Chamar o Brasil de “país do azeite” seria um tanto exagerado, mas é perfeitamente aceitável reconhecer que estamos no caminho certo para ocupar a mesma mesa dos maiores produtores de azeites superpremium do mundo.
O azeite brasileiro vem destacando-se nas premiações internacionais na temporada de 2026, batendo potências tradicionais do setor.
Recentemente, o azeite extravirgem da fazenda Estância das Oliveiras, em Viamão, no Rio Grande do Sul, atingiu a pontuação máxima de 100/100 em um concurso internacional em Genebra, superando os concorrentes europeus.
O prestigiado guia Flos Olei também chancelou o avanço do país no segmento. Nele, o Azeite Sabiá (RS) conquistou a nota histórica de 98 pontos de 100, consolidando-se no topo da olivicultura das Américas. A Prosperato (RS) seguiu logo atrás, com expressivos 97 pontos.
Outras marcas também estão se dando muito bem nas mais diversas premiações. Mas, como elencar todas elas demandaria muitos parágrafos (e ninguém aqui quer ver o azeite virando vinagre), basta entender que, no EVOO World Ranking (um ranking estilo ATP de tênis que compila o resultado das principais premiações ao redor do mundo durante todo o calendário), o Brasil está disputando palmo a palmo (oliveira a oliveira) o 5º lugar com Portugal (ficando Itália, Espanha, Turquia e Grécia nas primeiras quatro posições).

A consequência do reconhecimento internacional é um aumento na nossa produção – que alcançou 1,434 milhão de litros em 2026, o maior volume já registrado no País, segundo dados do Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva).
A produção nacional está concentrada no Rio Grande do Sul e na região da Serra da Mantiqueira. Apesar do grande potencial, a produção nacional representa menos de 1% do total do azeite de oliva extravirgem consumido no País – e atende, principalmente, à demanda dos restaurantes de alta gastronomia e do cliente de alta renda (via empórios especializados e e-commerce).
O azeite extravirgem brasileiro premiado tem um preço médio de R$ 300. O faturamento estimado para o setor produtivo de azeites extravirgens no Brasil em 2026 é de aproximadamente R$ 350 a R$ 430 milhões.
Produtores de marcas premiadas como a Estância das Oliveiras (Rafael Goelzer) e Prosperato (Rafael Marchetti) apontam o frescor do produto e o nosso terroir como fundamentais para o sucesso do azeite brasileiro. Basicamente, Goelzer e Marchetti seguiram a mesma linha de argumentação.
Diferentemente do vinho, a qualidade do azeite está intrinsecamente ligada à sua juventude. O azeite brasileiro de qualidade (e premiado) é envasado e consumido no mesmo ano da colheita - ou mantém uma janela de consumo que não ultrapassa os dois anos.
Em relação ao terroir, a combinação da qualidade do nosso solo com uma amplitude térmica agressiva gera azeitonas com alta concentração de polifenóis, os antioxidantes naturais – o que resulta em um produto saudável, equilibrado e com notas marcantes de picância e amargor, que são pilares de um azeite premium.
Além disso, boa parte dos produtores brasileiros possui lagar próprio com tecnologia de ponta (lagar é a instalação onde as azeitonas são processadas para a extração do azeite de oliva).
Assim, a azeitona é processada de forma imediata, evitando qualquer processo de oxidação ou fermentação do produto. Outro ponto fundamental é o foco na escala artesanal – o que permite uma seleção melhor das azeitonas e a criação de blends mais sofisticados.

Para Bob Costa, fundador e proprietário do Azeite Sabiá, “produzir um azeite excelente logo após a safra é relativamente mais fácil,” mas o verdadeiro desafio seria fazer com que esse azeite continue fresco por mais tempo. “Essa estabilidade é consequência direta da qualidade do processo produtivo. Pequenos resíduos da fruta, falhas na extração, no armazenamento ou no envase podem comprometer a evolução do azeite ao longo do tempo. Por isso, a verdadeira qualidade de um azeite só pode ser plenamente confirmada depois de alguns meses. Quando ele continua fresco, equilibrado e sem defeitos, significa que todo o processo foi conduzido corretamente desde o pomar até a garrafa,” disse.
Jéster Macedo, proprietário da Quinta do Vienzo, marca que conquistou reconhecimento no Mediterranean International Olive Oil Competition (TerraOlivo iOOC), um dos mais prestigiados concursos de azeites de oliva extravirgem do mundo, diz que o segredo dos grandes azeites está guardado nos detalhes: "Acreditamos que grandes azeites são resultado de atenção aos detalhes. O cuidado permanente com os olivais e a agilidade entre a colheita e a extração permitem que a azeitona mantenha sua máxima expressão, preservando aromas, sabores e a riqueza sensorial que fazem a diferença em um azeite extravirgem de alto padrão".
Não é raro encontrar restaurantes de alta gastronomia investindo em suas próprias marcas de azeite. Esse é o caso do italiano Nino Cucina – que deixou de ser apenas um comprador de azeites para se tornar coautor e promotor do azeite nacional superpremium.
O Azeite Potenza Olival Nino, produzido na Fazenda Serra dos Tapes, foi reconhecido, em 2025, com o prêmio Mario Solinas, organizado pelo Conselho Oleícola Internacional.
“O Olival Nino nasceu da vontade de oferecer um azeite exclusivo para os nossos clientes, com a mesma qualidade dos nossos pratos. Encontramos na Fazenda Serra dos Tapes um parceiro que compartilha do mesmo compromisso com a excelência. O reconhecimento no Mario Solinas reforça o valor dessa parceria e demonstra como investir na origem dos ingredientes agrega valor à experiência que oferecemos nos restaurantes,” disse Pedro Silveira, CEO do Grupo Alife Nino.
O mercado de azeites é tão promissor que até marcas famosas em outras áreas estão investindo no setor. A Orfeu, marca de cafés especiais, lançou em 2020 uma linha de azeites premium.
O Blend da Safra 2026 é uma edição limitada com apenas 2.700 garrafas numeradas à mão, elaborado com as variedades Picual, Coratina e Grappolo vindas de oliveiras cultivadas em terroir privilegiado da Fazenda Rainha, de solo vulcânico e a mais de 1.250 metros de altitude (entre a Mogiana Paulista e o Sul de Minas). Mesmo antes de chegar ao mercado nacional, o Blend da Safra 2026 já conquistou notoriedade no circuito internacional com medalhas de ouro no EVO IOOC, da Itália, Anatolian IOOC, da Turquia, e Terra Olivo IOOC, de Israel.

Apesar de o Brasil ainda importar cerca de 100 milhões de litros de azeite por ano, ninguém duvida que o azeite nacional tem um futuro promissor. A expectativa do mercado é que nossa produção bata recordes ano após ano, que o consumidor internacional descubra a qualidade do nosso produto e que, internamente, ele fure a bolha da alta gastronomia (e da alta renda), alcançando cada vez mais consumidores. Um dia, não muito distante, chamar o Brasil de “País do Azeite” não será nenhum exagero.















