Do Nordeste para o mundo, “Feito Pipa” já é um vencedor

Do Nordeste para o mundo, “Feito Pipa” já é um vencedor

Na corrida ao Oscar, o longa trilha um caminho de sucesso ao levar ao mundo uma história de força e fragilidade familiar

Feito Pipa, de Allan Deberton, representa o Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional na 99ª premiação do Oscar 2027. 

“O filme tem uma narrativa sensível que comunica universalmente e, ao mesmo tempo, traz uma forte identidade brasileira a partir de uma cidade do interior do Ceará. É sobre a família, a cumplicidade entre avó e neto, infância, finitude e já foi premiado em festivais internacionais importantes,” disse Clélia Bessa, presidente da Comissão de Seleção.

Depois de disputar com outras 14 produções, o longa escolhido por membros da Academia Brasileira de Cinema passou para o segundo turno, com outros cinco títulos: 100 Dias, de Carlos Saldanha; A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai; A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo; Nosso Segredo, de Grace Passô; e Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins.

Feito Pipa narra a história de Gugu (Yuri Gomes), um menino apaixonado por futebol e dança que vive com a avó Dilma (Teca Pereira) no sertão cearense. Criado de maneira livre e afetuosa, ele se vê diante de um grande desafio quando precisa encarar a possibilidade de deixar a vida com a avó para morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos). 

O filme aborda temas delicados, como infância queer e Alzheimer, além de mostrar o machismo e a ausência paterna pelo personagem de Lázaro Ramos. 

Em conversa com o Page9, o diretor Allan Deberton comenta o roteiro de André Araújo.

“O roteiro tem uma delicadeza que sempre me emocionou. Gugu não se define como uma criança queer; ele é simplesmente um menino que gosta de futebol, de dançar e de se maquiar. Para ele, essas coisas convivem.

O conflito nasce do olhar do mundo, especialmente do pai, que o ama, mas que é incapaz de acolher o filho por inteiro. Já o Alzheimer é um espelho da própria paisagem. Enquanto a memória da avó Dilma vai desaparecendo, a seca faz ressurgir as ruínas de uma cidade submersa. É como se algumas lembranças fossem apagadas e outras, enterradas há muito tempo, voltassem à superfície. No centro de tudo está o amor entre uma avó e um neto.”

Com uma trilha sonora eclética, que inclui A Noite Vai Chegar, de Lady Zu, sucesso nas boates brasileiras nos anos 1970; canções do grupo Falamansa e de Pabllo Vittar; e descobertas como Ombrim, do cantor piauiense Ronni Bruno, Feito Pipa mostra que amadurecer não é fácil. 

O longa transita entre a força e a fragilidade familiar, destacando os relacionamentos entre avó e neto, e filho e pai. Em ambos, o amor se faz presente, mas para um deles não é tão simples demonstrar. Essa abordagem cria personagens singulares, que se encaixam perfeitamente em cada ator. Deberton conta como foi a escolha do elenco.

“A escolha de Gugu era a mais difícil, pois o personagem tem camadas diversas, até contraditórias, e o ator precisava dar conta. Para além disso, a criança estaria em todas as cenas e tinha que ‘segurar’ o filme, então o sucesso depende muito dele. Fizemos audições com cerca de 700 crianças do Nordeste e encontramos Yuri Gomes. Quando o conhecemos, nos apaixonamos. Yuri tem um mistério, uma inteligência e uma alegria muito próprias. Não parecia estar tentando interpretar Gugu; parecia reconhecer alguma coisa dele dentro de si. E isso é muito bonito porque Feito Pipa é seu primeiro filme,” disse o diretor.

Para viver a avó Dilma, Allan Deberton explica que a atriz Teca Pereira já era lembrada desde as primeiras versões do roteiro. 

“Quando começamos a formatar o projeto, oficializar o convite à Teca foi quase um gesto natural. Teca tem a excentricidade da personagem, uma autenticidade impossível de fabricar. Ela trouxe para Dilma muito mais do que a fragilidade do Alzheimer: trouxe humor, desejo, personalidade e uma ternura imensa. O encontro dela com Yuri criou o coração do filme.”

Lázaro Ramos interpreta um personagem que poderia facilmente ser o antagonista do filme. Mas o seu Batista é humano, apesar de todos os preconceitos. O cineasta relembra que teve um encontro com Lázaro em 2019, no Festival de Gramado, quando lançava seu primeiro longa, Pacarrete. 

“Foi lá que combinamos que, um dia, trabalharíamos juntos. Tive muita sorte de ele ter topado viver Batista. Eu tinha certeza de que ele iria conferir ao pai as nuances e as contradições que o personagem precisava. Lázaro foi incrível em todo o processo. Abraçou Quixadá e as cidades vizinhas e foi abraçado fortemente na região. Deixou por lá uma lembrança de encantamento e generosidade. Acho que isso diz muito sobre o filme.”

Feito Pipa estreou mundialmente em fevereiro no Festival Internacional de Cinema de Berlim, onde conquistou o Urso de Cristal de Melhor Filme, e o Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus. Desde então, vem trilhando um caminho de sucesso: foi o longa-metragem mais premiado da 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, em agosto, onde ganhou quatro Kikitos (Melhor Direção, Melhor Atriz para Teca Pereira, Melhor Ator Coadjuvante para Lázaro Ramos e Melhor Filme pelo Júri Popular), além de uma Menção Honrosa para Yuri Gomes. 

“O filme nasceu no Ceará, foi rodado em Quixadá e levou para o mundo uma história profundamente ligada ao Nordeste, aos nossos afetos e à forma de ‘arengar’ [implicar] um com o outro. No Nordeste a gente grita e briga, mas a gente ama. Estreamos na Berlinale e saímos de lá com o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri. Receber o reconhecimento dos dois júris na mesma mostra é algo muito raro e emocionante porque adultos e crianças, de culturas diferentes, foram tocados pelo filme,” disse Allan Deberton.

O longa também saiu vitorioso do Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias (FICCI), na Colômbia, e do Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, no México, e será exibido no Giffoni Film Festival, na Itália; no Frameline, em São Francisco, nos Estados Unidos; e no Shanghai International Film Festival, na China. 

“Viajamos para Cartagena, Guadalajara, Xangai e por diversos festivais importantes da Europa, da Ásia e dos Estados Unidos. Em cada lugar, pessoas que nunca estiveram no sertão cearense reconheciam a natureza dos personagens do filme e se comoveram com eles. No Brasil, a recepção foi igualmente apaixonada no Festival de Gramado e saímos com cinco prêmios. E agora recebemos a honra imensa de representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar,” comemora o cineasta.

Feito Pipa traz também no elenco Carlos Francisco (O Agente Secreto) e Georgina Castro (O Céu de Suely), além de apresentar as crianças Luan Vasconcelos, Beatriz Carwile, Nathyel Martins, Manuela Paulino, Pablo Vinícios e Enzo Uejo. Agora, a equipe do filme se prepara para a estreia brasileira, marcada para 05 de novembro. 

“Queremos crescer junto com o público, ampliar essa torcida no Brasil. Acredito que, quando um país se reconhece em uma obra e decide sonhar junto com ela, essa energia atravessa fronteiras. É essa corrente de carinho que queremos levar até o Oscar,” conclui.

A pré-lista de indicados ao Oscar na categoria Melhor Filme Internacional será revelada em 15 de dezembro. A lista final vai ser divulgada em 21 de janeiro de 2027 e a cerimônia do Oscar está marcada para o dia 14 de março de 2027. 

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