Mariana Moura investiga o que significa herdar

Mariana Moura investiga o que significa herdar

A autora investigou o que significa herdar – e conta que tem mais a ver com identidade do que com dinheiro

Herdar é um verbo transitivo direto, pois sempre requer um objeto. Quem herda, herda algo: uma condição genética, um “sangue azul”, um caderno de receitas, um sobrenome, uma empresa, uma fortuna. A herança vai muito além do patrimônio, mas, ainda assim, poucas figuras despertam tanto fascínio — e tantos estereótipos — quanto a do herdeiro. 

Mariana Moura conhece bem esse paradoxo. Neta mais velha dos fundadores da Baterias Moura, estudou na Kellogg, na INSEAD e em Harvard; acaba de lançar seu segundo livro; fundou uma consultoria e se tornou uma referência em governança familiar. Mesmo assim, não é raro que, ao subir ao palco para falar sobre sucessão, seja apresentada como “a herdeira da Baterias Moura”. Um “problema” que muitos gostariam de ter. 

Nascida em Belo Jardim, interior de Pernambuco, Mariana, 48 anos, cresceu em uma família conhecida por sua trajetória empresarial. Atualmente, é vice-presidente do conselho de acionistas da empresa — fundada há 70 anos e hoje com sete mil funcionários — e dedica parte de sua carreira a estudar os desafios das famílias empresárias. 

Há 15 anos nessa função, Mariana aprendeu que o maior risco do privilégio não é perdê-lo, mas acreditar que o merece. “Esse imaginário da herdeira, de ocupar um lugar especial na sociedade, é sedutor, mas perigoso: o risco é você se achar mais importante do que os outros. Dá para brincar com esse lugar, mas não construir sua identidade a partir dele.” Qualquer semelhança com a forma como é retratada neste editorial, não é mera coincidência.  

O mito de que empresas familiares estão fadadas a desaparecer na terceira geração é desmistificado em seu novo livro, Herdeiros (Companhia das Letras). O enredo mostra que o verdadeiro problema é emocional, não geracional — e que boa parte da sua pesquisa, no fundo, nunca foi só sobre os outros.

Page9: Em seu novo livro, você propõe olhar a sucessão sob uma perspectiva emocional e não só como uma transferência de poder. O que essa visão deixa de lado?

Mariana Moura: Uma dimensão essencial: o filho ou a filha não está simplesmente assumindo uma posição — mas substituindo uma figura parental. E isso é doloroso para quem é substituído; para quem assume e para toda a família. Mas a sucessão não é substituição, ninguém ocupa o lugar de ninguém. Você assume um novo papel numa nova configuração. Por isso, governança e acordos são tão necessários: é o que regula o poder de quem chega. Nunca vi um processo de sucessão sem muita carga emocional.

De todos os seus privilégios, qual considera o mais valioso — e qual o mais pesado de carregar? 

Existe o privilégio no sentido de presente — algo que você recebeu e que é valioso. E existe o privilégio no sentido estrutural, que gera exclusão e opressão. Pegando a primeira conotação, eu tenho  uma família da qual me orgulho muito. Meu avô fundou a Baterias Moura numa cidade que tinha um carro, talvez dois. Tem uma coisa de visionário nessa história, de alguém com muito apetite ao risco. Minha avó foi cofundadora da empresa, com as mesmas cotas e o mesmo poder de voto que meu avô. Depois de todos esses anos trabalhando com outras famílias, nunca vi um caso assim. Ela sempre foi uma grande referência para mim. Em relação ao peso, sempre tive um senso muito grande de responsabilidade com o legado. É algo mais forte do que eu.

Herdar é também herdar o sonho do outro?

A gente herda as expectativas e os sonhos da geração anterior. Mas tem um elemento que trago no livro: a traição virtuosa. Em algum momento, é necessário trair esse sonho para trazer sua identidade e atualizar o legado. E por que virtuosa? Porque não é uma traição pela traição — é em prol do negócio, da adaptação, de mudança que tudo requer ao longo da vida.

Na prática, onde você encontra motivação para trabalhar, sem ter um boleto com que se preocupar?

Essa reflexão muita gente me traz. A ideia de que as pessoas só trabalham pelo dinheiro é um certo mito. Tem pessoas bilionárias que trabalham muito e continuam em busca de realizar, de fazer. Essa busca extrapola o financeiro. No final, a gente precisa encontrar outras fontes de motivação — e tenho o privilégio de poder buscá-las. Deve ser muito vazio não ter esse lugar. Não construir, não realizar.

Qual é o principal legado que gostaria de deixar para suas filhas — independentemente de patrimônio?

O mais importante é o exemplo — não adianta catequizar. Tento ajudá-las a entender o que elas querem e como vão fazer escolhas. Não as coloco em um trilho. Tento apoiar, mas acho importante que elas se joguem, que experimentem. Tenho uma referência de educação que me ajuda a ser uma mãe mais intuitiva e menos seguidora de manuais. E o que tento passar é: não se enganem com o lugar de privilégio. Não achem que são melhores, que estão ali porque merecem. Esqueçam esse lugar de merecimento. É sorte, mas também é um problema. O privilégio é uma condição estrutural que gera desigualdade e opressão. Existe uma responsabilidade de questionar esse modelo.

Você atua no conselho da empresa da sua família. Como foi esse processo?

Na década de 1990, a segunda geração tomou uma decisão: a terceira não trabalharia na operação. Os cargos de gestão seriam preenchidos por executivos de mercado. Mas isso gerava uma questão: quem ia tocar a empresa? Então criamos um pacto — fizemos cursos, conversamos com outras famílias, fizemos muito benchmark — e montamos nossa estratégia: ser uma empresa comandada pela família, por meio de uma governança próxima e contributiva, mas com a gestão nas mãos de executivos. Preparar pessoas para o conselho não é trivial. É tão desafiador quanto preparar para um cargo executivo. Se a gente não tivesse feito nada, teria precisado vender a empresa.

Que transformação você espera provocar com seu novo livro?

Gostaria que o livro provocasse reflexão. Que, ao se depararem com um incômodo, as pessoas não o refutassem, mas ficassem curiosas com ele. Porque onde dói, onde incomoda, é onde existe uma oportunidade de aprendizado.

O que é sofisticação para você?

Penso em pessoas que têm sabedoria de viver. Sofisticação para mim não é glamour, não é só aproveitar a vida. É estar sempre aprendendo, buscando se desenvolver, entendendo a nova geração, as mudanças, o contexto. É a capacidade de se desafiar a entender um pouco mais, a desaprender e construir uma vida mais autêntica. 

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