexões profundas sobre solidão e afeto.
Já Wicker, centrado nos desejos de uma mulher madura, foi inicialmente visto por parte do público como uma proposta excêntrica. Para muitas espectadoras, justamente essa combinação de desejo feminino, humor e sátira social constitui o principal atrativo do filme.
Dirigido e adaptado pela dupla de cineastas independentes Alex Huston Fischer e Eleanor Wilson (conhecida pela comédia de ficção científica Salvem-se!), o filme adapta o conto The Wicker Husband, escrito pela britânica Ursula Wills-Jones no início dos anos 2000 e sem tradução oficial no Brasil.
Fábula poética e sombria, o texto subverte o mito de Pigmaleão ao colocar uma mulher marginalizada no centro da narrativa. Na história, uma pescadora solitária, cansada das humilhações do vilarejo, encomenda a um cesteiro um marido feito de ramos trançados. A criação ganha vida com uma devoção absoluta à esposa, provocando a inveja dos moradores locais, incapazes de aceitar a felicidade da protagonista.
Misturando realismo mágico e sátira social, a obra explora temas como o desejo, a autonomia feminina e a hipocrisia comunitária, o que já havia inspirado um premiado musical britânico em 2020 antes de chegar aos cinemas. Após as exibições no circuito de festivais, o filme recebeu avaliações majoritariamente positivas da crítica especializada.
A trama é ambientada em um pequeno vilarejo costeiro medieval marcado por uma cultura patriarcal e uma estrutura social rígida. Nesse microcosmo, os homens são identificados pelos nomes de seus ofícios – como o Padeiro, o Coureiro ou o Cesteiro –, enquanto as mulheres ocupam posições subordinadas à figura masculina, sendo nomeadas de forma atrelada ao estado civil ou familiar, como a Filha do Médico ou a Mulher do Alfaiate.
No centro da narrativa está a Pescadora, interpretada pela vencedora do Oscar Olivia Colman. Vendo-se solteira, isolada nos limites da comunidade e constantemente ridicularizada pelos moradores locais devido ao seu hábito e ao cheiro característico de seu trabalho, a personagem decide reagir à chacota coletiva. Em um ato de provocação e sarcasmo, ela encomenda ao Cesteiro (Peter Dinklage) a confecção de um marido feito de ramos de vime.
O conflito central se desenrola a partir do momento em que o Marido de Vime ganha vida demonstrando uma natureza gentil, prestativa e de devoção absoluta à esposa, sintetizada na premissa de que sua sua razão de existir parece resumir-se à felicidade da esposa. A rotina da Pescadora é transformada pela proximidade emocional e física com o marido encomendado.
O contentamento da Pescadora desperta uma onda de inveja e indignação entre os moradores do vilarejo. A antagonista da história, a Mulher do Alfaiate (Elizabeth Debicki), torna-se obstinada em desestabilizar a união, incomodada com a quebra das convenções sociais da comunidade.
O elenco de apoio conta ainda com Nabhaan Rizwan no papel do Alfaiate, Marli Siu como a irmã do Cesteiro, Ben Ashenden como o Padeiro, Gustav Lindh como o Lavador de Garrafas e Richard E. Grant na pele do excêntrico e incompetente médico da vila.
A fábula de 105 minutos propõe debates sobre o casamento tradicional e as estruturas sociais rígidas. Ao apresentar um relacionamento onde o homem de vime se coloca em posição de total dedicação à esposa, o filme inverte a dinâmica tradicional de poder no casamento. Também evidencia o desejo e a busca por realização pessoal de uma mulher madura e o quanto isso ainda é visto como tabu na sociedade.
Um dos aspectos mais destacados pela crítica na produção de Wicker é a concepção tátil do Marido de Vime, viabilizada por efeitos desenvolvidos pelos maquiadores Joe Dunckley e Mathew Matangi, em parceria com a empresa neozelandesa Wētā Workshop. A figura tecida combina resina e trançados manuais com a expressividade do olhar e da barba de Skarsgård, evitando o uso ostensivo de computação gráfica.
O trabalho de direção de som de Andy Neil atribui ao personagem um estalo característico de madeira a cada movimento, conferindo vulnerabilidade e presença física à criatura. A fotografia, assinada pelo premiado diretor de imagem Lol Crawley (O Brutalista), utiliza uma paleta de tons quentes e iluminação de luz natural ou de fogo, enquanto a trilha sonora de Anna Meredith transita entre o humor e o suspense poético.
Ainda não há data prevista para Wicker chegar às telas ou às plataformas de streaming no Brasil. O filme tem estreia marcada em circuito limitado nos Estados Unidos em outubro. Até lá, Wicker já conquistou algo raro: transformar um filme ainda inédito em assunto constante de debate, humor e fantasia nas redes sociais.















