Quando olho para minha história, penso que ela já está ficando longa. Aquele garoto que nasceu no Rio de Janeiro e foi para São Paulo aos 5 anos já está de cabelos brancos.
E quem diria: a formação em engenharia elétrica me levaria a diferentes mundos, das telecomunicações ao esporte – uma das minhas maiores paixões que também virou trabalho.
Morei na Alemanha, estudei nos Estados Unidos, trabalhei na Siemens e na Microsoft, passei por start-ups e caí no mercado digital e na tecnologia. Foi na SBF que o profissional se encontrou com a paixão: são mais de 12 anos no grupo, com capítulos que passaram pelo fortalecimento da multicanalidade e dos canais digitais, pela integração da Fisia, com a distribuição da Nike no Brasil, e pela implementação de um novo conceito de lojas com serviços personalizados na Centauro, com seus mais de 40 anos de tradição. Até chegar aos dias de hoje, na cadeira de CEO da SBF: uma empresa que transforma a vida das pessoas justamente por meio do esporte.

É o esporte que inspira uma vida mais leve e saudável, com propósito e conexão. E transformar isso em missão de vida é também uma realização pessoal. Afinal, o esporte sempre esteve ali, ao longo de toda a minha vida.
Uma das minhas memórias de infância sou eu jogando futebol na rua de casa, com o portão da minha vizinha fazendo as vezes de trave do gol – ela, é claro, não gostava nada daquilo. Aos 12, acabei me federando no basquete e fiquei até os 17 vivendo o esporte de alta performance, treinando cinco vezes por semana. Eu respirava e vivia o esporte já na minha adolescência.
Na faculdade, comecei a jogar futebol com o time da universidade. E apesar de ser em outro ritmo, eu ainda buscava o rendimento. Então veio o surfe, em um momento que minha conexão com o esporte também estava mudando. O surfe nunca esteve no lugar da performance, mas do bem-estar. Passei a fazer parte de um novo grupo, com um novo estilo de vida.
As ondas me acompanham desde os 20. Virei sócio de um clube em São Paulo para manter o ritmo dos treinos e, vez ou outra, dou minhas escapadas para a praia da Baleia, de Maresias ou de Camburi. Surfe é sobre conexão, restauração e saúde mental. E quem já surfou sabe: quando você espera a onda, você está sozinho consigo mesmo.
É ali que eu me desligo do trabalho e foco em tudo que não consigo focar quando estou no escritório. Penso na minha família, no que eu quero para o meu terceiro ciclo de vida. É um momento em que aqueles pensamentos meditativos que a gente esquece na correria do dia a dia vem à tona.

Com o esporte eu aprendi a ganhar confiança, a lidar com pessoas diferentes, a trabalhar em equipe. Mas também ganhei lesões. Ganhei uma operação na coluna e ganhei cicatrizes – as visíveis vieram dele; as invisíveis, ele ajudou a superar, me humanizando e me fortalecendo: dos momentos de burnout quando estudei fora, que quebraram minha confiança, à própria transição para CEO. Foram seis meses intensos e de bastante reflexão até chegar aqui. Porque, vamos falar a verdade, ninguém se prepara para ser CEO. Você só entende o peso desse desafio quando senta nessa cadeira.
Venho de um ambiente familiar em que a alta performance acadêmica era supervalorizada. Na minha família, sempre fomos super disciplinados, com muito rigor. No esporte, isso floresceu; no trabalho, isso ganhou sentido: você precisa ser disciplinado, resiliente, ter raciocínio rápido para tomar decisões importantes. É uma série de valores que são, de fato, transportáveis para a performance no mundo corporativo, como a ética, o respeito e o fair play. Acredito que pessoas que praticam esportes se comprometem a entregar a alta performance em qualquer coisa que elas façam.
Hoje, aos 47, olho para o futuro. Me preocupo com minha saúde física e também com a minha saúde mental – não só com a minha, mas com todos que dividem os dias comigo. Faço fortalecimento para poder praticar os esportes que gosto além do surfe: o skate, o wakeboard, o kite. Sou pai solteiro, dedico mais tempo aos meus filhos e tenho o sonho de viajar com eles para surfar em um daqueles lugares que só tem um barco, as ondas e que não tem sinal de celular.

Me apaixono a cada dia, e cada vez mais, pelo senso de comunidade que o esporte traz. Enxerguei no esporte a fórmula para essa vida mais leve, encontrando um equilíbrio para as prioridades que damos nessa vida tão agitada. O esporte ensina que performar é estar bem fisicamente e mentalmente. E é assim que quero viver os próximos anos da minha vida. Uma lição que vale mais que qualquer medalha de ouro.
Texto em primeira pessoa escrito a partir do relato pessoal de Gustavo Furtado ao Page9.















