A galeria de arte que é hit entre a Gen Z

A galeria de arte que é hit entre a Gen Z

A MITS reúne uma equipe da Geração Z e combina preços a partir de R$ 2 mil, festas e música para formar novos colecionadores

Na casa onde Roger Supino cresceu, em São Paulo, cada obra de arte pendurada na parede vem acompanhada de uma plaquinha com o nome do artista, o ano, o título e a técnica, assim como em museus e galerias. 

Quando seus amigos o visitavam, seu pai, Raymond, colecionador de arte, fazia questão de contar quem havia feito cada trabalho e qual história existia por trás dele. “Meus amigos chegavam e perguntavam: ‘Que casa é essa?’. Diziam que a casa do Roger era uma galeria de arte,” disse ele.

O interesse, no entanto, parava ali. “Eles tinham muito pouco entendimento sobre o assunto. Quanto mais me envolvia com o mercado da arte, mais percebia que aquele ainda era um universo que não tinha conexão com os meus amigos.”

Hoje, aos 22 anos, Roger transformou aquele desencontro na razão de existir da MITS, galeria de arte contemporânea que ele abriu em 2023, quando tinha 19, para aproximar da arte justamente as pessoas de sua geração. Ao lado dele, uma equipe formada por mulheres, entre 19 e 24 anos: Lara Maia, 24, curadora — filha caçula do diretor artístico e curador Marcello Dantas; Ana Sugahara, 24, produtora; Isadora Nogueira, 23, designer; e Maya Supino, 19, responsável pelas redes sociais e irmã de Roger. 

Desde a abertura, a MITS realizou 11 exposições, passou a vender tanto obras recém-produzidas quanto trabalhos que já pertenciam a outras coleções. Hoje, 60% de seu público tem entre 18 e 40 anos. Em sua estreia na SP-Arte, neste ano, vendeu 30 obras em poucos dias, o melhor resultado de sua história. 

A galeria agora deixa a Rua Padre João Manoel e se muda para uma casa de vila na Alameda Tietê, também nos Jardins — um espaço quatro vezes maior para comportar a nova fase.

A ideia de abrir a MITS amadureceu enquanto Roger cursava administração com foco em empreendedorismo na Link School of Business, em São Paulo. Ao mesmo tempo que ouvia de galeristas mais experientes que o mercado se preocupava com a ausência de sua geração, passou a olhar para a distância dos amigos em relação à arte como um problema a resolver. 

“Comecei a achar que talvez o mercado não estivesse se comunicando da forma certa com esse público,” disse. Naquele momento, ele não pensava em abrir uma galeria de arte, mas em criar um agente cultural que falasse com jovens e também tivesse uma frente comercial.

A avaliação é compartilhada por Isadora Nogueira. Para ela, não se trata exatamente de uma falta de interesse. “As pessoas da nossa idade consomem arte o tempo todo, seja por música, moda, fotografia ou design, mas mais pelo modo virtual,” disse. 

“A distância é da relação física com a arte. Ainda existe uma sensação de que galerias são espaços fechados, em que você precisa entender muito para entrar, conversar ou até ter uma opinião.” Na MITS, eventos, festas, música, Instagram e TikTok funcionam como portas de entrada para quem ainda não se sente parte desse circuito.

O repertório de Roger não vem apenas da coleção do pai. Seu avô, Solly Kamkhagi, artista plástico de origem judaico-libanesa, mantém em casa um ateliê no lugar de um escritório, e ele cresceu entre tintas, obras e conversas sobre arte. Quando decidiu transformar a ideia em negócio, não recebeu um aporte convencional de seu pai, mas a oportunidade de revender obras de sua coleção em troca de uma comissão. 

Durante um ano, a operação da MITS funcionou dessa forma em uma pequena sala comercial na Barra Funda. Com poucos custos, Roger guardou o que ganhava nas vendas até conseguir abrir, em 2024, o primeiro espaço de rua da MITS, nos Jardins. Seu projeto havia ganhado forma e virado uma galeria de arte.

Os valores praticados pela MITS fazem parte da tentativa de transformar a aproximação com a geração mais nova em uma primeira compra, sem ignorar o estágio da carreira de cada artista.

“O ticket médio gira em torno de R$ 15 mil, e eu quero ter obras ainda mais acessíveis,” disse Roger, que vende trabalhos de R$ 2 mil ou R$ 3 mil. “Continua sendo muito dinheiro, mas, quando vamos a uma feira e encontramos obras de centenas de milhares ou milhões de reais, a comparação muda.” 

Manter valores mais baixos atende a dois cuidados. O primeiro é não inflar artificialmente o preço de artistas jovens e comprometer uma trajetória que precisa crescer aos poucos. O segundo é não permitir que o orçamento se transforme imediatamente em uma barreira para quem pensa em começar uma coleção.

Se Roger trabalha para reduzir a distância na porta de entrada, Lara organiza as relações entre os artistas que o visitante encontra lá dentro. Ela cresceu assistindo às reuniões dos pais em casa (sua mãe é a produtora executiva Angela Magdalena) e guarda a lembrança do dia em que o pai anunciou que queria fazer uma tartaruga gigante voar sobre o Planalto, em Brasília. 

A mãe ouviu a ideia e respondeu que encontrariam uma maneira de executá-la. “Eu tive esses dois lados muito próximos: o olhar do meu pai, sempre disposto a desafiar mais um projeto, e o de minha mãe, pensando em como fazer aquilo acontecer,” disse.

Lara continua trabalhando em projetos de Marcello, mas é na MITS que procura construir uma leitura própria. Serem tão jovens, diz ela, permite que os integrantes da galeria errem em público e experimentem caminhos que estruturas mais consolidadas talvez não acolhessem. 

“A idade nos dá liberdade para errar e fazer as coisas de formas diferentes. As pessoas estão dispostas a acompanhar nosso processo de tentativa e erro e ver como as coisas vão se desdobrando,” disse. 

Na curadoria, porém, os princípios são os mesmos das galerias tradicionais: pesquisa, conversa com os artistas e mediação entre diferentes repertórios. Seu primeiro critério para escolher uma obra é o incômodo. “Quando algo é inteiramente resolvido, você olha, entende e vai embora. Quando existe alguma coisa fora do lugar, você para e pensa.”

A mistura de artistas jovens com nomes históricos dá contexto a essas apostas e evita que cada geração seja apresentada como se tivesse surgido sozinha. Na SP-Arte, a MITS colocou trabalhos de Toia Tostes, então com 23 anos, ao lado de obras de Anna Maria Maiolino, que recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto da carreira na Bienal de Veneza de 2024, e de Eleonore Koch. 

Para Lara, a aproximação ajuda a mostrar de onde vêm determinadas pesquisas e quais caminhos precisaram ser abertos antes. “A gente só pode apresentar artistas dessa idade porque alguém lá atrás fez essas apostas,” disse ela, referindo-se a Luisa Strina, que abriu sua galeria em 1974.

O resultado comercial da MITS se apoia em um público que a equipe descreve menos como uma clientela pronta e mais como uma comunidade em formação. Ana Sugahara, produtora da galeria, percebe que as pessoas comparecem aos eventos não apenas para ver as exposições, mas para acompanhar o que artistas, amigos e a própria galeria estão construindo. Maya Supino mede essa aproximação nos MITS Days, como são chamados os dias de evento. “Não tem nada mais gratificante do que quando algum dos meus amigos entra na galeria e já reconhece obras dos nossos artistas,” disse.

O novo endereço na Alameda Tietê tem cerca de 180 metros quadrados distribuídos por três pavimentos. O térreo reúne área expositiva, café e livraria; o primeiro andar abriga o acervo e o atendimento aos colecionadores; e o terraço será usado para eventos. 

Uma das salas dará lugar ao MITS Lab, destinado a exposições temporárias, instalações audiovisuais e residências artísticas. “A galeria não tem um manual,” disse Roger.

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