O Brasil é um dos países que mais consomem a própria música. Ao mesmo tempo, vem aumentando sua capacidade de exportá-la. À primeira vista, os dois movimentos podem parecer contraditórios. Para mim, dizem exatamente a mesma coisa.
Em 2026, o País chegou à oitava posição no ranking mundial de poder de exportação musical da Luminate. Enquanto isso, o mercado global parece estar cada vez mais aberto a músicas que escapam do eixo anglófono tradicional. Artistas de diferentes partes do mundo vêm ganhando espaço, impulsionados também pelo interesse crescente por gêneros regionais e por perspectivas culturais distintas.
Talvez isso mude a maneira como pensamos a internacionalização.
Durante muito tempo, parecer global significou, de alguma forma, parecer menos local. A música brasileira sugere o contrário: talvez seja justamente uma identidade forte em casa que desperte interesse lá fora.
Quando consumimos nossa própria música, fortalecemos um mercado. Esse mercado gera investimento, profissionalização e experimentação, além de permitir que artistas continuem produzindo. Quanto mais produção existe, mais uma linguagem se desenvolve. E quanto mais própria ela se torna, mais difícil é confundi-la com qualquer outra. Talvez essa seja uma das principais lições da música brasileira: a internacionalização pode ser consequência do fortalecimento local.
Existe ainda uma característica do Brasil que torna esse processo particularmente interessante. Nossa identidade já nasce da mistura. Somos um País formado por encontros, mas também por conflitos, entre povos indígenas, africanos, europeus, asiáticos e tantas outras culturas e movimentos migratórios. Essas influências foram absorvidas, transformadas e recombinadas de maneiras diferentes em cada região. Por isso, ser local no Brasil nunca significou ser homogêneo.
O brasileiro já contém o mundo.
Nossa originalidade está na maneira como mesclamos referências. Incorporamos influências que também existem em outros lugares e, a partir delas, criamos algo que só poderia ter acontecido aqui. Samba, funk, bossa nova, forró, tecnobrega, sertanejo e tantas outras manifestações nasceram de encontros, transformações e contradições culturais.
É essa mistura que pode ser uma das nossas maiores vantagens competitivas culturais. Penso que a nossa música talvez esteja mostrando o caminho para as outras indústrias criativas.
Primeiro criamos para nós. Consumimos, criticamos, melhoramos, investimos, criamos mercado. Isso não significa consumir brasileiro simplesmente porque é brasileiro. Não se trata de nacionalismo. Trata-se de reconhecer valor antes que ele precise ser certificado por alguém de fora.
Quando o brasileiro deseja sua própria música, sua moda, seu cinema, sua gastronomia, seu design e sua arte, cria condições econômicas para que essas indústrias cresçam. E, quando crescem juntas, uma passa a fortalecer a outra.
Nesse momento, já não estamos exportando apenas produtos. Estamos construindo um imaginário de Brasil. E talvez seja essa a grande oportunidade que temos agora: entender que a nossa mistura não é algo que precisamos organizar, suavizar ou simplificar para que o mundo consiga compreender. A mistura é o código.















