Wall Street encontrou seu próximo mercado bilionário — e ele é cabeludo

Wall Street encontrou seu próximo mercado bilionário — e ele é cabeludo

Três empresas correm para colocar lançar tratamentos contra a calvície, enquanto os homens chegam cada vez mais cedo ao consultório

Depois de transformar as canetas emagrecedoras em uma das maiores apostas da bolsa americana, Wall Street passou a olhar para outra condição que atinge milhões de pessoas e que, em geral, os pacientes pagam do próprio bolso para tratar. 

A alopecia androgenética, a forma mais comum de queda de cabelo, atinge até 50% dos homens aos 50 anos e até 80% aos 70. Só nos Estados Unidos são cerca de 50 milhões de homens, onde nenhum medicamento novo para o problema é aprovado desde a finasterida, em 1997. 

Três empresas tentam ocupar esse espaço com produtos ainda sem aprovação e em diferentes estágios de desenvolvimento. A americana Veradermics prepara um comprimido, a também americana Absci testa um anticorpo injetável e a Cosmo, com sede na Irlanda, aposta em uma solução para aplicar no couro cabeludo. Desde sua estreia na Bolsa de Nova York, em fevereiro, as ações da Veradermics acumulam alta de 576%, enquanto as da Absci mais que dobraram em 2026.

Nos últimos anos, o homem que chega ao consultório passou a procurar tratamento antes mesmo de ver uma redução significativa dos fios. A mudança corre em paralelo ao interesse dos investidores pelo setor. 

Beni Grinblat, dermatologista do Hospital Israelita Albert Einstein que atende pacientes com queda de cabelo há mais de 25 anos, identifica hoje três perfis: o homem com calvície avançada, aquele que começa a notar a perda dos fios e um terceiro grupo que ainda não apresenta uma redução significativa, mas tem medo de ficar calvo e procura orientação ou tratamento preventivo. A maior parte de seus pacientes está entre os 30 e os 40 anos, mas ele passou a receber homens bem mais jovens. “Hoje atendemos adultos jovens e até pacientes de 18 anos que chegam querendo saber se vão ficar calvos e o que podem fazer para evitar isso,” diz.

A dermatologista Bruna Duque-Estrada, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, lembra que a alopecia androgenética masculina sempre se manifestou cedo, com maior incidência entre os 18 e os 35 anos. O que mudou foi a disposição para agir nos primeiros sinais. 

A preocupação com a imagem, intensificada pelas redes sociais, e a tricoscopia, exame que permite observar o couro cabeludo e diagnosticar a doença precocemente, trouxeram a conversa sobre calvície para antes dos 20 anos em alguns casos. Não se trata mais apenas de tentar recuperar o cabelo perdido: há homens procurando o médico para conservar o que ainda têm.

Entre os novos medicamentos, o mais próximo da rotina atual dos consultórios é o VDPHL01, da Veradermics. Trata-se de uma formulação de liberação prolongada do minoxidil. A substância foi criada para combater a hipertensão e é usada há décadas em loções contra a queda de cabelo. 

Dermatologistas também a prescrevem em doses orais baixas, embora sem indicação em bula para alopecia. O produto da Veradermics não é simplesmente uma versão industrializada dessas fórmulas: a liberação prolongada foi desenhada para manter a substância no organismo de maneira mais constante e evitar os picos de concentração relacionados a efeitos cardiovasculares.

Em um estudo de fase 2/3 com 519 homens, a empresa testou 8,5 miligramas uma ou duas vezes ao dia. Após seis meses, os participantes que tomaram uma dose diária ganharam, em média, 30,3 fios por centímetro quadrado, diante de 7,3 no grupo que recebeu placebo. 

A Veradermics ainda aguarda os resultados de um segundo estudo de fase 3 com homens antes de pedir a aprovação. Dos três produtos em desenvolvimento, esse é o que mais interessa a Grinblat. “É provavelmente o que mais desperta minha expectativa neste momento. É o que eu teria mais interesse em ter disponível na prática clínica,” diz.

A Cosmo tenta avançar por uma via diferente. A clascoterona bloqueia a ação dos andrógenos, hormônios ligados à redução progressiva dos folículos, diretamente no couro cabeludo. Por ser tópica, a solução a 5% busca atender também aos homens que evitam comprimidos por receio de efeitos sistêmicos, entre eles os de natureza sexual associados a alguns medicamentos usados contra a calvície. 

Dois estudos de fase 3 acompanharam 1.465 homens em 51 centros nos Estados Unidos e na Europa e os resultados apresentados pela empresa indicam que o crescimento dos fios se manteve durante um ano e que o perfil de segurança foi semelhante ao do placebo. 

A Cosmo planeja pedir a aprovação americana no início de 2027, e o Jefferies, banco de investimento e mercado de capitais do Jefferies Financial Group, listado na Bolsa de Nova York, estima que o produto possa alcançar US$ 3 bilhões em vendas anuais.

Bruna vê utilidade no novo mecanismo, sobretudo para quem não quer usar medicação sistêmica ou precisa reforçar o tratamento em regiões mais difíceis, como a parte frontal do couro cabeludo. 

Ainda assim, considera cedo para saber o espaço que a clascoterona ocupará. “É uma medicação promissora, mas os estudos iniciais não mostraram grandes diferenças de resultado em relação ao minoxidil tópico,” diz. 

Para Grinblat, reduzir a possibilidade de efeitos sistêmicos não basta: a solução precisará demonstrar uma eficácia capaz de competir com os medicamentos disponíveis.

A aposta mais distante da farmácia é o ABS-201, da Absci, ainda em fase 1/2a, etapa inicial em que o estudo mede sobretudo segurança, dose e os primeiros sinais de eficácia. 

O anticorpo foi desenhado com inteligência artificial para bloquear o receptor da prolactina e estimular a regeneração dos folículos. Os primeiros dados clínicos vieram de 32 adultos que receberam doses únicas e serviram para avaliar o tempo de permanência da substância no organismo. 

A meia-vida estimada, de ao menos 65 dias, levanta a possibilidade de que o tratamento exija apenas duas ou três aplicações em seis meses, mas essa frequência ainda precisa ser comprovada. A empresa espera apresentar os primeiros resultados sobre crescimento capilar até o fim do ano. Em junho, a Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, investiu US$ 40 milhões na Absci.

O tamanho da aposta financeira contrasta com o estágio do medicamento. “É cedo demais para falar sobre a ação dele. Ainda é muito experimental,” diz Bruna. Para ela, o interesse está em um mecanismo de regeneração folicular diferente dos disponíveis hoje. 

Se funcionar, o anticorpo poderia ampliar o número de homens que respondem ao tratamento. Até agora, porém, os dados em humanos não demonstraram que ele faz o cabelo crescer.

Apesar de a calvície não receber um remédio novo há quase 30 anos no mercado americano, no brasileiro é diferente. 

A Anvisa aprovou em 2022 a dutasterida para a alopecia androgenética masculina, medicamento que reduz a conversão da testosterona em di-hidrotestosterona, hormônio associado à miniaturização dos fios. No Brasil, a dutasterida se juntou à finasterida e ao minoxidil oral, prescrito há cerca de dez anos em doses baixas. 

Essa prática não é exclusiva nossa e ocorre igualmente nos Estados Unidos, mas, nos dois mercados, o uso contra a queda de cabelo é off-label, isto é, não consta da indicação aprovada para o medicamento. Aqui, como a versão oral industrializada deixou de ser fabricada, o tratamento é preparado em farmácias de manipulação. 

A Sociedade Brasileira de Dermatologia é favorável à prescrição, desde que a fórmula seja feita por estabelecimentos autorizados a manipular medicamentos de baixo índice terapêutico e com experiência no produto. “Foi uma medicação que mudou nossa conduta e nossos resultados,” diz Bruna.

Um comprimido registrado especificamente para alopecia resolveria sobretudo a padronização. Segundo Bruna, a quantidade do princípio ativo pode variar até 30% de uma farmácia de manipulação para outra. 

Grinblat também vê vantagem na uniformidade de um produto industrializado, mas lembra que a manipulação permite adaptar a dose a cada homem. “Para que uma apresentação comercial pronta atendesse bem à prática clínica, seria interessante termos diferentes dosagens disponíveis,” diz. A observação ganha importância porque o VDPHL01 usa doses e um sistema de liberação diferentes daqueles empregados nas fórmulas de minoxidil oral em baixa dose.

O transplante capilar, cada vez mais popular, também entra nessa conversa, pois não substitui os medicamentos. Os fios não transplantados continuam sujeitos à alopecia androgenética e precisam ser preservados. Por isso, Grinblat não vê cirurgia e tratamento clínico como etapas excludentes — mesmo para o homem disposto a enfrentar o procedimento, a perspectiva continua sendo a de um tratamento prolongado.

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