Um livro bom de ouvir
Foto: Laura Liuzzi

Um livro bom de ouvir

Ruy Castro reúne em novo livro a memória afetiva de uma vida dedicada à música

Resultado de quase 60 anos de militância na imprensa e de sete décadas de colecionismo musical, Eu Gosto de Música: Samba, Carnaval, Bossa Nova e Todo Aquele Jazz (Companhia das Letras) é o mais pessoal dos quase sempre ultra pessoais livros de Ruy Castro. (Compre aqui). 

A coletânea reúne 97 colunas publicadas em 18 anos, entre 2007 e 2025, divididas pelo próprio autor em quatro tópicos: samba, carnaval, bossa nova e jazz.

São textos concisos, alguns críticos, mas quase sempre elogiosos e apaixonados, com homenagens a personagens tão distintos quanto Nora Ney e Charles Mingus, Hermínio Bello de Carvalho e Tony Bennett, o recentemente falecido Peppino di Capri e Cauby Peixoto.

Escrevendo sobre música desde maio de 1967 — quando teve seu primeiro texto assinado, sobre os 30 anos da morte de Noel Rosa, publicado no jornal Correio da Manhã — Ruy Castro estabeleceu desde então uma relação profunda com a música como inspiração para as suas obras. 

A primeira influência foi José Lino Grünewald, jornalista, escritor e articulista do Correio da Manhã nos anos 60, uma das pessoas a quem Ruy homenageia com o livro. 

E se já dedicou aos sons trabalhos de fôlego, como os livros sobre Carmen Miranda (Carmen: Uma Biografia), bossa nova (Chega de Saudade) e o samba-canção (A Noite do Meu Bem), agora, a partir de O Ouvidor do Brasil – 99 Vezes Tom Jobim, Ruy encapsulou seu interesse em textos curtos. 

No livro mais recente, a paixão vem dividida em capítulos temáticos e concentrada em tamanhos iguais — as crônicas não excedem uma página e meia, que é o tamanho da coluna que Ruy publica na Folha de S. Paulo. A seguir, o autor fala do livro e de suas inclinações musicais. 

Ligue sua mente, aumente o volume e entre na viagem sonora de Ruy Castro: 

No livro fica claro que os textos nascem a partir de anos de colecionismo musical. Como é formada a tua discoteca? 

É uma coleção de quase 70 anos. Tenho todos os discos de 78 rpm de quando era criança e o primeiro LP, Os Saxofonistas de Benny Goodman, que pedi ao meu pai para me dar, no Natal de 1959. Tenho discos de todos os ritmos e gêneros, em 78 rpm, LPs de 10 e 12 polegadas e CDs. Talvez uns 5 mil no total e em igual quantidade LP e CD, mais uns 400 LPs de 10 polegadas. Os LPs são em grande parte importados, com capas lindas, discos em perfeito estado e cada um é protegido por duas capas de plástico abrindo em sentidos diferentes, não há como a maresia penetrar. Algumas coisas mais raras estão em duplicata, como a primeiríssima edição do Chega de Saudade do João Gilberto, com a capa cartonada grossa, antes da edição em capa-sanduíche, aquela costurada, que saiu poucos meses depois, em 1959, e todo mundo tem.

Você só ouve música pelos aparelhos de som ou às vezes vai ao Spotify ou ao YouTube?

Às vezes entro no YouTube, para pegar alguma coisa impossível e que eu não tenha. Mas, por prazer, vou de aparelho. Adoro lavar o disco e botar para secar.

Você dedica o livro ao José Lino Grünewald. Ele era um grande ouvinte? No que vocês convergiam e no que divergiam?

Com José Lino, aprendi sobre ópera, opereta, valsas, tangos, gravações dos anos 20 e, principalmente, a música brasileira dos anos 30. Era um grande ouvinte e muito generoso, botava para tocar o que eu pedisse. Eu ia ao seu apartamento em Copacabana toda semana — a primeira vez foi em 1966, eu ainda tinha 17 anos. As noitadas duravam até 3h da manhã. Ele não gostava de jazz, nem precisava. Dediquei também o livro a Hans Henningsen, o Marinheiro Sueco, com quem aprendi sobre boleros, canções espanholas e cantores líricos. E ao Telmo Martino, que foi quem me apresentou em 1969 aos discos de Bobby Short, Mabel Mercer, Noël Coward, Blossom Dearie, Fred Astaire, e me mudou a cabeça musicalmente.

Com a morte do José Lino Grünewald (1931-2000), com quem você ainda divide seus gostos e descobertas musicais?

Com a Heloisa (Seixas, sua mulher). Produzimos séries de programas dominicais de uma hora de duração cada para a Rádio MEC-FM, e, para isso, temos de ouvir dezenas de discos. Heloisa é também grande ouvinte, sabe todas as letras de cor, e é um prazer esse trabalho. Já fizemos mais de dez séries, entre quatro e oito programas cada, sobre bossa nova, samba-canção, Carnaval, Carmen Miranda, Orlando Silva, música do cinema, divas do jazz etc. 

O que a indústria musical mais perdeu com o fim das lojas de discos? Tem alguma loja que você lembra com especial carinho?

Perdeu o amor pela música que as lojas estimulavam, a possibilidade de conhecer e conversar com pessoas interessantes ou até mesmo um artista. A única vez que vi Orlando Silva foi num sebo aqui no Rio, ele de bengala, morreria um ano depois. Fiquei tão abestado que não fui falar com ele. A Modern Sound, também no Rio, foi a melhor loja do mundo do seu tamanho — não mega como as Towers ou as HMVs, nem pequena, como a Liberty ou a Colony, em Nova York. A Modern Sound tinha música de toda parte do mundo, mesmo que fosse só um CD. Fiz o teste: um dia, procurei um disco com a música da África do Sul — e tinha. O primeiro LP importado que comprei lá foi o Ain’t Misbehavin, da RCA, com Fats Waller, em 1967, com meu primeiro salário.

E existe algum disco que você ainda não conseguiu e segue buscando?

Sinceramente, não. Já achei tudo que queria, em qualquer formato. Há anos não compro um disco.

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