Eau de Borogodó: a sofisticação da perfumaria brasileira

Eau de Borogodó: a sofisticação da perfumaria brasileira

O consumidor brasileiro amadureceu e já busca fragrâncias mais complexas

O perfume ocupa um lugar curioso na cultura contemporânea. É um dos poucos adornos de luxo que não pode ser fotografado, reproduzido ou compartilhado em uma tela.

Invisível por natureza, uma fragrância transforma conhecimento, memória e sensibilidade em códigos de distinção, deslocando a ideia de luxo do que se vê para o que se percebe.

A perfumaria de nicho, que há pouco tempo ocupava um espaço discreto na indústria, cresce hoje em torno de 9.1% ao ano, contra 2.69% da perfumaria tradicional, segundo a Intel Market Research. O movimento não passou despercebido: L’Oréal, Estée Lauder, Puig e LVMH já adquirir marcas jovens como Le Labo, Byredo e Maison Francis Kurkdjian — e centenárias como Creed e Penhaligon’s. 

No Brasil, o segundo maior mercado consumidor de perfumes no mundo, o fenômeno também acontece. Dados da Euromonitor apontam que a perfumaria de nicho movimentou R$ 4 bilhões em 2023 e deve crescer em 89% até 2027. 

O que distingue esse segmento não é apenas a produção em pequena escala ou a alta concentração aromática, mas a liberdade para criar composições menos convencionais, que refletem a visão estética de uma marca ou de um perfumista. 

Pense no aroma intenso de rosa turca e patchouli do Portrait of a Lady, da Frederic Malle, ou no acorde de cachaça com cacau, sândalo e mirra do Fervo Intenso, da Granado. Fragrâncias que não pedem aprovação, e esse é, justamente, um de seus maiores atrativos.

"O nicho costuma nascer de uma visão artística, emoção ou história que a marca queira contar, permitindo trabalhar com nuances autorais com ousadia e liberdade experimental," diz  Napoleão Bastos Jr., perfumista sênior da casa de fragrâncias IFF - International Flavors & Fragrances.

CRIANDO E ENCONTRANDO SENTIDOS

Novas marcas autorais brasileiras, como Amyi, Becquer e Felisa, chegam ao mercado com coleções enxutas de fragrâncias que convidam à descoberta, do estranhamento à identificação, ajudando a desmantelar a ideia de que perfume bom é perfume importado. O desafio é compartilhado por marcas estabelecidas como O Boticário e Natura, que recentemente lançaram linhas próprias de alta perfumaria.

"Nosso desafio não era apenas criar perfumes de alta qualidade, mas ajudar o brasileiro a compreender inovação, matérias-primas, linguagem olfativa e o papel da criatividade na perfumaria," diz Luciana Guidi, COO e co-fundadora da Amyi. 

A marca oferece um kit de descoberta e um mini curso online conduzido pelos próprios perfumistas. O resultado: clientes que não temem fragrâncias não convencionais, e que deixam de ser compradores para se tornarem curadores.

A aposta faz sentido. As pessoas querem aprender mais sobre perfumaria e fazer escolhas baseadas em informação — e isso inclui as gerações mais jovens. Apesar da natureza não-visual de uma fragrância, o segmento de nicho anda de mãos dadas com o digital: desde a pandemia, conteúdos sobre fragrância aumentaram 40% globalmente. 

Em 2025, a hashtag #PerfumeTok reuniu 2,3 bilhões de views e a busca por "coleção de perfumes de nicho" cresceu 500% no Pinterest.

“O consumidor já não busca um perfume assinatura, mas diferentes fragrâncias para diferentes versões de si mesmo,” diz Guidi. O conceito tem nome: olfactory wardrobing, ou guarda-roupa olfativo, a ideia de variar fragrâncias como fazemos com roupas. Até adolescentes adotaram o termo smellmaxxing (maximizar o cheiro) nas redes, compartilhando reviews com avaliações de projeção, sillage (a aura do perfume) e ideias de layering

Uma tradição que surgiu há séculos em países árabes, o layering é justamente o que a Felisa. Fundada em 2023 pela carioca Fernanda Elisa Orcioli, a marca tem 12 perfumes desenvolvidos na França que exploram “a pluralidade e a alma colorida” da mulher brasileira. Em seu site, um guia indica quais notas aplicar em quais partes do corpo para criar a sobreposição perfeita — prolongando a fixação e construindo uma assinatura olfativa única.

NOVOS HORIZONTES

Para César Veiga, perfumista do O Boticário, o consumidor brasileiro “amadureceu e já busca fragrâncias mais complexas,” abrindo portas para propostas mais autorais, como a Privée, linha lançada em 2022. 

Alta perfumaria por definição, a coleção traz elementos essenciais da perfumaria de nicho: produção em menor escala e experimentação com ingredientes raros. A edição de 2024 trouxe notas de tomate, beterraba, ervilha e cenoura a partir de alta tecnologia molecular que emulam o frescor e o aspecto terroso de vegetais. Já a Narcotic Flowers, de 2025, foi desenvolvida com base em estudos de neurociência para estimular áreas cerebrais ligadas à euforia.

“Não buscamos reproduzir modelos estrangeiros, mas criar fragrâncias com assinatura própria, capazes de antecipar tendências globais e interpretá-las com a nossa cultura e criatividade,” disse Veiga. 

A inovação também se manifesta nas formas de extrair matéria-prima. A extração por CO² supercrítico, por exemplo, isola apenas as moléculas desejadas sem deixar resíduos — alternativa ecológica aos solventes petroquímicos tradicionais, usada na extração da fava de baunilha do perfume Amyi 5.21. 

A perfumaria de nicho independente, de forma geral, tende a adotar práticas mais sustentáveis: fornecedores éticos, ingredientes biodegradáveis, produção artesanal e distribuição limitada. Outra prática comum é o upcycling: transformar ingredientes da indústria alimentícia que seriam descartados em matérias-primas olfativas.

TERRA GARRIDA

Se na perfumaria de nicho o céu é o limite, é natural que este seja também um campo de experimentação com os biomas e matérias-primas brasileiras ainda pouco exploradas. A Granado foi pioneira ao usar botânicos e madeiras como cedro e copaíba, e frutos como castanha-do-pará, pitanga e banana para criar fragrâncias que remetem à nossa biodiversidade.

“Diferentemente de outras escolas de perfumaria, que muitas vezes se apoiam em tradições centenárias europeias, o Brasil traz uma liberdade criativa maior e um repertório de ingredientes, paisagens e referências ainda pouco explorados globalmente,” explica Sissi Freeman, diretora de marketing da Granado, ao Page9

Comunicar esse ethos internacionalmente é uma das missões da marca, presente em Espanha, França, Portugal e Reino Unido, com ativações como uma pop-up na Liberty, em Londres, e uma collab gastronômica com a boulangerie francesa Copains, com a criação de uma sobremesa inspirada no perfume Yes, Nós Temos Bananas! 

Recentemente, a Reservas Votorantim e a IFF firmaram uma parceria que concede à multinacional acesso exclusivo ao Legado das Águas, reserva de 31 mil hectares na Mata Atlântica, no interior de São Paulo, para catalogar e pesquisar em torno de mil espécies vegetais nativas. O objetivo é transformar a biodiversidade brasileira em ingredientes naturais premium para a indústria cosmética internacional. 

"Há ingredientes brasileiros que não encontramos em nenhum outro lugar no mundo — e muita riqueza criativa de talentos. O futuro da perfumaria de nicho brasileira é promissor", conclui Napoleão Bastos Jr., perfumista sênior da IFF, em atividade no mercado brasileiro há 40 anos.

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