Mazzucchelli Cardoso: a galeria que aposta em experimentação
Kiki Mazzucchelli e Luciana Cardoso

Mazzucchelli Cardoso: a galeria que aposta em experimentação

Nova galeria de São Paulo traz visão de longo prazo e relação mais próxima entre artistas, colecionadores, curadores e público

A Mazzucchelli Cardoso, projeto de Kiki Mazzucchelli e Luciana Cardoso, nasce da combinação do desejo de criar um espaço com rigor curatorial, visão de longo prazo e uma relação próxima com artistas, colecionadores, curadores e público. “Somos uma galeria interessada em pesquisa, experimentação e construção de trajetórias consistentes, mas também em criar um espaço vivo, acolhedor e permeável para conversas e trocas", comentam as sócias.

A abertura acontece com exposições das artistas biarritzzz e Camila Sposati, intituladas Castelinhos de Areia e Matéria da Matéria, respectivamente, em cartaz até 13 de junho. Na vitrine, biarritzzz apresenta uma série criada a partir de pesquisa desenvolvida no Marrocos, conectando o deserto do Saara ao Sertão do Cariri. 

Série criada pela artista biarritzzz

Na sala principal, Camila Sposati reúne obras em cerâmica, desenhos e têxteis. O conjunto, já mostrado em museus europeus e inédito no Brasil, faz parte de uma longa pesquisa em que a artista questiona o antropocentrismo, o tempo linear e a divisão entre cultura e natureza.

“Existe algo simbólico em trazer ao Brasil um projeto que já circulou em instituições europeias, mas ainda não tinha sido mostrado aqui. Isso fala sobre a nossa vontade de construir pontes e ampliar repertórios”, comentam as galeristas.

Kiki Mazzucchelli tem mais de 30 anos em curadoria, incluindo 22 de atuação internacional. Luciana Cardoso agrega mais de 25 anos como profissional de comunicação e colecionadora. Juntas, perceberam que eram parceiras ideais quando trabalhavam na Luisa Strina. "Nós duas tínhamos o desejo de abrir uma galeria, mas parecia algo distante. Temos muita afinidade, mas cada uma sempre traz algo novo para a mesa", disseram.

A escolha das exposições vem da conversa entre as duas pesquisas, embora operem em registros distintos. Camila nasceu em São Paulo em 1972, vive em Viena, na Áustria, e trabalha em uma escala mais imersiva, ligada à matéria, ao subterrâneo, à geologia e a temporalidades profundas. Já biarritzzz, que nasceu em 1994 em Fortaleza e vive e trabalha em Salvador, investiga tecnologia, imagem e circulação cultural contemporânea de forma pouco óbvia, aproximando cultura digital e tecnologias ancestrais.

O programa ainda conta com nomes como Luisa Matsushita, Heloisa Franco, Felipe Seixas e Fran Chang. “Não existe uma tese curatorial fechada no sentido tradicional, até porque acreditamos que a produção contemporânea hoje é muito fragmentada e plural. O que conecta esses artistas é a profundidade da pesquisa e a construção de linguagem própria”, disse Kiki sobre o programa. “Existe também um interesse comum por artistas que constroem universos muito únicos, com obras reconhecíveis e linguagem própria. E talvez o mais importante seja o fator ‘frio na barriga’, aquela sensação maravilhosa de ser arrebatada ao olhar para o trabalho de um artista”, completa Luciana.

Obras da série "Matéria da Matéria", de Camila Sposati

A seguir, confira a entrevista do Page9 com as galeristas.

P9: Como chegaram à escolha dessas duas artistas para a abertura?
Luciana e Kiki: “As duas artistas, Camila Sposati e biarritzzz,  têm um trabalho fundamentado em pesquisas muito aprofundadas, porém distintas. Além disso, ambas possuem currículos institucionais brilhantes, com participações em bienais e museus brasileiros e internacionais. A Camila trabalha em uma dimensão muito ligada à matéria, geologia e temporalidades profundas, enquanto a biarritzzz parte de questões relacionadas à imagem, tecnologia e circulação cultural contemporânea, mas sempre de maneira muito singular. 

Apesar de operarem em registros diferentes, ambas constroem universos muito próprios e têm trabalhos que exigem uma experiência mais atenta e menos imediata. Também existe uma intenção muito clara de criar diferentes formas de entrada na galeria: colocar a biarritzzz na vitrine tem uma intenção clara de abertura para a rua. Existe uma energia imediata e luminosa no trabalho dela que cria esse primeiro contato com quem passa pela galeria — durante a instalação já percebemos os transeuntes encantados com a sua obra —, enquanto a exposição da Camila propõe uma experiência mais imersiva e de permanência. Apesar de pertencerem a gerações distintas, biarritizzz e Camila são artistas que se encontram no experimentalismo e na pesquisa.”

P9:  Qual é o papel das galerias de arte hoje, quando os artistas já têm visibilidade nas redes sociais?
Luciana e Kiki: “As redes sociais ampliaram a visibilidade dos artistas, o que é positivo, mas a visibilidade não é necessariamente construção de trajetória. O papel da galeria hoje é justamente oferecer contexto, interlocução crítica, continuidade e inserção institucional para que uma prática artística se desenvolva de maneira consistente ao longo do tempo. 

Uma galeria não é apenas um espaço de venda ou exposição. Ela participa da construção de sentido em torno da obra, aproxima artistas de curadores, colecionadores e instituições, viabiliza pesquisas, publicações, exposições, feiras e diálogos que dificilmente acontecem de forma isolada. No nosso caso, existe também um interesse muito forte em acompanhar processos e construir relações de longo prazo com os artistas.” 

P9: As galerias ficam com uma porcentagem das vendas? Como funciona essa representação e o que muda na vida desses artistas?
Luciana e Kiki: “Sim, existe uma divisão sobre as vendas, como acontece tradicionalmente no sistema da arte e essa é uma relação que envolve muito mais do que uma intermediação comercial. A galeria investe tempo, estrutura, planejamento, produção, comunicação e relacionamento institucional para contribuir com o desenvolvimento da carreira dos artistas. Existe um trabalho contínuo de posicionamento do artista, de ampliação de repertório em torno da obra e de construção de oportunidades no médio e longo prazo. Na prática, isso permite que muitos artistas consigam dedicar mais energia à própria pesquisa, sabendo que existe uma estrutura trabalhando pela circulação, inserção e sustentabilidade daquela produção.”

P9: Qual é a importância dessa representação para a valorização do artista?
Luciana e Kiki: “A valorização de um artista acontece pela construção de uma trajetória sólida e coerente ao longo do tempo. Uma boa representação ajuda a criar contexto crítico para a obra, estabelecer diálogos institucionais, desenvolver relações de confiança com colecionadores e garantir que a produção circule de maneira cuidadosa e consistente.  Especialmente hoje, em um ambiente de excesso de informação e imagens, acreditamos que existe ainda mais valor em processos de mediação, aprofundamento e construção de legado.”

Galeria Mazzucchelli Cardoso

Rua Barão de Capanema, 440 - Jardins, São Paulo

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