Drake Shake e outras lições da Antártica

Drake Shake e outras lições da Antártica

Depois de passar por 88 países, a viajante profissional conta como uma expedição na Antártica mudou sua vida para sempre

Silêncio. Ao redor, quase tudo é azul e branco: as águas muito escuras, a neve e o gelo com nuances de azul-elétrico iluminadas por uma luz natural inexplicável. Uma beleza tão poderosa assim, só vi na Antártica. 

Quando avistei o continente pela primeira vez, ainda no convés do SH Minerva, navio da Swan Hellenic, apesar do frio intenso, senti um quentinho no coração. Foram 12 dias embarcada — levam-se três dias para ir e mais três dias para voltar. 

A embarcação, um navio cinco estrelas com capacidade para 152 passageiros, tem spa, restaurantes, academia, piano bar e um lounge de observação que permite acompanhar o espetáculo natural com extremo conforto — e a 23 ºC.

A Passagem de Drake, um dos momentos mais esperados e temidos da viagem, marca o encontro das águas dos oceanos Atlântico e Pacífico, literalmente onde o vento faz a curva na Terra, sem barreiras para conter a força das águas. 

Acordei na madrugada com a porta do quarto batendo. O barco parecia quase virar repetidas vezes, vi ondas gigantes pela janela da varanda. O capitão conhecia bem aquela rota, mas foram 48 horas de tempestade, com ondas de mais de 10 metros. Nem ele tinha vivido uma situação tão extrema ali, segundo o próprio, que reuniu os passageiros para saber se estavam todos bem e celebrar o sucesso após o mítico Drake Shake. 

Uma vez na água, as enormes baleias nos recebem com cantos e coreografias. A escala muda bruscamente quando se caminha quase junto aos pequenos pinguins — quase, que fique claro. O respeito é premissa. Por lá, é possível encontrar o pinguim-imperador, o maior de todos; o Adélia; e o Gentoo, um nadador veloz de bico laranja.

Leões-marinhos, focas, pássaros e leopardos-marinhos, fofíssimos e perigosos, completam a fauna mais corriqueira. Algumas geleiras são esculturais e ganham novos desenhos conforme o ponto de vista. 

Chego à conclusão de que poucas coisas são mais elegantes que o respeito, e a Antártica tem isso de sobra. São 14 milhões de km² regidos pelo Tratado da Antártica, um combinado de paz e pesquisa firmado em 1959 por 12 países que entrou em vigor em 1961 e, atualmente, conta com 58 participantes. 

A Antártica mudou algo em mim. Sou pilhada, ligada no 220 v. Sem esforço, entrei em modo contemplativo. À noite, depois de um drink no piano bar, o convés era o meu lugar. Lá, admirava o céu, sem pressa, sem pressão, já com a total confiança naquelas águas agitadas. Afinal, mar calmo não faz um bom marinheiro. 

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