Em uma rara participação na indústria do cinema, Kate Moss assina como produtora executiva de um filme biográfico no qual ela se vê representada em um dos papéis principais.
Moss & Freud, que estreou no dia 29 de maio nos cinemas da Inglaterra e ainda não tem data para chegar ao Brasil, retrata o período em que a top posou nua, ao longo de várias sessões, para o artista Lucian Michael Freud, e a relação improvável de amizade cultivada por eles.

Kate Moss é famosa por revolucionar os padrões de beleza e ditar a estética dos anos 1990 - foi o rosto e corpo da era heroin chic, que mostrava mulheres magérrimas, olheiras fundas e pele pálida.
Freud, que é neto de Sigmund Freud, foi apresentado à modelo por meio de sua filha, a estilista Bella Freud, hoje também apresentadora de um dos podcasts mais celebrados no mercado da moda, o Fashion Neurosis. Kate Moss estava grávida quando posou para o quadro Naked Portrait 2002 e, acostumada a impressionar o mundinho fashion, encontrou em Freud, um dos mais importantes retratistas ingleses do século XX, alguém difícil de impactar.

“Conheci muitas pessoas interessantes, mas Lucian Freud é o que mais me marcou, porque passei muito tempo com ele", disse ela ao The Times, anos atrás.
“Ele me ensinou disciplina, algo que eu não tinha aprendido direito antes. Se eu me atrasava, tipo, dois segundos, ele já explodia. Uma vez cheguei três minutos atrasada e ele foi à loucura. Eu estava chorando, estava grávida, e falei, 'estou grávida!' . Ele disse: 'oh, me desculpe', e fui perdoada. Ele era muito rígido e causou uma impressão enorme em mim.”
Kate Moss embarcou em uma jornada de autodescoberta quando o artista, nascido em 1922 em Berlim, naturalizado anos depois como britânico, se ofereceu para pintá-la. O filme se passa em 2002. Na época, ela tinha 28 anos. Ele, 80.
Tudo aconteceu no ateliê dele, em Londres – um espaço íntimo onde Freud observava seus modelos com bastante atenção, em sessões longas e extenuantes. Em 2010, um ano antes de ele morrer, a relação do artista com o espaço chegou a ser tema de exposição no Centre Pompidou, em Paris.
“Lucian Freud pintava apenas aquilo que colocava dentro desse espaço. Ali organizava seus modelos segundo encenações precisas, integrando o mobiliário e os poucos objetos do ateliê”, disse o museu na descrição da mostra Lucian Freud: L'atelier.
Freud tinha fama de ser um homem extremamente reservado, discreto e sedutor (foi pai de 14 filhos reconhecidos). Tabloides britânicos chegaram a especular sobre a natureza exata de sua relação com a top – fato negado pelo filme que assume, segundo a crítica do The Guardian, a “ingrata tarefa de deixar claro, de forma insistente, que isso jamais aconteceu.”
"Never complain, never explain" é o mantra adotado por ela desde o início da carreira, por influência de seu então namorado, o ator Johnny Depp, durante os anos 1990. Foi essa filosofia que a ajudou a manter-se discreta ao longo de todos esses anos.
Freud é conhecido pela profundidade psicológica e pela análise, muitas vezes desconfortável, da relação entre artista e modelo. A imagem que criou de Kate Moss não se parece em nada com uma fotografia de moda – e é completamente diferente da maneira como ela tinha enxergado a si mesma, até então.

A obra, de 122.2 x 152.7 cm, levou um ano para ficar pronta e foi vendida pela Christie’s por £3,9 milhões em 2005 (cerca de R$ 19 milhões na época), e passou a integrar uma coleção privada americana.
O filme tem direção de James Lucas. Ganhador do Oscar de Melhor Curta-Metragem de Ficção em 2015 pelo filme The Phone Call, Lucas estreia na direção de um longa com Moss & Freud.
Sobre o elenco — Ellie Bamber interpreta Kate Moss e Derek Jacobi interpreta Lucian Freud — o jornal inglês disse: “Ambos surgem suavizados, sem as características mais controversas ou marcantes que os tornaram famosos.”
Isso não nos deixa com menos vontade de vê-lo. O filme promete o retrato de um universo boêmio que retrata a conexão entre duas mentes criativas, vanguardistas e influentes.
Muitas modelos amariam ter posado para Lucian Freud. Muitos pintores amariam pintar Kate Moss. Um encontro como esse não acontece todo dia. Mas fica a dúvida: realmente queremos saber mais sobre eles, ou amamos porque não sabemos?

















