Passista, modelo ou jogadora de basquete? Presidente

Passista, modelo ou jogadora de basquete? Presidente

Considerada "exótica demais" para ser modelo, nas palavras da própria Luana Génot, ela não se contentou em ter suas escolhas de carreira limitadas. Hoje, presidente do Instituto Identidades do Brasil, ajuda grandes empresas como Unilever e a agência Wieden+Kennedy a se educarem em letramento racial

Carioca da Penha, Luana Génot se tornou um dos principais nomes no Brasil e no mundo na luta contra o racismo estrutural. Considerada uma das maiores líderes na transformação social por meio da igualdade racial e da educação, sua atuação também passa por temas como oportunidades econômicas mais justas, ações climáticas, saúde mental e tecnologia com seu Instituto Identidades do Brasil, responsável por ações e campanhas junto a grandes empresas e ao Governo Federal, onde Luana atua como conselheira de desenvolvimento econômico e social. 

Formada em publicidade e marketing na PUC-Rio, com mestrado em relações étnico-raciais e especialização em raça e estudo de mídias, a autora e consultora celebra os dez anos do Instituto (onde ocupa a cadeira de presidente e diretora executiva) com a 9ª edição do Prêmio Sim à Igualdade Racial — iniciativa que reconhece personalidades, empresas e organizações que atuam na promoção da equidade racial no País.

Criada pela mãe e pela avó, Luana teve os exemplos de respeito, troca e resiliência dentro de casa, aprendendo desde cedo que a vida teria muito mais “não” que “sim”. No colégio, sofreu preconceito e, mais tarde, na carreira como modelo, também passou por situações semelhantes: “A Luana de 18 anos tinha um 'cardápio' de sonhos e de possibilidades muito limitado. Ou eu ia trabalhar num hospital, como fez minha mãe, ou eu ia ser militar, como meu pai, hoje aposentado. Além dessas, como mulher negra, poderia ter três opções que me eram apresentadas: passista, modelo — pela minha altura — ou jogadora de basquete. Fui escolhendo por exclusão mesmo. Tentei a moda e fui considerada muito 'exótica', palavra que odeio. A possibilidade de sonhar e ser CEO do Instituto Identidades do Brasil, organização que eu mesma fundei, nunca passou pela minha cabeça,” diz.

Logo ela observou que, embora várias sociedades se dissessem abertas à diversidade, na prática a história era outra. E a solução está em cada um, mas muito fundamentada nas oportunidades do mercado de trabalho e principalmente na educação (seja no letramento junto às empresas e às instituições, seja na própria educação básica para uma sociedade antirracista, baseada em diversidade, equidade e inclusão). 

É aí que o Instituto vem atuando desde 2016, fruto de um trabalho de conclusão de curso em comunicação que segue três pilares: empregabilidade, educação e engajamento. “Sempre fui interessada em entender como as questões étnico-raciais se davam no Brasil e no mundo. Queremos levar uma educação antirracista para o mercado de trabalho, formatando populações afirmativas para que mais pessoas negras e indígenas, por exemplo, possam estar nestes espaços. Para que as empresas possam se comunicar melhor com os diversos públicos, especialmente estas populações,” diz.

Com as empresas, Luana e o Instituto já atuaram com gigantes como Carrefour, Disney e L’Oréal, encabeçando campanhas e ações com o objetivo de trazer um maior letramento e impacto para que todas as identidades possam ser fortalecidas em um mercado que ainda é pouco colorido, como ela mesma diz: “O mundo corporativo ainda é muito cinzento e também muito voltado ao masculino. Essa hierarquia de cores e gênero sempre me incomodou, até porque, no fim, a gente sabe qual é a cara do CEO e sabe qual é a cara da tia que está servindo café, de quem a gente nem sabe o nome, mas que trabalha ali há 20, 30 anos recebendo um salário mínimo”.

Neste cenário, é inevitável pensar também nos reflexos das pressões políticas nos Estados Unidos, um grande termômetro do mercado mundial, pela redução das Políticas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) por parte de empresas gigantes, caso da Meta, Amazon, do McDonald's e da própria Disney. Mas Luana reforça uma visão otimista e descentralizada além dos Estados Unidos: “É importante olhar para além [dos Estados Unidos]. De fato, houve uma expansão global desta agenda. Nos últimos dez anos, nunca existiram tantas ações de diversidade e inclusão no mundo. A partir do trabalho desenvolvido no Farol da Diversidade, em parceria com o Fórum Econômico Mundial, essa pauta se fortaleceu globalmente, com empresas da Ásia, América Latina e Europa tratando diversidade como um tema estratégico. Estamos diante de uma mudança de enquadramento da pauta de diversidade e inclusão, não necessariamente de um abandono completo. Vemos empresas que passaram a reorganizar a forma como tratam o tema. O que antes estava ligado à responsabilidade social ganhou força com cadeiras específicas de diversidade e inclusão após o caso George Floyd, em 2020. Depois, passou a ser incorporado às estratégias de ESG e, agora, em muitas empresas, começa a ser distribuído entre diferentes áreas com metas compartilhadas entre marketing, RH, comunicação e projetos sociais, por exemplo. Não podemos generalizar essa percepção, já que muitas empresas continuam, sim, avançando em inclusão e igualdade racial — só que de maneiras menos centralizadas e menos públicas.”

No âmbito da educação, ela vai além da necessidade de uma estrutura física que acolha e prepare os estudantes para o mundo, mas também na ação com professores e gestores para que possam mostrar diferentes possibilidades aos alunos e inspirar a partir de exemplos históricos e reais. A escola como um lugar de acolhimento é o ideal, mas hoje estamos inseridos em um cenário que, na verdade, é de evasão escolar: “Se tenho um aluno negro, indígena, periférico, que já tem todo um arcabouço familiar de pessoas que não necessariamente estão na escola, eu preciso olhar mais intencionalmente para ele e ampliar sua possibilidade de sonhar. O letramento e a educação ajudam na possibilidade de ampliar o leque de opções e sonhos na vida de uma pessoa, papel dos professores e gestores. Eu posso ter uma escola incrível com merenda, com infra-estrutura, mas muitas vezes os professores não necessariamente têm um repertório para reforçar a questão da igualdade racial. E quando falo de uma sala de aula com mais igualdade e oportunidades a partir de um olhar mais intencional, estou falando também de uma sala de aula com melhor clima, com melhor índice de saúde mental para professores e para alunos,” diz.

Nesses dez anos de Instituto, Luana e seu time de mais de 40 colaboradores já tiveram mais de 700 mil pessoas treinadas em empresas, mais de 60 mil educadores preparados e mais de 14 milhões de pessoas alcançadas com as campanhas e iniciativas. Mas Luana quer ir mais longe: tem a meta de atingir 100 milhões de pessoas até 2030 — um número factível, com apoio de novas ferramentas, tecnologias e inteligência artificial (ela, inclusive, lançou recentemente a @chamaadeb, ferramenta de IA que permite conversas anônimas para empresas sobre questões raciais). “Minha ambição é chegar a todo o Brasil, a toda a América Latina e a todo o mundo. Com a inteligência artificial, podemos dar ferramentas a todo professor da escola pública para que ele possa ter um canal seguro para falar sobre questões raciais, questões de gênero e aplicar isso nos seus planos de aula. Essa meta é possível porque a gente está usando a nossa inteligência humana com a inteligência artificial para criar escala neste processo”.

E sobre a questão do racismo estrutural, Luana lembra que, muitas vezes, as pessoas pensam que o racismo mora em alguém mau, que é uma causa dos negros ou dos indígenas, por exemplo. Mas ela diz que a questão faz parte da sociedade, e que, ao mesmo tempo, cada um pode fazer sua parte nesta mudança. “Quando entendemos que somos parte do problema, entendemos que também somos parte da solução. Nelson Mandela dizia que se as pessoas são ensinadas a odiar, elas também podem ser ensinadas a amar. E a gente acredita que o racismo estrutural é um problema que tem solução — só precisamos de vontade pública coletiva, sincronizada, e de recursos. É necessário reforçar essa mobilização para enxergar o quanto essa questão tem impedido os avanços e o desenvolvimento econômico dos países. O que o Instituto está fazendo não é só sobre os negros e os indígenas,é sobre uma sociedade que precisa distribuir melhor as suas oportunidades para avançar também economicamente. Falamos sobre justiça climática, direito das mulheres, democracia... e é por isso que eu preciso falar sobre igualdade racial, porque eu preciso olhar quem está tendo acesso e quem não está tendo acesso a tudo isso.”

Uma das maiores iniciativas para dar visibilidade à causa é justamente o Prêmio Sim à Igualdade Racial, que chega à sua 9ª edição com o tema Surrealismo Afro-Indígena Brasiliano. Desta vez, além da participação de nomes como Péricles, AJuliaCosta, Melly, Duquesa e Kaê Guajajara, a noite contará com representantes de embaixadas de países como Suíça, França e Guatemala, que vêm ao Brasil para ver como estamos pautando e enfrentando as questões de inclusão e do racismo. “Será um convite para as pessoas sonharem e expandirem seus horizontes de possibilidades. Eu mesma sempre sonhei com um prêmio que fosse muito mais do que um evento, mas uma plataforma que provoca as conversas ao longo do ano. E por isso também queremos que trechos do prêmio sejam reproduzidos nas escolas, com conteúdos que os professores possam usar no seu dia a dia,” diz Luana. A celebração está marcada para o dia 13.05, mesma data em que a Lei Áurea foi assinada, há 138 anos — um marco não reparatório à época e uma lembrança constante, até os dias atuais, de que, como sociedade, ainda temos um caminho a percorrer na busca por maior equidade racial, de gênero e das minorias.

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