O ex-piloto da Fórmula 1 que corre pela preservação das onças

O ex-piloto da Fórmula 1 que corre pela preservação das onças

Mario Haberfeld faz da urgência o método do Onçafari, que completa 15 anos com 8 frentes de atuação

A velocidade é a herança menos óbvia e mais determinante da carreira de Mario Haberfeld, que passou quase 20 anos competindo no automobilismo internacional, com passagens pela Fórmula 1 e pela Fórmula Indy.

A urgência de correr contra o tempo também orienta o Onçafari, fundado por ele em 2011 como uma iniciativa de ecoturismo no Pantanal e hoje estruturado em 8 frentes de atuação.

A carreira nas pistas moldou sua forma de gestão, sobretudo na importância atribuída ao trabalho coletivo e à atenção aos detalhes. “O automobilismo parece um esporte de uma pessoa só, mas é um esporte de equipe. Tem 100, 200 pessoas trabalhando no carro e, se alguém deixar um parafuso solto, o piloto não faz nada,” diz.

Em uma corrida, um milésimo de segundo pode decidir uma posição. Já na conservação, o tempo se mede em hectares desmatados, animais perdidos e focos de incêndio que se tornam incontroláveis em poucas horas. “Infelizmente, na batalha da conservação, a gente está perdendo. Mais floresta é desmatada do que regenerada. Então existe essa urgência de ampliar o nosso impacto da forma mais rápida possível,” diz.

Esse interesse pelos animais antecedeu o circuito de pistas internacionais — Haberfeld tinha 12 anos quando o pai o levou para seu primeiro safári, na Tanzânia. Durante 15 dias, atravessou o Serengeti na caçamba de um caminhão, montando barracas no fim do dia e tomando banho quando encontravam alguma cachoeira pelo caminho. Desde então, voltou à África todos os anos, exceto durante a pandemia.

Por volta dos 30, as viagens deixaram de ser movidas apenas pelo desejo de conhecer lugares e ele passou a observar a estrutura econômica desenvolvida ao redor das reservas. Na África, a vida selvagem atraía visitantes, sustentava hotéis, criava empregos e oferecia às comunidades uma razão concreta para preservar espécies que antes ameaçavam o gado. No Pantanal, a onça-pintada ainda ocupava o lado oposto dessa equação, sendo vista como inimiga da pecuária e fonte de prejuízo.

Lá, o animal poderia exercer um papel semelhante ao do leão nos safáris africanos, levando visitantes à região e movimentando uma cadeia econômica baseada na preservação. O modelo, no entanto, dependia de algo que ainda não existia: a possibilidade real de avistar uma onça.

Na Caiman Pantanal, primeira base do projeto, uma onça era vista apenas 2 ou 3 vezes por ano, quase sempre de passagem. A equipe passou a identificar e acompanhar os animais com colares de monitoramento, armadilhas fotográficas e observações em campo com presença regular de veículos.

Esse processo, chamado de habituação, não envolve alimentação, manejo ou contato direto — os animais continuam livres e mantêm a própria rotina. O que diminui é a reação de fuga provocada pelos carros, tornando possível observá-los por mais tempo e com frequência suficiente para sustentar tanto o ecoturismo quanto a pesquisa científica.

Hoje, a Caiman registra entre 1.100 e 1.200 avistamentos por ano. Entre 99% e 100% dos visitantes conseguem encontrar uma onça, independentemente da época, e o projeto se aproxima da marca de 10 mil avistamentos ao longo de sua história.

A habituação tornou o ecoturismo viável, mas também ampliou o acesso dos pesquisadores aos animais: os colares, as câmeras e observações passaram a fornecer informações sobre territórios, deslocamentos, reprodução e comportamento. Como predador no topo da cadeia alimentar, a onça funciona ainda como indicador das condições de todo o ambiente que ocupa. “É o grande chamariz, mas o que queremos preservar é o bioma inteiro. Onde tem onça, quer dizer que o ambiente está em equilíbrio,” diz.

Até então concentrado no monitoramento de animais livres, o Onçafari incorporou a reintrodução ao receber Isa e Fera, 2 filhotes resgatados que, sem a mãe, estavam destinados ao cativeiro. Em um recinto de 10 mil m², as duas aprenderam a caçar presas progressivamente mais difíceis, sem contato humano.

Soltas aos 2 anos, a dupla deixou mais de 30 descendentes. O protocolo foi replicado na Amazônia e contribuiu para a recuperação da espécie nos Esteiros de Iberá, na Argentina, onde estava extinta há cerca de 40 anos.

Os incêndios de 2019 e 2020 levaram o projeto a incorporar monitoramento por satélite, câmeras térmicas, aceiros e brigadas próprias. “Se você demora um dia, o negócio já está gigante,” diz Haberfeld. Em 2024, uma frente de 22 quilômetros atingiu uma das reservas, matou uma onça de 11 anos acompanhada desde o nascimento e deixou outras 4 feridas. 

Com a compra de áreas preservadas sob risco de desmatamento, o Onçafari passou também a atuar sobre o território. Segundo Haberfeld, o projeto controla hoje cerca de 150 mil hectares e amplia esse alcance para mais de 2 milhões por meio de corredores ecológicos que conectam reservas, parques e propriedades vizinhas.

A estratégia ganhou dimensão internacional com a Jaguar Rivers Initiative, articulação entre organizações do Brasil, da Argentina, do Paraguai e da Bolívia para reconectar áreas naturais ao longo das bacias dos rios Paraná e Paraguai. “A onça-pintada não conhece fronteiras. Ela atravessa rios, florestas e diferentes territórios. Por isso, a solução para a conservação também precisa ser sem fronteiras,” diz.

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