
In vino veritas. O que aprendi ao degustar os melhores vinhos
Às cegas, até vinhos consagrados podem fracassar. Entre constrangimentos e revelações, a taça não mente
Em maio de 1976, um comerciante inglês de vinhos chamado Steven Spurrier organizou em Paris uma degustação às cegas que mudou para sempre o mundo do vinho. Cabernets e Chardonnays californianos, então considerados curiosidades provincianas, foram colocados lado a lado com os maiores nomes de Bordeaux e Borgonha. O júri era francês e conceituado. O resultado foi um escândalo: os americanos venceram. O episódio entrou para a história como o Julgamento de Paris e a lição que ele deixou nunca envelheceu.
Aprendi isso na prática. Em 2006, participei de uma degustação às cegas de grandes Bordeaux da safra 1995, seis garrafas, todas Premier Grand Cru ou Cru Classé, produzidas entre 200 e 300 mil garrafas por ano. O último colocado, por unanimidade, foi o Château Margaux. O campeão foi o único que não era Premier da mesa: o Côs d’Estournel. A barbada não existiu. Sem rótulo à vista, éramos dez pessoas livres para julgar.
Um ano depois, repeti o exercício com um grupo de amigos, desta vez com Cabernets Sauvignon de quatro continentes. O favorito unânime antes de começar era o Ornellaia 1999, supertoscano de fama global. Terminou nas últimas posições, jovem demais, desequilibrado, os taninos ainda ásperos. O ouro foi para o Almaviva 2001, chileno de alma bordalesa, que derrotou o Opus One californiano e os europeus com elegância. A Argentina levou a prata com o Catena Zapata Estiba Reservada 2002, por menos de R$ 200,00 a garrafa à época.
Em março deste ano, o Côs d’Estournel voltou à mesa. Desta vez numa vertical: o mítico 1990, o 1995 que havia vencido quase 20 anos atrás, o da safra escaldante de 2003 e o reluzente 2005. Éramos dez novamente, os palatos estavam mais treinados e não houve unanimidade. Muito pelo contrário, o placar foi decidido por uma casca de uva. O 2005 levou. O meu escolhido foi o de 2003. Cada um de nós saiu da mesa com o seu campeão.
A moral dessas histórias e do próprio Julgamento de Paris é sempre a mesma: o rótulo assusta. Quando ele some, o paladar fala mais alto do que a reputação, o preço ou a nota de qualquer crítico. Não há exercício de maior humildade para um apaixonado por vinho do que esse. E não há aprendizado mais honesto.
Se você ainda não experimentou, reúna alguns amigos neste fim de semana, cubra as garrafas e descubra o que realmente pensa. Pode ser revelador, ou constrangedor. Quase sempre, as duas coisas ao mesmo tempo.
Luiz Gastão Bolonhez é especialista em vinhos. Compartilha suas experiências no Instagram e é curador de vinhos nos leilões da Blombô.


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