A moda de luxo tem escalado sua participação na arena esportiva de uma forma bem agressiva, especialmente através de ações do grupo LVMH que, na Olimpíada de Paris, comprou uma das principais cotas de patrocínio. E desde 2010, a Louis Vuitton faz os baús para transportar a taça da Copa do Mundo, além de ter feito campanhas famosas usando super atletas como estrelas (como aquela de 2022 com Messi e Cristiano Ronaldo jogando xadrez sobre uma mala LV).
Mas agora, o luxo deixou de simplesmente "vestir o esporte” com seus monogramas ou usar seu imaginário e passou a comprar um lugar estrutural dentro dos maiores espetáculos esportivos do planeta. A próxima parada: Fórmula 1 e os carros, de uma forma geral.
Ano passado, a LV assinou um acordo de 10 anos para se tornar parceira oficial da Fórmula 1, levando seus baús icônicos para os pódios e sua identidade visual para dentro dos circuitos.
A Gucci também fez um movimento bold dentro dessa categoria e, a partir de 2027, será title partner da Alpine, que passará a se chamar Gucci Racing Alpine Formula One Team. Ou seja, uma das maiores maisons de moda do mundo terá sua própria escuderia.

Por que, de repente, o interesse da moda pela Fórmula 1 - e pelos carros em geral?
Durante décadas, o paddock da Fórmula 1 foi território de pilotos, engenheiros e escuderias. Hoje, celebridades disputam espaço nos boxes, pilotos chegam aos circuitos fotografados como se estivessem entrando em um desfile, com suas namoradas famosas. Lewis Hamilton virou um dos atletas da década e estrela de diversas campanhas e iniciativas de moda. Bem antes da corrida virar trend, ele já circulava pelas primeiras filas dos desfiles e colaborava com Tommy Hilfiger. Em 2024, tornou-se embaixador da Dior e, em 2025, foi um dos co-chairs do Met Gala. Ou seja, de certa forma, Hamilton ajudou a aproximar Fórmula 1 e moda.
Não é difícil entender o interesse. A Fórmula 1 virou um fenômeno pop, inclusive entre as gerações mais novas, impulsionada por programas como Drive to Survive, da Netflix, que transformou os bastidores da corrida em entretenimento. No Brasil, a série Senna reviveu a paixão por um dos maiores ídolos nacionais do esporte. E Hollywood lançou F1: The Movie com ninguém menos que Brad Pitt no volante e arrecadou cerca de US$ 634 milhões nos cinemas - a Apple o considera o filme de esporte de maior bilheteria da história, o filme original de maior bilheteria de 2025 e o maior sucesso comercial da carreira de Brad Pitt.
Então de repente, a corrida passou a oferecer às marcas um pacote irresistível: esporte, tradição, dinheiro, inovação, velocidade, exclusividade e uma audiência global.
Mas essa paixão não fica apenas nas pistas da Fórmula 1; ela se extende aos carros também, criando espaços para outros tipos de parcerias e histórias.
Inclusive, essa paixão está longe de ser nova. Nos anos 1920, a artista abstrata Sonia Delaunay fotografava modelos ao lado de automóveis e chegou a aplicar seus desenhos geométricos sobre carros. Para ela, o automóvel representava modernidade, movimento, velocidade, tecnologia e vida urbana.

No fim dos anos 1970, a Gucci fez uma parceria que até hoje é imbatível. Interessado em fortalecer a relação da marca com o público americano, Aldo Gucci negociou uma colaboração com a Cadillac para criar uma edição especial do Seville, um de seus modelos mais luxuosos. Muito antes de alguém pensar na palavra collab, moda e carros já estavam flertando.

Nos últimos dois anos, mais duas collabs confirmam a força desse novo namoro: em 2024, Giorgio Armani e Fiat se uniram para celebrar 90 anos do designer italiano e 125 anos da montadora. Eles criaram o Fiat500e Giorgio Armani Collector’s Edition. E aqui uma curiosidade na forma como um carro é percebido: a Fiat definiu esse modelo como um carro para ser “vestido" em vez de dirigido, tanto que o slogan da campanha era Don’t drive it. Wear it.
A Porsche também encontrou seu lugar na moda através de uma parceria com Teddy Santis, fundador da marca masculina Aimé Leon Dore. Desde 2020 eles restauram modelos clássicos, revendo cores, tecidos e acabamentos que depois reaparecem em roupas e acessórios.

E no ano passado, Balenciaga e Lamborghini criaram uma coleção cápsula juntas, com roupas racing jackets, bolsas, joias e acessórios com os códigos e o escudo da Lamborghini, além de ativações com carros personalizados em frente às lojas da Balenciaga.

Todos esses exemplos mostram que este momento não é só sobre carros; é sobre um objeto de design que, assim como uma bolsa ou uma joia, comunica status, gosto, acesso e personalidade. A parceria entre Balenciaga e Lamborghini é um bom exemplo. A Lamborghini não precisa vender um carro através da Balenciaga. O que ela vende é algo que poderíamos chamar de Lamborghini-ness, o universo em torno dos códigos da marca.
O luxo está sempre à procura de novos territórios capazes de produzir desejo e expandir as áreas para aplicar seus códigos. Com sua história e iconografia, o automóvel virou uma nova tela para a moda. Mas no final, ambos dependem de design, inovação, performance e desejo. Ninguém precisa de uma bolsa de três mil euros ou de um Lamborghini de quatro milhões. Mas vamos combinar que necessidade nunca foi exatamente o forte de nenhum dos dois.















