Você precisa mesmo de eletrólitos?

Você precisa mesmo de eletrólitos?

De atletas a profissionais exaustos, a hidratação funcional ganhou espaço no universo wellness

Por muito tempo, hidratação significava apenas beber água. Mas basta abrir as redes sociais ou acompanhar o universo wellness para perceber que “só” isso não basta. Um novo protagonista ganhou espaço nas garrafas, sachês e bebidas funcionais: os eletrólitos.

Associados à chamada “hidratação funcional”, eles deixaram de ser um recurso restrito a atletas de alta performance e passaram a integrar a rotina de pessoas que buscam mais energia, foco e recuperação no dia a dia.

A popularidade crescente levanta uma dúvida: afinal, todo mundo precisa repor eletrólitos? Ou estamos diante de mais uma tendência impulsionada pelo mercado de bem-estar?

A resposta, segundo especialistas, está longe dos extremos. “Não se trata apenas de consumir água, mas de manter o equilíbrio de minerais fundamentais para funções como contração muscular, condução nervosa, recuperação física e regulação hídrica do organismo”, diz a nutricionista Viviana Navarro, do Rio de Janeiro. Segundo ela, a discussão sobre hidratação saiu do universo exclusivamente esportivo e passou a fazer parte de temas como produtividade, disposição e longevidade saudável.

Os eletrólitos são minerais que carregam carga elétrica quando dissolvidos nos líquidos corporais. Entre os principais estão sódio, potássio, magnésio, cálcio e cloro. Eles participam de processos essenciais, como a transmissão de impulsos nervosos, a contração muscular, o equilíbrio da pressão arterial e a distribuição adequada de água dentro e fora das células.

Para a nutricionista Andrezza Botelho, o crescimento do interesse pelo tema acompanha mudanças no estilo de vida contemporâneo. “A popularização do exercício físico, dos esportes de endurance, de dietas restritivas e até o aumento do estresse térmico fizeram crescer os quadros leves de desidratação e desequilíbrio eletrolítico, muitas vezes sem percepção clara da pessoa”, diz.

Segundo a especialista, pequenas perdas destes minerais já podem impactar o funcionamento do organismo. “Quando há deficiência eletrolítica, podem surgir queda de rendimento, fadiga precoce, tontura, cefaleia, câimbras, taquicardia e sensação de fraqueza inexplicável.”

 

Não é só para atletas

Um dos maiores mitos em torno dos eletrólitos é a ideia de que eles interessam apenas a quem corre maratonas ou passa horas na academia. Na prática, situações comuns do cotidiano também podem aumentar a necessidade de reposição. “Fadiga, dor de cabeça, tontura, câimbras, sensação de fraqueza, queda de energia e dificuldade de concentração são alguns dos sinais mais comuns”, diz Viviana Navarro. “E isso definitivamente não se restringe a atletas.”

Dias muito quentes, viagens frequentes, ambientes excessivamente climatizados, privação de sono, estresse intenso e consumo de álcool podem favorecer perdas hídricas e minerais capazes de afetar a disposição física e mental. 

A cientista Evelyn Aguiar, responsável técnica da Liquid I.V. no Brasil,  suplemento que mistura eletrólitos e 5 vitaminas essenciais, 100% adaptado ao público brasileiro, observa que muitos sintomas frequentemente atribuídos apenas ao cansaço podem estar relacionados à hidratação inadequada. 

“Os sinais mais comuns de desidratação podem incluir névoa mental, dificuldade de concentração, fadiga, dores de cabeça, urina escura, câimbras musculares e queda da disposição”, afirma. Ela destaca que o hábito de beber pouca água ainda é um desafio. “Existe uma percepção de que reposição de eletrólitos pertence apenas ao universo esportivo, mas vemos cada vez mais ocasiões ligadas à rotina comum, como dias quentes, viagens, longos períodos em ambientes climatizados, privação de sono e jornadas intensas de trabalho.”

 

Água de coco ou suplemento?

A explosão do mercado de eletrólitos trouxe uma infinidade de opções: pós para diluição, bebidas prontas, cápsulas e águas enriquecidas, com novidades o tempo todo. A Equaliv, por exemplo, lança na Natural Tech o Hydra Boost, um bebida em pó para hidratação funcional nos sabores abacaxi com hortelã e laranja com acerola, e fórmula que combina sódio, potássio, magnésio e água de coco para auxiliar no equilíbrio eletrolítico, hidratação e recuperação do organismo. 

Mas será que elas são sempre superiores às alternativas naturais? Segundo os especialistas, depende da situação. “A água de coco continua sendo uma excelente opção natural para hidratação leve a moderada, principalmente em dias quentes ou após atividades físicas menos intensas”, diz Viviana Navarro. “Ela fornece potássio e contribui para reposição hídrica de forma prática e naturalmente palatável.”

Andrezza Botelho lembra que a principal limitação da água de coco está justamente na concentração de sódio. “Ela possui muito mais potássio do que sódio — e o sódio é justamente o eletrólito mais perdido no suor intenso.”

Por isso, em situações de exercício prolongado, calor extremo ou grande perda de líquidos, soluções formuladas especificamente para reposição eletrolítica podem ser mais eficientes.

“Os suplementos em pó oferecem formulações mais equilibradas e funcionais, com concentrações específicas de sódio e potássio, além de vitaminas e carboidratos desenvolvidos para otimizar a absorção pelo organismo”, diz Evelyn Aguiar.

A nutricionista esportiva Alice Paiva, parceira da Lynv, reforça que não existe uma única resposta válida para todos. “Depende muito da necessidade e da intensidade da perda de líquidos. Em situações de alta exigência física, algumas soluções industrializadas podem oferecer uma reposição mais rápida e concentrada. Já opções naturais, como a água de coco, fazem bastante sentido para a rotina cotidiana, calor, pós-treino leve a moderado e manutenção da hidratação ao longo do dia.”

 

O risco dos excessos

Se a hidratação funcional se tornou uma das palavras de ordem do wellness, os experts alertam que isso não significa que todo mundo precise consumir eletrólitos diariamente. “Nem toda pessoa precisa consumir bebidas eletrolíticas ou suplementos todos os dias”, afirma Viviana. “Em muitos casos, uma alimentação equilibrada associada à boa ingestão de água já atende perfeitamente às necessidades do organismo.”

Andrezza faz um alerta semelhante. “Para indivíduos sedentários, com alimentação equilibrada e baixa perda de suor, água e dieta geralmente são suficientes. O excesso também pode ser prejudicial, especialmente de sódio e potássio, principalmente em pessoas com hipertensão, doença renal ou cardíaca.”

Alice concorda. “A tendência existe, mas o consumo deve fazer sentido para a realidade e a necessidade de cada indivíduo, sem exageros ou uso apenas motivado por modismo.”

Apesar das ressalvas, o mercado de hidratação funcional vive um momento de forte expansão. O consumidor passou a enxergar os eletrólitos não apenas como ferramenta de recuperação esportiva, mas como parte de uma rotina mais ampla de autocuidado.

“Hoje existe uma mudança clara no comportamento do consumidor”, afirma Bianca Coimbra, CEO e cofundadora da Lynv. “A hidratação com eletrólitos deixou de ser vista apenas como algo ligado à alta performance esportiva e começa a entrar em uma rotina mais ampla de bem-estar, saúde e recuperação no dia a dia.”

Para Evelyn, esse movimento acompanha uma transformação semelhante à observada em outras categorias do universo wellness. “Consumidores começam a enxergar a hidratação não apenas como resposta a um problema pontual, mas como parte de uma rotina mais consciente de saúde, performance e bem-estar.”

No fim das contas, os eletrólitos não são uma solução milagrosa nem um modismo vazio. Eles cumprem funções essenciais no organismo e podem ser aliados valiosos em situações de maior perda hídrica ou demanda física. Mas, para a maioria das pessoas, a base continua sendo a mesma: alimentação equilibrada, ingestão adequada de água e atenção aos sinais do próprio corpo.

Antes de investir em suplementos ou transformar sachês coloridos em hábito diário, vale lembrar que a hidratação ideal não é necessariamente a mais sofisticada — e sim aquela que atende às necessidades reais de cada organismo.

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