"Don't drink to get drunk. Drink to enjoy life." A frase atribuída ao ícone da Geração Beat, Jack Kerouac, autor de On the Road, deveria estar estampada em camisetas e placas ao redor do mundo.
Infelizmente, o próprio escritor não seguiu aquilo que brilhantemente apregoou. Kerouac tinha uma relação nada saudável com o consumo de álcool. Mas, quando estava no modo “aproveitar a vida” — e influenciado por suas viagens ao México —, ele era um amante das Margaritas.
Sem julgamentos morais ou abstinência militante, vamos mergulhar etilicamente na conexão entre escritores, suas obras, personagens e a arte da coquetelaria. Mas, antes do primeiro gole, é preciso ressaltar que ninguém é genial ou mais criativo porque consome álcool.
Para a escritora britânica Olivia Laing, autora do livro Viagem ao Redor da Garrafa – Um Ensaio Sobre Escritores e a Bebida, o álcool não constitui um catalisador para a genialidade criativa; a literatura pode florescer apesar da dependência do álcool, e não em decorrência dela.
Quem segue a mesma linha de raciocínio é Stephen King. Em seu livro Sobre a Escrita: a Arte em Memórias, ele afirma que "a ideia de que o esforço criativo e as substâncias que alteram a mente estão interligados é um dos grandes mitos intelectuais do nosso tempo."
Dito isso, vamos aos tragos!
William Faulkner era um amante de Mint Julep, coquetel servido em uma caneca de metal que leva bourbon, hortelã, açúcar e gelo picado. Uma de suas frases mais marcantes sobre o álcool é "Civilization begins with distillation."
Truman Capote, autor de A Sangue Frio e Breakfast at Tiffany's, tinha uma frase emblemática envolvendo drinks e o ofício de escrever: “In this profession it’s a long walk between drinks”. Apesar de ser um sujeito refinado, o coquetel que marcou a vida de Capote era bastante simples. Ele não renunciava a um Screwdriver, feito com vodca e suco de laranja (ele insistia que a vodca fosse russa ou polonesa).
Outro homem sofisticado, mas etilicamente básico, era Scott Fitzgerald, autor de O Grande Gatsby. O drink que sempre acompanhava o autor era o Gin Rickey: gim, suco de limão e club soda.
Já a escritora Marguerite Duras amava um Campari com água tônica. "Campari é magia," diz uma personagem de Marguerite em Os Cavalos de Tarquínia.
Às vezes, a relação de um escritor com seu drink é tão umbilical que ele se torna responsável por criar parâmetros de como servi-lo. Raymond Chandler, em seu livro mais célebre, O Longo Adeus, faz com que o detetive privado Philip Marlowe avise que “um verdadeiro Gimlet é metade gim e metade suco de limão Rose's, e nada mais.”
Neste sentido, existe um autor que, desde o primeiro parágrafo, deve estar na cabeça de quem está lendo esta matéria. Falo do escritor britânico Ian Fleming, o criador de 007. Por meio de seu icônico personagem, ele popularizou o Martini feito com vodca e também uma versão batida e não mexida do drink — o que, na minha opinião, é uma aberração. Mais do que isso, Fleming também criou um clássico da coquetelaria, o Vesper — feito de gim, vodca e Lillet. De acordo com o escritor, esse coquetel também deve ser batido. Discordo: ele é muito melhor mexido.
Agora, não tem como falar de álcool e literatura sem passar por Ernest Hemingway. Vamos nos deter um pouco mais no currículo etílico dele.
O autor de O Velho e o Mar, O Sol Também se Levanta, Por Quem os Sinos Dobram e outros clássicos era reconhecidamente um apaixonado por drinks e frequentador contumaz de bares ao redor do mundo. Fatos e lendas se misturam quando lançamos um olhar sobre as experiências e andanças etílicas do autor.
Primeiro, vamos até Cuba. No país, a relação de Hemingway com bares icônicos é contada a partir de fatos e boatos. A história conta — com todas as ressalvas possíveis quando tais histórias envolvem Hemingway — que o El Floridita era o bar diário do escritor nas décadas de 1930 e 1940. Teria sido por lá que, ao pedir um daiquiri sem açúcar e com o dobro de rum, ele teria visto nascer o Papa Doble e que mais tarde se transformaria em um Hemingway Daiquiri.
Em La Bodeguita del Medio, as interações do escritor com o lugar são salpicadas de exageros. O bar exibe um bilhete emoldurado atribuído ao autor que diz: "My mojito in La Bodeguita, my daiquiri in El Floridita." No entanto, biógrafos do autor já provaram que o bilhete é uma falsificação dos anos 1950 para atrair o turismo.
Paris foi outro destino etílico de Hemingway. Em sua fase como correspondente de guerra, ele frequentou o bar do Hotel Ritz. Em uma troca de correspondências com um amigo escritor, ele escreveu: "When I dream of afterlife in heaven, the action always takes place in the Paris Ritz."
Na mesma Paris, Hemingway frequentou o Harry’s Bar, o Les Deux Magots e o Café de Flore. Já na Itália, ele também tinha o seu próprio Harry’s Bar, em Veneza. Na Espanha, Madri e Barcelona estão repletas de bares que utilizam a fama do suposto cliente como chamariz para turistas.
A lista de escritores e suas bebidas favoritas é interminável. Mas, talvez, como um último gole desta conversa, seria interessante citar Oscar Wilde, um dos grandes entusiastas do absinto. Apesar de grande fã da “fada verde” (apelido do absinto), uma das frases mais divertidas atribuídas ao autor fala sobre champanhe: "Só as pessoas sem imaginação não conseguem encontrar um motivo para beber champanhe."














