Marilyn Monroe com 100 anos? Impossível imaginar. A longevidade em nada combina com o perfil de quem viveu intensamente, morreu jovem e deixou para a eternidade uma imagem de alegria, joie de vivre, simpatia, bom humor e sensualidade — ainda que tudo isso viesse revestido por uma aura trágica e fatal.
Mas quem falou em morte? O que ocorreu na manhã do dia 5 de agosto de 1962 quando o psiquiatra Ralph Greenson, chamado de emergência pela governanta, entrou no quarto da atriz e a encontrou já sem vida, não era o encerramento de uma trajetória fugaz e fulgurante, mas o surgimento — e a confirmação imediata — de um mito maior do que tudo, que persiste até os dias de hoje. E, ao que tudo indica, continuará persistindo.
Uma das provas dessa permanência é a mostra Marilyn Monroe: Hollywood Icon, que celebra seu centenário no Academy Museum of Motion Pictures, em Los Angeles. Com duração prevista de nove meses, a exposição está à altura da grandeza da personagem, revelando aos fãs centenas de objetos originais, aí incluídos fotografias, documentos, cartas, roupas (como o vestido de cetim rosa usado em Os Homens Preferem as Loiras) e materiais pessoais raramente ou nunca exibidos.

A mostra acontece na cidade onde Marilyn (de batismo Norma Jeane Mortenson) nasceu em 1º de junho de 1926. Pai desconhecido, mãe que a abandonou ainda na infância, a menina foi criada entre lares adotivos e orfanatos. Hoje, vista à distância, Marilyn pode ser considerada como um fenômeno da persistência – ou, para usar um termo tão caro aos dias atuais, da resiliência — já que, sabe Deus por quais motivos, ela nunca se conformou em seguir no anonimato que seu destino lhe reservava.
Tudo começou a mudar a partir dos 17 anos, quando Norma Jeane, então trabalhando como funcionária numa indústria de aviação durante a II Guerra Mundial, conheceu um fotógrafo da First Motion Picture Unit. Ele fez suas primeiras fotos de divulgação e Marilyn, em busca de oportunidades, pulou de estúdio em estúdio. Foi rejeitada por executivos — profissionais da mesma linha daqueles que disseram que os Beatles não teriam futuro ou de que Fred Astaire não sabia dançar —, sendo que um deles chegou a lhe aconselhar: arranje emprego de secretária ou então arrume um marido.
Marilyn o ignorou e logo conseguiu seus primeiros testes para papéis em filmes de curta-metragem da 20th Century Fox. Isso foi entre 1946-1947. Pouco depois, no ano seguinte, ela já estava na Columbia Pictures. E, a partir daí, não parou mais, sendo que, depois de 1951, ela foi enfileirando sucessos. Apenas pegando o ano de 1953 como exemplo, Marilyn já se firmara como uma das estrelas mais bem-sucedidas de Hollywood, protagonista em três filmes: o noir Torrentes de Paixão, e as comédia Os Homens Preferem as Loiras e Como Agarrar um Milionário.

Tudo nela exalava sex-appeal, tanto a ingenuidade (ou a falsa malícia) quanto a postura de mulher meiga, carente, que parecia necessitar de constante apoio. Na biografia escrita por Norman Mailer em 1973, o repórter a classificou como um “doce anjo do sexo”, quase que sintetizando o que ela própria declarara em uma entrevista: “Sexo é parte da natureza; vou seguir a natureza”.
Passados mais de 60 anos, os motivos de sua morte permanecem um mistério. Assassinato, suicídio ou descontrole com os barbitúricos e soníferos que consumia há muitos anos — mal que atingia igualmente outras estrelas fenomenais como Judy Garland e Carmen Miranda — nada parece ser claro o suficiente para justificar um fim tão trágico e precoce.
Porém, das muitas virtudes ligadas a ela, o mais impressionante — e que a história sempre desprezou esse imenso detalhe — está no fato de Marilyn ser uma mulher de altíssimo bom-humor e com uma inteligência superior. Não era culta, como a Fox tentou mostrar ao dar a ela um lustro intelectual espalhando uma foto dela lendo Ulisses, de James Joyce. Ela não precisava desse aval. Sua inteligência era vivaz, intuitiva e espontânea, muito acima desses truques. E — no caso dessa foto — só quem teria a ganhar era James Joyce.















