Se essa é a primeira vez que você escuta falar de Gimlet, vamos contextualizar.
O Gimlet nasceu no século XIX por uma necessidade médica e militar: combater o escorbuto na Marinha Real Britânica. Na época, a falta de vitamina C estava matando os marinheiros em longas viagens. A história conta que a situação foi revertida por um médico que entendeu que as frutas cítricas preveniam a doença.
Como o suco fresco estragava rapidamente, a saída para conservá-lo foi a criação de um processo de preservação do suco com açúcar. Os oficiais da marinha misturavam gin com esse xarope de limão para tornar o remédio mais palatável.
Esse processo de conservação foi patenteado e se transformou no Rose’s Lime Juice Cordial – comercializado na década de 1870 como uma “bebida deliciosa e agradável em todas as estações quando combinada com destilados”.

Felizmente, não estamos mais em alto-mar e nem passando por uma crise de escorbuto e o coquetel que hoje conhecemos como Gimlet é feito com suco fresco (de preferência, espremido na hora). Em sua versão mais atual, leva gin, suco de limão fresco e xarope de açúcar.
E por que você ainda vai experimentar e gostar do Gimlet? Se você gosta de Fitzgerald, esse coquetel tem perfil de sabor parecido, mas com alterações sensíveis. O Gimlet é um coquetel sem gelo na taça, mais seco, menos doce e bem equilibrado, mas não é um desvio muito radical em termos sensoriais.

O Gimlet é um drink ideal para recriações porque aceita bem a substituição do suco de limão por outras frutas frescas. Vários bartenders já estão criando coquetéis autorais usando o Gimlet como base.
“O Gimlet é um dos coquetéis clássicos mais elegantes e difíceis de se executar. A simplicidade da receita requer um controle melhor das técnicas e dos ingredientes. Um Gimlet bem-feito é o sinal de um bartender bem treinado e preocupado com a qualidade do que serve,” diz Ryu Komorita, do O Provador Bar.

Mia Rossi, à frente da coquetelaria do Shiro e Caffè Anacord, acredita que o Gimlet tem potencial para ser o próximo coquetel a ser descoberto por aqui. “Durante muito tempo, quando falávamos de clássicos no Brasil, alguns coquetéis acabavam dominando muito mais a conversa. Hoje, vejo um público mais interessado em drinques mais secos, frescos e menos doces, e isso naturalmente abre espaço para o Gimlet,” diz.

Komorita também enxerga potencial no drink, mas faz ponderações sobre sua execução nos bares: “O Gimlet ainda é um coquetel pouco explorado no Brasil. Acredito que muitos sintam dificuldade de preparar um Gimlet por seguirem à risca as receitas tradicionais, que levam um cordial de limão, ingrediente que remonta a uma época em que insumos frescos, principalmente frutas, eram uma dificuldade na realidade dos bares. Hoje, não há a necessidade de se prender ao uso do cordial pela facilidade de conseguir o insumo fresco. Quem se prende muito a essas particularidades históricas não entende a evolução da coquetelaria ou as particularidades do próprio coquetel”.














