Como a música se tornou uma forma de resistência silenciosa

Como a música se tornou uma forma de resistência silenciosa

Ao longo da história, o ato de ouvir música foi mudando com o tempo

Esse texto será inevitavelmente biográfico, porque talvez as gerações que vierem depois da minha tenham dificuldade de imaginar como começou essa experiência tão íntima e revolucionária de ouvir música sozinho pelas ruas sem incomodar ninguém ao redor. Hoje parece banal colocar um fone no ouvido e acessar instantaneamente milhões de canções, mas houve um tempo em que tudo isso era quase ficção científica.

No meu caso, essa descoberta começou de maneira muito simples: pegando emprestado aquilo que na época chamávamos de “egoísta”, um pequeno fone mono, de um lado só, que meu pai usava enquanto ouvia futebol no radinho de pilha. Ele me emprestava ocasionalmente quando não estava acompanhando os jogos, e aquilo já me parecia mágico. Existia algo profundamente fascinante em carregar uma trilha sonora particular dentro da cabeça enquanto o mundo seguia normalmente ao redor.

Mas a verdadeira revolução aconteceu em 1979, quando uma tia voltou do Japão trazendo um objeto que mudaria para sempre a relação de muita gente com a música: uma caixa de metal no formato de um maço de cigarro que sintonizava as estações de rádio locais. Talvez eu jamais consiga dimensionar exatamente a emoção que senti ao ouvir, pela primeira vez, um som estéreo entrando simultaneamente nos dois ouvidos. Era quase como descobrir uma nova dimensão da audição. A música deixava de vir “de fora” e passava a acontecer dentro de você. Claro que, dependendo do elevador, da rua ou até do movimento do corpo, as emissoras desapareciam no ar e davam lugar a um chiado ensurdecedor. Mesmo assim, nada diminuía o encantamento daquela experiência futurista de caminhar ouvindo música sozinho pelas ruas.

Pouco tempo depois chegou às minhas mãos outro tesouro tecnológico: um walkman amarelo com entrada para fita cassete que (pasmem!) trocava de lado automaticamente. Sim, hoje pode parecer engraçado explicar isso, mas era um luxo absoluto. Um símbolo de sofisticação juvenil. Dava inveja nos colegas da escola e transformava qualquer viagem de ônibus ou tarde solitária em algo cinematográfico.

E havia também todo o ritual que cercava gravar suas próprias coletâneas esperando a música tocar inteira no rádio. Rebobinar com caneta Bic para economizar pilha. Escolher cuidadosamente a ordem das canções. Decorar capas. Emprestar fitas para amigos. A relação com a música exigia tempo, paciência e afeto. Talvez justamente por isso cada disco acabasse ocupando um lugar tão definitivo na memória.

Foi preciso esperar quase vinte anos para surgir outra mudança radical. Em 1998, lá na Coreia do Sul, apareceu o MPMan, considerado um dos primeiros tocadores de MP3 do mundo. O aparelho armazenava apenas seis ou oito músicas por causa da memória limitada, mas já parecia um vislumbre do futuro. A ideia de carregar várias faixas sem precisar de fitas ou CDs parecia inacreditável.

Mas foi a Apple quem compreendeu de maneira definitiva o tamanho daquela revolução. Em 2001 surgia o iPod. E eu tive praticamente todos: Classic, Shuffle, Mini, Nano… cada um com suas cores sedutoras, seus formatos elegantes e embalagens que pareciam joias tecnológicas. Havia prazer até em abrir a caixa.

Mais que aparelhos, os iPods mudaram completamente nossa relação emocional com a música. Era delicioso criar playlists, nomear coletâneas, organizar artistas, descobrir lados B e carregar centenas de álbuns no bolso. E talvez o mais importante: nossas escolhas ainda pertenciam a nós. Não existia algoritmo sugerindo compulsivamente o que ouvir, nem a ansiedade de transformar gosto musical em performance pública ou engajamento.

Naquele período também floresceu a era quase ingênua da pirataria digital. Programas como Napster e Soulseek criaram uma geração inteira de caçadores de raridades musicais. Passávamos noites baixando discografias inteiras, torcendo para que a conexão não caísse nos 98%. Existia algo de comunitário e apaixonado naquela troca desordenada de arquivos. Pela primeira vez, qualquer pessoa curiosa podia atravessar fronteiras musicais sem depender da programação das rádios ou do estoque limitado das lojas.

Até que um dia, em Nova York, alguns amigos ligados à tecnologia começaram a repetir para mim uma palavra que prometia revolucionar tudo outra vez: Spotify.

A ideia parecia perfeita. Tudo aquilo que fazíamos manualmente passaria a ser automatizado. O streaming nos entregaria instantaneamente qualquer artista, qualquer disco, qualquer gênero em qualquer lugar do planeta. Além disso, a plataforma prometia nos apresentar músicos que talvez jamais descobriríamos sozinhos. E de fato cumpriu parte dessa promessa.

Mas toda revolução cobra um preço.

A facilidade extrema também transformou nossa relação afetiva com a música. Aos poucos, ouvir discos inteiros virou exceção. O algoritmo passou a decidir humores, tendências, relevâncias e até memórias. Muitos artistas deixaram de criar obras para construir apenas faixas que sobrevivessem a poucos segundos de atenção. O consumo se tornou acelerado, fragmentado e ansioso.

Talvez por isso seja tão curioso observar o movimento atual de tantos jovens que nasceram totalmente imersos no universo digital começarem a olhar para trás. De repente, toca-discos, fitas cassete, gravadores e aparelhos considerados ultrapassados voltaram a despertar desejo. Discos recém-lançados passaram novamente a sair em vinil. Passar horas em sebos de discos virou grande prazer. E uma geração criada no excesso da velocidade parece agora procurar justamente o contrário: pausa, ritual, permanência.

Existe algo profundamente simbólico nisso.

Talvez colocar um disco para tocar, virar um lado da fita ou simplesmente ouvir música sem olhar para uma tela seja hoje uma forma silenciosa de resistência. Um pequeno resgate da concentração, da presença e até da liberdade emocional diante de um mercado cada vez mais agressivo na disputa pela nossa atenção.

Porque ouvir música já foi um acontecimento. Exigia escolha, espera e entrega. E talvez seja exatamente isso que muita gente esteja tentando reencontrar agora.

Daqui, sigo torcendo para que essa nova geração descubra que a melhor tecnologia musical nem sempre é a mais moderna. Às vezes, é apenas aquela que nos devolve o prazer de escutar de verdade.

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