Milão e o sentido do design

Milão e o sentido do design

Entre memória, matéria e significado, a semana de design de Milão revela uma nova forma de pensar o design

Sempre pensei o design como uma linguagem. Uma forma de comunicar histórias, traduzir memórias de tempo e espaço e conectar pessoas. Objetos carregam essas narrativas e, ao atravessarem o mundo, continuam a ressoá-las, desdobrando novos sentidos ao longo do tempo. Talvez por isso Milão nunca deixe de me surpreender — mesmo sendo a semana mais intensa do design no mundo, com milhares de eventos, instalações monumentais e lançamentos acontecendo ao mesmo tempo por toda a cidade, o que mais chama atenção não é o que se impõe. É o que permanece.

Poucos precisam de mais uma cadeira ou mais uma mesa. Mas todos respondem a histórias que fazem sentido, a objetos que carregam significado, que despertam memória. E foram justamente esses projetos, os que souberam escutar a memória, a essência e a materialidade, que se consolidaram como o verdadeiro talk of the town desta edição.

Na Torre Velasca, a exposição Warsaw – São Paulo – Milan dedicada ao legado de Jorge Zalszupin foi pensada em diálogo com Struggle for Beauty, que reúne artistas poloneses que permaneceram no país durante a guerra. Zalszupin deixou a Polônia aos 22 anos e encontrou no Brasil um ambiente completamente distinto, onde desenvolveu uma obra central para o modernismo brasileiro. Duas trajetórias, duas realidades, dois modernismos e uma mesma capacidade de produzir beleza. Enquanto finalizo este texto, soube que mais de 12 000 visitantes já passaram pela mostra, sem contar o preview para convidados. A semana ainda não terminou.

Esse mesmo gesto de escuta atravessa Future Memories, do designer italiano Roberto Sironi, onde vigas de madeira recuperadas de casas tradicionais japonesas, as Kominka, chegam quase intactas: os encaixes originais, as marcas do tempo e a lógica construtiva permanecem visíveis, em diálogo com superfícies de aço polido que multiplicam perspectivas e revelam o que o tempo foi depositando ali. A intervenção é mínima. A memória, central.

Em Entropia, Cristián Mohaded, argentino eleito designer do ano, parte de fragmentos de madeira acumulados ao longo dos anos no ateliê da ETEL e deixa que a matéria oriente o processo, que o gesto manual e a intenção do designer se aproximem a ponto de se confundirem. “Na ETEL sempre acreditamos que cada pedaço de madeira é uma joia da floresta,” e foi exatamente esse olhar que Cristián soube traduzir com uma sensibilidade rara. A curadoria é de Annalisa Rosso, diretora editorial e cultural do Salone del Mobile, que nesta edição assina também o Salone Raritas, com cenografia do estúdio Formafantasma, trazendo o design colecionável para o centro da feira. Como ela mesma observa, o valor cultural e identitário das peças de coleção está no centro de uma grande transformação que o design vive hoje.

Mas foi fora desse eixo que uma experiência me marcou de forma particular, quase um respiro dentro do ritmo frenético da semana. Em frente ao Castello Sforzesco, a instalação Reference Library, concebida pela Apartamento em colaboração com Jil Sander, propõe um deslocamento sutil: ao entrar, o ambiente muda, a luz baixa, o silêncio e o ritmo mais lento criam uma espécie de pausa. O conceito é simples e preciso — vivemos em uma era de leitura distraída e fragmentada, moldada por algoritmos, e o livro se afirma como objeto que exige presença, lentidão e atenção total. Sessenta livros escolhidos por escritores, designers, artistas e pensadores de todo o mundo fazem parte da instalação; cada exemplar, manuseado com luvas brancas,  abre uma janela para quem o escolheu.

E não é que a única peça de design presente era um banco Onda, de Jorge Zalszupin?

Ao percorrer os relatos, me fiz uma pergunta simples: qual seria o meu livro? Pensei imediatamente no título Em louvor da sombra, de Jun'ichirō Tanizaki. E não é que ele estava lá, em sua primeira edição, de 1933?

Aquele momento reuniu, em silêncio, tudo o que essa semana me confirmou: que o design mais potente não é o que grita. É o que guarda. O que escuta. O que carrega, com cuidado, o que o tempo ensinou.

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