
A arquitetura vira programa em São Paulo
A cidade deixa de ser apenas o lugar onde a arquitetura acontece e passa a ser destino para vivê-la — atraindo olhares de fora e, talvez mais importante, convidando quem está aqui a redescobri-la
Tem uma cena curiosa acontecendo em São Paulo.
De repente, a arquitetura virou programa. Voltou a estar na moda.
Para um País que já foi vanguarda — e um dos mais relevantes da arquitetura moderna no mundo a partir dos anos 30 —, esse movimento não é trivial. Durante décadas, entre descaso, negligência e uma certa perda de interesse coletivo, a arquitetura foi se afastando do imaginário mais amplo, recolhida a um circuito mais restrito, quase disciplinar. Como se tivesse perdido seu papel junto à vida das pessoas.
Agora, ela reaparece. E reaparece de outra forma.
Há um interesse renovado que não passa pela especialização, mas pela experiência. Gente de diferentes idades quer ver, entrar, atravessar, compreender. Quer circular por casas que sempre estiveram ali — mas que nunca pareceram disponíveis. Como se, por um momento, a cidade suspendesse seu ritmo frenético e se permitisse redescobrir.
Uma conjunção rara de exposições de arquitetura e design se espalha por São Paulo, mais do que ocupar a cidade, começa a desenhar uma espécie de campo expandido — onde arquitetura, memória e vida contemporânea se encontram.

Na Casa Museu Zalszupin, Oscar Niemeyer na Itália reafirma a relevância planetária do grande arquiteto brasileiro e destaca a potência de um legado que ultrapassa fronteiras ao articular poesia, rigor estrutural e imaginação. A mostra traz ao público a oportunidade de acessar, pela primeira vez, este capítulo singular da relação de Niemeyer com a Itália, onde deixou treze importantes projetos — alguns construídos, outros nunca realizados.
No MuBE, A Terceira Margem da Cidade: Paulo Mendes da Rocha e os desafios da vida no planet”, o legado do arquiteto é relido não como figura histórica, mas a partir de uma pergunta urgente: como a cidade responde ao mundo que estamos construindo? A exposição o reposiciona diante das urgências do presente — cidade, clima, futuro — e evidencia o quanto sua obra ainda opera como instrumento crítico para pensar o agora.
Mas talvez seja em outros registros que esse momento se torne mais revelador.
No Instituto Tomie Ohtake, Etcétera, de Isay Weinfeld, não tenta explicar sua arquitetura — ela te coloca dentro da cabeça dele. Entre maquetes, filmes, móveis, objetos dos mais variados e documentos, aparecem fragmentos de São Paulo que todo mundo reconhece, mesmo sem perceber: um detalhe de fachada, um gesto banal, o beirute do Frevinho... Tem humor, tem ironia, tem repertório urbano — e tem arquitetura.
E então tem a Casa Bola, de Eduardo Longo.
Durante anos, ela esteve ali, quase silenciosa, bem perto da Faria Lima, uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Uma presença estranha, impossível de ignorar. Um enigma cotidiano. Todo mundo já passou por ela em algum momento — e provavelmente se perguntou o que era aquilo, ou como seria viver dentro de uma esfera. Agora, finalmente, dá para entrar.
A abertura da casa com a ABERTO 5 não é só uma exposição — é a ativação de uma curiosidade coletiva. E, mais do que isso, a lembrança de que a arquitetura brasileira também foi profundamente experimental, quase radical.
Ao mesmo tempo, a Casa-Ateliê de Tomie Ohtake inaugura sua vocação como casa-museu com a exposição Percursos do Habitar, dedicada a Ruy Ohtake, trazendo uma arquitetura pensada a partir do encontro, onde o morar se expande para o coletivo.
E essas casas — Zalszupin, Tomie, Bola, Casa de Vidro — deixaram de ser apenas residências icônicas privadas para se tornarem lugares de experiência e guardiãs da nossa memória, símbolos vivos do nosso patrimônio cultural..
E, ao reunir tudo isso em um mesmo tempo, São Paulo se reposiciona. A cidade deixa de ser apenas o lugar onde a arquitetura acontece e passa a ser destino para vivê-la — atraindo olhares de fora e, talvez mais importante, convidando quem está aqui a redescobri-la.
Para quem quiser ir além, alguns livros interessantes ajudam a expandir este repertório: 18 Graus, de Lauro Cavalcanti, Dentro do Nevoeiro, de Guilherme Wisnik, Livro dos Labirinto”, de Francesco Perrotta-Bosch — e o já bastante conhecido A Arquitetura da Felicidade, de Alain de Botton.
Vale a pena.


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