“A moda passa, o estilo permanece.”
Essa frase, dita por Coco Chanel em 1965 (e repetida por Yves Saint Laurent em 1975), reflete uma era em que estilo pessoal também costumava ser sinônimo de tempo. Você ia formando um jeito de se vestir aos poucos, errando, testando, pagando mico, descartando, até entender como sua personalidade pode ser traduzida em estilo.
Hoje, esse processo praticamente desapareceu – e o motivo não é que as pessoas não têm mais estilo pessoal, mas o excesso de velocidade do mundo conectado. Uma série estreia numa sexta e, na segunda, já estamos usando – ou desejando – as mesmas peças usadas pela protagonista. Que o diga Carolyn Bessette-Kennedy que teve seu estilo “ressuscitado” pela série Love Story, por exemplo. O mesmo acontece com desfiles que viralizam, celebridades que lançam coleções e microtendências que surgem no TikTok e são rapidamente distribuídas para milhões de pessoas.
O consumo de referência acelerou essa busca sem fim pelo próximo estilo do momento. O intervalo entre ver algo numa tela e comprar a versão idêntica nunca foi tão curto, e é esse desejo coletivo repentino, mais do que falta de personalidade, que faz tanta gente parecer vestida igual.
“O estilo pessoal demora um tempo para ser construído pela maioria das pessoas. Mas, em alguns casos, ele é tão forte que vira uma marca registrada,” diz Renata Correa, diretora criativa e stylist de marcas como Cris Barros e Misci. Para ela, o estilo pessoal não está ligado ao bom gosto, mas conectado às assinaturas que você vai construindo e mantendo com o tempo.
Renata cita dois exemplos distintos onde essa marca pessoal é bem visível: Diana Vreeland e Elke Maravilha. “A primeira criou assinaturas mais conectadas com elegância, que ia do penteado até os acessórios que usava e os repetiu por vários anos. A segunda era uma explosão criativa e com uma imprevisibilidade de misturas muito características."
Hoje, as influenciadoras também têm um papel na formação do nosso imaginário fashion, mas também na maneira como o estilo tem sido confundido com exclusividade. Existe uma corrida silenciosa acontecendo entre elas: quem consegue o look mais raro, mais caro, a peça de arquivo, a colaboração limitada, o vestido que ainda nem chegou por aqui. Ter acesso ao melhor look do mercado não é a mesma coisa que ter estilo.
Boa parte dessas produções – e isso não é segredo – sai da cabeça criativa de um stylist. A imagem que parece só dela costuma ser fruto de um trabalho terceirizado, cuidadosamente construído para preservar uma narrativa de espontaneidade e estilo próprio, porque autenticidade é uma moeda cada vez mais valiosa nesse meio.
É um modelo de negócio para essas mulheres, mas também uma resposta sobre por que tanta gente hoje se sente sem estilo próprio: a régua de comparação deixou de ser a vizinha, a colega de trabalho, ou mesmo uma celebridade se vestindo sozinha e virou uma pessoa com equipe inteira, orçamento e acesso.
Mas conversando com o stylist Antonio Frajado, que vestiu Fernanda Torres na campanha do Oscar, o fato de celebridades usarem a ajuda de profissionais não significa que elas não tenham seu jeito próprio de se vestir. “O que acontece é que hoje somos bombardeados de hora em hora por muita imagem produzida, mas todo mundo tem um estilo próprio, mesmo quem acha que não tem,” diz. “Até as próprias barreiras que as pessoas têm em relação ao corpo e ao gosto acabam criando um traço do estilo pessoal dela.”
Concluindo, estilo próprio não é sobre inventar algo do zero, não tem relação com dinheiro e não mora no preço de uma peça, mas sim na consistência de quem escolhe. Isso explica por que alguém pode ter um estilo reconhecível usando o mesmo estilo de calça há dez anos, enquanto outra pessoa pode gastar uma fortuna em grife sem que isso vire identidade nenhuma.
É sobre entender o que você ignora, o que você repete, o que você se recusa a comprar mesmo na trend mais grudenta. Assim como Frajado cria um diálogo com suas clientes que vai evoluindo com o tempo, crie um diálogo com você mesma: um exercício de repetição e observação, não de reinvenção constante. E só com tempo, essa conversa revela como a roupa que você escolhe te representa.
Como disse Miuccia Prada: “O que você veste é como você se apresenta ao mundo, especialmente hoje, quando o contato humano acontece tão rápido. A moda é uma linguagem instantânea”. Quando todo mundo bebe das mesmas referências, é a forma como você edita que vai fazer a diferença. E o que surgir dessa edição é o seu estilo pessoal.















