Nos últimos anos, vivemos uma expansão de riqueza sem precedentes. Entre 1990 e 2015, mais de 1 bilhão de pessoas deixaram a pobreza extrema. Na outra ponta, o número de bilionários ultrapassou pela primeira vez a marca de três mil pessoas em 2025.
Juntos, eles concentravam US$ 18,3 trilhões — 81% a mais do que em 2020.
Depois da era de conquistas e acúmulo de riqueza, entramos na era das heranças. Nos próximos 20 anos, mais de US$ 84 trilhões deverão passar para as gerações seguintes, sobretudo millennials e geração Z, na maior transferência intergeracional de riqueza da história.
Preparando o herdeiro
Herança não vem com manual de instruções, mas deveria. Quanto mais cedo uma família começa a falar sobre o tema, maiores as chances de que a transferência de patrimônio aconteça de maneira fluida e gradual.
“Os processos mais bem-sucedidos começam quando há tempo. Tempo para ouvir, alinhar expectativas e construir os consensos que servem àquela família, e não a um modelo genérico,” disse Rosiane Pecora, executive vice-chair para América Latina no UBS Global Wealth Management.
Segundo ela, quando o assunto é tratado antes da urgência, a conversa deixa de ser apenas sobre patrimônio e passa a envolver “identidade, cultura e legado”. A preparação também significa dar à próxima geração espaço para aprender antes de assumir responsabilidades maiores.
Nas famílias empresárias, a advogada Renata Guimarães defende que os jovens podem se aproximar do negócio por volta dos 18 anos, para entender como ele funciona e, no futuro, escolher seu papel.
Daniela Rogatis, educadora e CEO da Global Legacy Programme, faz uma distinção importante: herdar e suceder são coisas diferentes. “Ao receber uma herança, posso fazer o que quiser com ela. Mas quando falamos sobre processo sucessório, falamos de pessoas que precisam entender seu papel como guardiões de um patrimônio, guardiões de um legado, guardiões de um capital.”
Para Marcello Chilov, o chefe de Global Wealth Management do UBS na América Latina, não existe herdeiro desinteressado. O que existe é diferença de preparo e de diálogo dentro das famílias.
“Isso causa mais impacto do que ter um herdeiro que fez MBA e outro que não fez,” disse Chilov.
A mudança de postura também aparece na orientação aos clientes do banco. “Antigamente, ao se falar de sucessão, era ‘tirem os jovens da sala’. Agora é ‘tragam os jovens para a sala’. Porque eles têm que participar — e todos eles têm interesse e querem saber como podem contribuir.”

O que a nova geração quer
Um relatório do Mardô Family House Integration mostra que 55% dos 200 herdeiros da geração Z entrevistados querem participar do negócio da família — porém com mais liberdade.
O negócio que criou uma fortuna pode não ser o mesmo capaz de preservá-la. “Tecnologias mudam, concorrentes aparecem, setores amadurecem, retornos diminuem,” disse Barcellos.
A família precisa então decidir se vale reinvestir no negócio original ou criar novas plataformas de crescimento. Nesse processo, as novas gerações podem ser, na linguagem financeira, um ativo.
“Se bem preparadas, elas podem ajudar na conexão com os públicos mais jovens, criar novos negócios e multiplicar legado e riqueza,” disse Márcia Dolores, especialista em sucessão e governança de famílias empresárias.
A essência de um legado
Nem tudo o que uma geração transmite cabe em um inventário.
Valores, histórias, educação, arte, propósito e filantropia também fazem parte daquilo que passa de uma geração para outra — embora não apareçam no balanço patrimonial. “O patrimônio é apenas a parte visível da sucessão. O difícil é transferir confiança, responsabilidade e propósito,” disse Pecora.
Para quem construiu a riqueza, existe o desafio de abrir mão de parte do protagonismo. Para quem recebe, o desafio é outro. “Herdar patrimônio é herdar expectativas, histórias familiares e o peso de um legado construído por pais, avós... Por isso, sucessão é sempre uma conversa sobre pessoas.”
Daniela Rogatis resume a diferença em uma frase: “Herança não é legado.” É possível ter dinheiro e não ser rico, diz ela, porque “não se trata apenas de negócios ou investimentos, e sim de legado, que diz respeito ao que fica de uma geração para outra — e isso vai muito além do dinheiro.”
No fim, a grande questão talvez não seja quanto uma geração consegue transferir para a seguinte, mas o que ela faz com o que acumulou.
Famílias podem transformar parte de sua riqueza em educação, ciência, cultura e saúde por meio de doações. “Quando a filantropia vai além da simples doação e passa a ser uma expressão dos valores da família, ela fortalece vínculos, aproxima gerações e se torna parte do legado que será transmitido,” disse Pecora.
Patrimônio pode ser preservado, multiplicado e transmitido.
















