Em viagem, uma ida ao mercado pode ser tão reveladora quanto uma reserva disputada. Supermercados acompanham o cotidiano de uma cidade e mostram, de forma bastante direta, como seus moradores compram, cozinham e recebem.
Esse retrato já justificaria a visita. Para o varejo, no entanto, ela deixou de estar garantida — a lista básica migrou para o celular, e o delivery ficou melhor justamente naquilo que a loja sempre prometeu: conveniência. Sem conseguir ser mais rápido que a entrega, alguns mercados escolheram ser mais interessantes.
London Epicerie, Londres

Jared Wybrow é especialista em queijos e passou os últimos 25 anos entre produtores, fazendas e salas de maturação. Em 2016, abriu com Raissa van Dijk a London Cheesemongers, pequena loja em Chelsea conhecida por manter apenas cerca de 50 queijos britânicos e europeus em seu melhor momento.
Agora, a dupla inaugurou um mercado em Belgravia que amplia a seleção para pães, vegetais, charcutaria, vinhos e ingredientes de despensa. A adega está sob os cuidados de Daniel Garcia Thomas, ex-sommelier-chefe do Brat, restaurante basco londrino com uma estrela Michelin.
Se vai passar uma sexta-feira em casa, é lá que você encontra a cesta perfeita: Wybrow sugere uma seleção com cheddar inglês de fazenda ou L’Etivaz, queijo alpino suíço produzido em caldeirões de cobre, além de charcutaria, cornichons franceses, azeite de colheita antecipada, massa e bons tomates em lata. Já o vinho fica por conta da curadoria de Garcia Thomas.
65-69 Ebury Street, Belgravia
Supermarket of Dreams, Londres

Antes do supermercado dos sonhos, havia uma peixaria. O empresário australiano Chris D’Sylva, hoje à frente do estrelado Dorian e do cultuado Eel Sushi, abriu a Notting Hill Fish Shop como uma pop-up em 2019. Poucos meses depois, o lockdown mudou a escala da operação.
Com os restaurantes fechados, D’Sylva cedeu gratuitamente partes da loja a fornecedores como o açougue HG Walter e a queijaria Neal’s Yard Dairy. Também contratou chefs parados, comprou um atum-rabilho inteiro e passou a vender sushi. A experiência deu origem ao Supermarket of Dreams, em Holland Park.
Durante o dia, os balcões reúnem peixe, carne, sushi, focaccia e frangos de rotisserie. Em noites especiais, as compras terminam mais cedo e o Tuna Fight Club assume a loja: um atum-rabilho de quase 300 quilos, avaliado em cerca de £13 mil, entra inteiro pela porta e é destrinchado diante de apenas 40 clientes, que degustam cortes frescos e maturados em 9 etapas.
126 Holland Park Avenue
Erewhon, Los Angeles

O supermercado mais amado, imitado e criticado da Califórnia começou em 1966 como uma pequena loja dedicada à alimentação macrobiótica. Tony e Josephine Antoci compraram a única unidade remanescente, em Fairfax, em 2011 e transformaram a operação em na rede que hoje é profundamente associada à cultura de wellness de Los Angeles.
Para uma primeira visita, a unidade certa é tão importante quanto o pedido do smoothie — Beverly Hills e West Hollywood concentram turistas e estacionamentos caóticos; Pasadena ocupa uma antiga loja de departamentos dos anos 1940, com grandes janelas, pé-direito alto, pátio e forno de pizza e Silver Lake é mais prática, com corredores menos congestionados e uma loja de vinhos.
Pop Up Grocer, Nova York

Emily Schildt trabalhava com pequenas marcas de alimentos, incluindo uma passagem pela Chobani, quando identificou um problema recorrente: bons produtos podiam levar anos para conseguir espaço nas grandes redes. Em 2019, ela abriu no Soho uma loja temporária de 10 dias para apresentá-los diretamente ao público.
O projeto passou por cidades como Chicago, Los Angeles, Miami e Denver antes de ganhar um endereço permanente no West Village, em 2023. Lá, o espírito de pop-up permaneceu: a loja mantém entre 100 e 150 produtos e renova boa parte das prateleiras a cada 3 meses.
Por isso, se encontrar um produto que vale a pena, leve 2 unidades — talvez o produto já não esteja ali na próxima visita. No café, o cardamom bun acompanha bem a pesquisa pelas prateleiras.
205 Bleecker Street, West Village
Meadow Lane, Nova York

Antes de abrir as portas, o mercado já era acompanhado por mais de 100 mil pessoas — durante 14 meses, Sammy Nussdorf, ex-investidor de venture capital, mostrou no TikTok os testes de receitas, a montagem da loja e os sucessivos atrasos da inauguração. Quando o endereço finalmente abriu em Tribeca, em novembro de 2025, o público estava pronto, e as filas também.
O cardápio ajuda a entender a expectativa: a salada de frango leva alecrim, alho-poró e raiz-forte; os nuggets sem glúten vêm com honey mustard; e a Caffè Panna, uma das sorveterias mais disputadas da cidade, criou um sabor exclusivo para a loja. Entre frutas da estação, produtos de despensa e um estúdio de flores, é possível resolver o almoço, o jantar e o arranjo da mesa na mesma visita.
355 Greenwich St
EP!C, Paris

Quando a britânica Marks & Spencer deixou a França depois do Brexit, os irmãos Franck e Jordan Hadjez e o primo Steve transformaram a antiga unidade de Saint-Germain-des-Prés em um mercado próprio. O trio conhecia bem o endereço: durante oito anos, esteve à frente das franquias francesas da rede inglesa. O varejo de alimentos também era um assunto de família, já que os três cresceram entre os comerciantes.
Uma parceria com a Monoprix mantém nas prateleiras leite, manteiga e outros produtos de uso diário e a seleção especial fica por conta de Franck, que viaja em busca do que chama de “pleasure groceries”. É possível entrar para comprar o básico e sair com chocolate feito com leite de camela nos Emirados Árabes, gin de Mônaco ou um queijo corso coberto por flores silvestres.
O mercado ganhou um segundo endereço na Porte Maillot, com uma seleção maior de azeites, molhos picantes e especialidades regionais. Um lustre feito de potes de geleia ocupa o salão, enquanto a padaria é comandada por Fabien Naulay, campeão mundial de panificação em 2024.
3 Ter rue Mabillon2 Place de la Porte Maillot
Azabudai Hills Market, Tóquio

Inaugurado em 2023, Azabudai Hills é um dos grandes projetos urbanos mais recentes da capital japonesa. No mercado do complexo, porém, boa parte do interesse está em casas muito anteriores a ele — são mais de 30 especialistas japoneses reunidos em torno de ingredientes como arroz, wagyu, chá, frutas e peixes.
Na Dashi Okume, fundada em 1871, o cliente escolhe peixes, algas e cogumelos para criar uma mistura de dashi sob medida. A Kameido Gyoza serve, em um balcão de apenas cinco lugares, a receita que tornou a casa conhecida desde 1953. Já a Yamayuki, uma das principais fornecedoras de atum do mercado de Toyosu, oferece cortes selecionados pela manhã.
Garden Plaza C, piso B1, Azabudai Hills
Pantry by Marble, Johannesburgo

Uma das lojas de comida mais interessantes da cidade funciona dentro de um posto de gasolina. O grupo Marble Hospitality, conhecido por restaurantes onde boa parte da cozinha acontece sobre o fogo, assumiu uma antiga loja de conveniência da Sasol e decidiu tratá-la com a mesma atenção dedicada às suas mesas.
Aberto 24 horas, o endereço troca sanduíches embalados e café de máquina por frango prego, pizzas assadas em forno a lenha, carnes, queijos, vinhos, flores e sorvete.
De madrugada, chefs que acabaram o serviço encontram quem está voltando de uma festa diante do mesmo balcão. O posto continua vendendo combustível, mas há tempos deixou de ser apenas uma parada no caminho.
170 Jan Smuts Avenue, Rosebank
PECK, Milão

Em 1883, o charcuteiro Francesco Peck deixou Praga e abriu em Milão uma pequena loja especializada em carnes defumadas e salumi. Sete anos depois, o endereço já fornecia para a Casa Real italiana. No início do século seguinte, mudou-se para a via Spadari, onde permanece até hoje.
Parte do prestígio vem do que ainda é preparado dentro da própria casa — massas, molhos, doces, salumi e pratos prontos saem diariamente das cozinhas do edifício.
No subsolo, a enoteca reúne milhares de rótulos. Já no primeiro andar, o Piccolo Peck funciona como o bistrô da loja: no almoço e no aperitivo, serve à mesa parte do que é preparado e vendido nos balcões.
Via Spadari, 9















