Tudo em Songs in the Key of Life é superlativo.
Os números falam: 18º álbum de estúdio do cantor, compositor e músico Stevie Wonder, Songs in the Key of Life é um LP duplo acompanhado de um EP bônus com quatro faixas. E desde o dia em que foi lançado, há exatos 50 anos, a aceitação foi imediata: o álbum estreou em primeiro lugar na parada Billboard 200, e tanto o primeiro single, I Wish, quanto o seguinte, Sir Duke, chegaram ao topo da Billboard Hot 100.
O álbum permaneceu 13 semanas consecutivas em primeiro lugar na Billboard 200 – sendo o disco que mais tempo ocupou o topo naquele ano. Em 2005, a obra recebeu a certificação de Diamante da Recording Industry Association of America (RIAA), indicando a venda de 5 milhões de unidades. No mesmo ano, foi incorporado ao National Recording Registry da Biblioteca do Congresso, que o considerou “cultural, histórica ou estéticamente significativo”.
Para marcar a data, Stevie Wonder fará uma turnê que celebra o 50º aniversário de lançamento do álbum. A série de shows está programada para começar em Birmingham, no Reino Unido, no dia 13 de outubro, abrindo a etapa europeia, que vai até 12 de novembro. Em seguida, haverá uma etapa nos Estados Unidos, com início em 19 de novembro em Nova York e encerramento em Los Angeles, em 19 de dezembro.
Songs in the Key of Life surge da confluência de dois caminhos. Um luminoso, destacando a carreira de um artista que chegava aos 25 anos vivendo o ápice de sua carreira e que, desde os 21, desfrutava de total independência artística. Em troca, ele devolvia à gravadora sucessos que se transformavam em clássicos instantâneos, como os discos Music of My Mind e Talking Book (ambos de 1972), Innervisions (1973) e Fulfillingness’ First Finale (1974).

Já o lado sombrio era a soma de um desastre de automóvel em agosto de 1973 – que o deixou em coma e desenganado pelos médicos – com a desilusão e a amargura de um cidadão que não se conformava com os rumos que os Estados Unidos estavam tomando naqueles anos marcados pela guerra do Vietnã, pelo escândalo Watergate e pela renúncia de Nixon. Decepcionado, Stevie Wonder, em março de 1975, cogitava seriamente abandonar a indústria musical e mudar-se para Gana. Pretendia se engajar em campanhas de ajuda a crianças com deficiência.
Por tudo isso, Songs in the Key of Life representa um renascimento.
Ponto máximo da carreira de Stevie Wonder, o disco começou a ganhar forma a partir de um contrato igualmente superlativo.
O artista e a Motown assinaram, em 5 de agosto de 1975, um acordo que previa um compromisso de sete anos e sete álbuns, com controle artístico total para o músico. O contrato incluía um pagamento antecipado de US$ 13 milhões (hoje estima-se que seria superior a US$ 200 milhões), um bônus de US$ 20 milhões, além de 20% dos direitos autorais e a posse dos direitos de publicação. Era o maior contrato de gravação da história.
E o documento reafirmava que o artista teria total liberdade de criação.
Ressurgido artisticamente, Stevie Wonder começou a trabalhar de forma incansável. A expectativa inicial em torno do novo álbum era de que ele fosse lançado ainda naquele ano de 1975, em outubro.
A equipe de marketing da Motown soube, inclusive, aproveitar o atraso produzindo camisetas com a frase “We’re almost finished” (“Estamos quase terminando”) e, mais adiante, instalando durante quatro meses de 1976, uma das imagens mais marcantes da Times Square: um painel gigante (com 18 metros de altura por 122 de largura) de Stevie Wonder anunciando a chegada de Songs in the Key of Life — que agora chegava ao título definitivo: o provisório era Let’s See Life the Way It Is.

O disco foi gravado principalmente no estúdio Crystal Sound, em Hollywood, com algumas sessões realizadas nos estúdios Record Plant. A mixagem final ocorreu no Crystal Sound. O projeto começou a atrasar quando Stevie Wonder considerou essencial realizar mais trabalhos de remixagem.
E aí todo o perfeccionismo do músico se revelou. À frente de uma legião de 130 profissionais das mais variadas áreas (só entre músicos eram mais de 50), Stevie Wonder fazia questão de deixar sua digital em cada detalhe.
Passava longas horas no estúdio — muitos testemunharam que às vezes ele sequer comia ou dormia —, ouvia e reouvia cada faixa e exigia dedicação semelhante dos músicos, muitos deles nomes igualmente consagrados como Herbie Hancock (que tocou Fender Rhodes em As), George Benson (guitarrista em Another Star) e Minnie Riperton (vocalista em Ordinary Pain).
Em contraposição ao (des)ânimo que demonstrava meses antes, Stevie Wonder passou a se mostrar otimista em relação à arte e à humanidade. Maior símbolo dessa mudança de comportamento — e música que pode resumir tanto a grandeza do álbum quanto a fase luminosa vivida por Stevie Wonder — é Isn’t She Lovely.
Canção primal em todos os sentidos — inclusive a abertura começa com o primeiro choro de um bebê — Isn’t She Lovely é a celebração do nascimento de Aisha Morris, primeira filha de Stevie Wonder.
A mesma faixa ainda incorpora na gravação o registro do compositor dando banho na filha. Por ter mais de seis minutos de duração, Isn’t She Lovely não teve lançamento prévio como single, já que Stevie Wonder não queria encurtá-la para adequá-la ao formato de disco compacto (45 rpm), ainda assim a canção teve maciça execução nas rádios e de imediato entrou para as listas das mais tocadas.
Mais abstrata das artes, a música em Songs in the Key of Life ganha uma dimensão ainda mais intangível se for levado em conta que a obra nasceu da mente visionária de alguém que nunca enxergou.
Complexo, elaborado, refinado, Songs in the Key of Life desafiava qualquer lógica e preenchia todos esses requisitos sem perder o potencial de ser claro e acessível.
Como se fosse preciso jogar luz sobre o que estava visível — mas que ele viu antes — ressaltando de uma obra imensa tudo o que é essencial; e obtendo da simplicidade o máximo do refinamento.
A capacidade para construção de ideias e de imagens fez de Stevie Wonder o mais completo criador de um mundo ao mesmo tempo tão particular e tão universal.
Estava aí a chave (“key”, dando outro significado a uma das palavras do título) que iria abrir outras portas da percepção.














