Sabe aquela sensação de chegar tarde em uma festa? Todo mundo já está enturmado, as conversas rolando com naturalidade... O atrasado, claro, fica meio deslocado, tentando encontrar seu próprio caminho em uma festa que já começou.
Esse é um pouco do meu sentimento em relação aos vermutes. O consumo pungente deste aperitivo já é uma realidade em países como Itália, Espanha e França e entre nossos hermanos argentinos e uruguaios.
O vermute, um vinho fortificado e aromatizado através da maceração de ervas, flores, especiarias e cascas de frutas, é um importante insumo para a cultura da coquetelaria e desempenha um papel fundamental em coquetéis clássicos, como o negroni, manhattan e dry martini.
Nos países em que o consumo do vermute é mais difundido, o consumo do vermute pelo vermute (fora do contexto do drink) também é um sucesso. Ou seja, ele é consumido puro, com uma pedrinha de gelo, com água com gás ou tônica, acompanhado por azeitonas e por aí vai...
Além disso, por seu baixo teor alcoólico, os vermutes também estão conectados com o movimento de consumo responsável do álcool.
No Brasil, um grande passo para recuperar o tempo (o mercado, a diversão, a experiência...) foi a realização de uma edição do Sur Vermut, o maior encontro de produtores de vermute da América Latina. “O vermute vive um hype global. Sentimos que o potencial do mercado brasileiro é enorme e que, embora tenha crescido nos últimos anos, esse crescimento aconteceu principalmente graças à coquetelaria. Por isso, nos pareceu muito acertado trazer para o Brasil este evento, que apresentou o vermute de uma maneira mais pura e simples, levando toda a sua cultura e beleza diretamente a um consumidor que talvez hoje ainda não o escolha como uma bebida para ser consumida pura,” disse Alvaro Aniano, sócio do Vermut Flores.
“Tive um choque quando participei de um evento no Uruguai e percebi o tanto de vermutes que saíam nas mesas. Eram garrafas e mais garrafas compartilhadas. Ainda estamos distante desta realidade, mas vamos trabalhar para mostrar que o vermute é uma bebida democrática, que pode ser consumida em dias frios, dias quentes, em rodas de samba ou em jantares sofisticados,” disse Caio Bologna, da destilaria San Basile.
Na América Latina, a cultura do vermute avança e já permite interpretações de estilos (como tinto, dry, bianco, rosé e quinado) com ingredientes locais. Ervas, flores, cascas, especiarias, frutas e outros botânicos naturais das regiões em que são elaborados os vermutes entram nas receitas autorais - e reafirmam a identidade de cada país e de cada produtor. Além disso, os vinhos utilizados como base deixaram de ser genéricos de segunda linha e passaram a ser expressões importantes de cada nação, como o Tannat e o Albariño, no Uruguai, o Malbec e o Torrontés, na Argentina.
“Isso é o que mais me fascina. São tantas variedades, tantos vermutes interessantes para experimentar – como um vermute peruano que tem como base um vinho de uva pisquera (usada na produção do pisco). A cultura vermuteira da América Latina precisa ser mais reconhecida,” disse Renato Chiapetta, criador da San Basile Destilaria, co-produtora de Sur Vermut no Brasil.
Em São Paulo, Pinheiros é o bairro com mais opções para mergulhar no universo de vermutes. O Trinca Bar, por exemplo, produz o próprio vermute, assim como o Castelo Oculto.
No Rio, os vermutes recebem tratamento VIP no Bar Tero, em Botafogo, mas é a horas dalí, em Paraty que fica um dos endereços pioneiros na produção de vermute artesanal do País: a La Finca Vermuteria serve na torneira, como chopp, vermutes de pacová e folhas de pitanga.
Chegamos atrasados na festa, mas, felizmente, chegamos.















