
O Le Smoking completa 60 anos
Completando seis décadas, o Le Smoking, criado por Yves Saint Laurent, continua reafirmando o caráter político da moda
Década mais importante do século XX, os swinging sixties entraram para história porque quebraram padrões. Foi um momento de ruptura generalizada. Nas palavras de uma das modelos mais famosas e belas da época, a alemã Uschi Obermaier, tudo era novo — a moda, a música, a filosofia — e, naturalmente, o modo de vida. “Não queríamos ter as mesmas relações que nossos pais e, na comuna, estávamos com a família que tínhamos escolhido,” já declarou. A pílula anticoncepcional abriu caminho para a revolução sexual e fortaleceu o terreno para a luta feminista; fortemente politizados, os jovens se mobilizaram e foram às ruas, sobretudo a partir de 1965.
A música unia essa nova geração para além de todas as fronteiras sociais, raciais e de gênero. Mas era a moda que espelhava tudo, transformando a efervescência do período em revolução na forma de vestir o corpo. Entre as tantas novidades no guarda-roupa, a minissaia pode até ser a mais popular e o monoquíni, a mais ousada, mas foi o Le Smoking, criado por Yves Saint Laurent, que assumiu o caráter mais essencialmente disruptivo.

Era 1966, mesmo ano que o estilista, então com 29 anos, lançava sua marca Rive Gauche — junto com o sócio e companheiro Pierre Bergé — e inaugurava a butique homônima no número 21 da rue de Tournon, na margem esquerda do rio Sena, onde fervilhavam o pensamento e os comportamentos modernos de Paris.
Inspirado na versão masculina usada em salas de fumantes para proteger as roupas do cheiro de charutos, o Le Smoking se tornou símbolo do movimento de igualdade entre homens e mulheres e expressava uma sensualidade poderosa, revelada nas linhas precisas do paletó e da calça de corte perfeito. Ao mesmo tempo, se afastava radicalmente do anonimato elegante do clássico vestidinho preto.
Para entender o efeito bombástico do look, é preciso entender que em meio a toda revolução social e política que a sociedade sessentista estava vivendo, as regras conservadoras ainda tinham força. Na moda, trajes formais para mulheres significavam vestidos e regras sociais ditavam onde e como uma mulher podia usar calças. Em Paris, alguns restaurantes recusaram a entrada de mulheres vestindo Le Smoking.

Também representou uma virada estrutural no setor de moda. Apresentado pela primeira vez na coleção alta-costura outono-inverno Pop-Art, foi adquirido por apenas uma cliente, episódio que pode ser considerado sintomático de como o formato estava em vias de obsolescência. Em contrapartida, a versão prêt-à-porter do smoking feminino virou sucesso imediato, impulsionado pelas musas do estilista.
A modelo Betty Catroux, conhecida como o “duplo feminino” de Saint Laurent, por encarnar a androginia e a atitude moderna que ele buscava, adorou a novidade. As atrizes Catherine Deneuve e Lauren Bacall e a designer Loulou de la Falaise também. “Lembro-me de quando Françoise Hardy usou um Smoking na ópera em Paris: escândalo. As pessoas gritaram e espernearam. Foi um ultraje,” contou Yves ao WWD anos mais tarde. Em 1971, Bianca Jagger, grávida de quatro meses, escolheu uma versão em branco, com saia, para substituir o tradicional vestido no seu casamento com Mick Jagger.
Apesar da aclamação das celebridades, foi, sem dúvida, o fotógrafo Helmut Newton quem mais contribuiu para tornar o Le Smoking icônico. Clicada na rue Aubriot para a Vogue Paris, em 1975, a imagem mostra uma mulher andrógina em um beco parisiense de iluminação tênue, com o cabelo penteado para trás, gravata branca impecável e um cigarro, entrelaçada com uma modelo vestida apenas com stilettos pretos.
No processo criativo de Yves, o smoking feminino provou estar muito à frente de seu tempo. Quando tinha apenas 13 anos e inspirado por uma apresentação de A Escola de Mulheres, de Molière, o futuro estilista criou seu próprio Illustre Petit Théâtre — um cenário em miniatura, pintado à mão, que incluía até uma casa de moda fictícia chamada “Yves Mathieu Saint Laurent Haute Couture Place Vendôme”, além de 11 bonecas de papel com roupas e acessórios. Em 1955, aos 19 anos, quando foi contratado como assistente de design na Dior, suas bonecas de papel já contavam com cerca de 450 peças — incluindo as primeiras versões do Le Smoking.

Desde seu lançamento, o look apareceu em todas as coleções até 2002, quando Yves Saint Laurent anunciou sua saída da moda. Foi, ainda, o ponto alto do encerramento do desfile retrospectivo celebrando 40 anos da sua carreira, no Centro Pompidou, enquanto Catherine Deneuve e Laetitia Casta cantavam “Ma plus belle histoire d’amour, c’est vous”, da cantora e compositora Barbara.
Pulando para o presente, Anthony Vaccarello, que completa 10 anos à frente da direção criativa da Saint Laurent, já havia começado a trabalhar na coleção outono-inverno 2026 quando soube do 60o aniversário do Le Smoking. Indo além da nostalgia, abriu o desfile com oito ternos escuros sem nada por baixo e adicionou um total de 14 peças até o final. Na nova interpretação, incorporou ombros caídos de sua alfaiataria masculina recente, eliminou o forro e trouxe fluidez à estética. A beleza, que incluiu cabelo com risca lateral, gel, preso em um coque e lábios vermelhos escuros e brilhantes, fez ponte tanto com a foto de Newton quanto com as campanhas da marca das décadas de 1970 e 1980.
E o que o Le Smoking diz sobre a sociedade contemporânea? Mulheres ocupam posições de poder, embora em número infinitamente inferior do que homens; ter ambições além da maternidade segue sendo visto, em muitos contextos, como um gesto de rebeldia, sem mencionar os índices de feminicídio, que no Brasil permanecem alarmantes.

O mais recente Relatório do Dia Internacional da Mulher da Ipsos, realizado em colaboração com o Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College London, em 29 países, mostra que um em cada dois homens acha que a luta pela igualdade os discrimina. Em média, 52% dos homens concordam que “avançamos tanto na promoção da igualdade das mulheres que estamos discriminando os homens.” Os dados também mostram que as mulheres têm mais liberdade de escolha em relação à autoexpressão, mas os homens são vistos como tendo mais opções em relação aos empregos. É um quadro que reforça a necessidade de mobilização e voz para as mulheres.
Como dispositivo simbólico, o smoking feminino reafirma a moda como linguagem política, capaz de traduzir visualmente a recusa em aceitar papéis prescritos. Sua presença na passarela e no imaginário cultural evidencia que a luta por equidade ainda precisa ser vestida, performada e reinscrita no cotidiano. Como Pierre Bergé bem afirmou certa vez, “Chanel deu liberdade às mulheres e Yves Saint Laurent lhes deu poder.”


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