O inglês Luke Littler, de apenas 18 anos, conquistou o título do Campeonato Mundial de Dardos da PDC (Professional Darts Corporation) no início do ano, em Londres. Com a vitória, ele garantiu o bicampeonato consecutivo da competição e embolsou £ 1 milhão.
No Reino Unido, o berço dos dardos, um mundial como esse não tem nada de brincadeira. Além do dinheiro envolvido, há transmissão pela televisão e seus praticantes profissionais são famosos ao ponto de ganharem temas musicais de seus fãs.
No Brasil, a modalidade está começando a se reorganizar. Competições regionais e nacionais já estão acontecendo (com premiações ainda bastante simbólicas, claro), novos espaços começam a ser prospectados (sem abrir mão dos pubs) e a ideia de uma prática saudável e de “descompressão” já começa a ser difundida.
O esporte desembarcou por aqui nos anos 1970, trazido principalmente por ingleses, americanos e canadenses que trabalhavam em multinacionais ou viviam no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Mário Portela, ex-campeão brasileiro e um dos responsáveis por estruturar e popularizar os dardos no Brasil, conta a história de um jeito mais detalhado. De acordo com ele, o jogo de dardos chegou ao Brasil por meio de um texano chamado Jim Phillips. “Ele abriu um pub em Ipanema, o Lord Jim Pub. Lugar que recebia muitos estrangeiros que já conheciam e praticavam o jogo de dardos em seus países,” disse Portela. “Na época, a gente não tinha acesso aos dardos ou alvos por aqui. Quem viajava era quem trazia essas coisas na mala. Usávamos os dardos mesmo estando muito estragados.”
Mesmo com a precariedade, os dardos tiveram um “boom” nos anos 1980, espalharam-se por outros estados (com torneios interestaduais entre Rio e São Paulo) e nossos campeões chegaram a participar de competições fora do país.
A modalidade manteve um crescimento razoável até o “baque” das Olimpíadas de 2012. Como os Jogos Olímpicos seriam na Inglaterra, criou-se uma expectativa de que o esporte seria selecionado como uma modalidade de exibição. A negativa do COI (Comitê Olímpico Internacional) foi um balde de água fria, claro, entre os praticantes na própria Inglaterra, mas também por aqui – já que os principais articuladores do dardo no Brasil já trabalhavam no sentido de participar ou, ao menos, aproveitar o hype de um dardo olímpico.
Depois de 2012, o jogo de dardo foi perdendo seu espaço. Não que ele tivesse desaparecido dos pubs — muitos até mantinham o alvo em funcionamento —, mas já não obedeciam à distância regulamentar ou, simplesmente, colocavam seus alvos em cima de mesas ou em lugares inadequados. Ou seja, existia apenas como brinquedo.

Por incrível que pareça, a pandemia de Covid-19 trouxe uma nova saída para a modalidade no Brasil. Com a impossibilidade de encontros presenciais, os praticantes promoviam competições online – que continuam sendo organizadas até hoje.
No período pós-pandemia, nasceu a Organização Brasileira de Dardos (OBD) – que vem cumprindo a missão de reorganizar a categoria, promovendo competições regionais, inter-regionais e o intercâmbio dos jogadores brasileiros e seus pares internacionais.
O diretor e fundador da OBD, Maurício Pedrassi, acredita que o crescimento do esporte depende de alguns fatores. “Aumentar o número de praticantes, levando o dardo para outros espaços, como clubes esportivos,” disse Pedrassi – que reconhece que é preciso desconectar a prática do consumo de álcool (por isso a importância de levá-la para os clubes e atrair um público infantojuvenil), mas, ao mesmo tempo, também levar o dardo para mais pubs.
Hoje, em São Paulo, o espaço reconhecido pela organização é o Deep Bar, na Barra Funda. Não que não existam alvos em outros pubs, mas, via de regra, não respeitam as normas regulamentares de altura e distância dos alvos.
O espaço transformou-se em um ponto de encontro dos entusiastas do dardo. Por lá, um grupo de participantes fundou o Deep Darts Club. “Se alguém me entrevistasse há uns três anos sobre o futuro dos dardos no Brasil, eu diria que a prática iria sumir. Mas, agora, penso diferente. Vejo muita gente conhecendo o jogo, campeonatos voltaram a ser organizados,” diz Gilberto Yamashiro, vice-presidente do Deep Darts Club.
Yamashiro ressalta uma das características mais marcantes do esporte: a concentração. “O dardo ajuda no foco, a aprender a se concentrar. Pense: ele normalmente é praticado em um pub barulhento. Você precisa acalmar a mente para acertar o alvo. É um condicionamento mental muito forte,” diz.
Para além do caráter competitivo, os dardos também guardam um caráter de “descompressão” da vida cotidiana. “O alvo faz com que a gente saia das telas, do celular... Com a vida que se leva hoje, esse momento de descompressão é algo muito valioso,” diz o jornalista e entusiasta do dardo, Eduardo Kattah.
O caráter terapêutico dos dardos é reforçado pela característica inclusiva do jogo. “O que me encanta no dardo é que ele é inclusivo, pode ser praticado por pessoas de qualquer idade. Não é preciso ter físico de atleta, e homens e mulheres praticam em pé de igualdade. Não é um esporte aeróbico, mas exige concentração e até um pouco de matemática,” diz.















