Poucas coisas envelhecem tão rápido quanto um manual de como não parecer velho.
Basta procurar na internet como um homem deve se vestir depois dos 40 anos para descobrir que chegou a hora de aposentar a jaqueta jeans desbotada, o tênis esportivo, a meia estampada, o relógio grande, o perfume de sempre e qualquer roupa que possa sugerir uma tentativa de voltar aos 20.
Em troca, entram sobretudo de lã, cashmere, gola alta e uma pequena coleção de peças adequadas ao inverno europeu. O detalhe de que esse homem talvez more no Rio de Janeiro, em Recife ou numa São Paulo em tempos de super El Niño raramente entra na conta.
O problema dos manuais não é apenas climático. Ao tentar salvar o homem maduro do ridículo, muitos acabam lhe oferecendo outro personagem pronto: discreto, impecável e vestido em tons de marinho, cinza e bege, como se completar 40 anos exigisse transformar o guarda-roupa numa sala de reunião.
Para Oskar Metsavaht, 65 anos, criador e diretor criativo da Osklen, envelhecer bem vestido tem menos a ver com obedecer a esse novo código do que com precisar cada vez menos dele. “Quanto mais você se conhece, menos precisa seguir regras ou provar alguma coisa por meio da roupa,” diz.

Isso não significa que a maturidade conceda licença para sair de casa de qualquer jeito. A flexibilização dos códigos profissionais libertou os homens de certas obrigações, mas criou uma confusão entre conforto e abandono.
O terno é um bom exemplo. Oskar gosta de usá-lo quando a ocasião pede e já produziu alfaiataria na época em que mantinha ateliês em Milão e alfaiate no Rio. O que não funciona, segundo ele, é vestir uma peça criada para organizar a postura como se ela fosse um agasalho encontrado no banco de trás do carro. “Tem coisa mais feia do que os políticos no Congresso vestidos de terno e gravata, porém desleixados?”, provoca. “Se for para usar o terno de uma forma relaxada, aberto, com a gravata balançando, é melhor nem usar.”
Do outro lado está o homem que transformou o fim da obrigatoriedade do paletó em compromisso com a camiseta mais próxima. Ele se declara livre das convenções, mas às vezes parece apenas ter desistido de se vestir antes mesmo de abrir o armário. Entre o executivo que sua dentro de um terno malvestido e o tio que considera regata e bermuda adequadas a qualquer compromisso existe um espaço grande, e arejado, para se vestir bem.
Oskar encontra um exemplo desse equilíbrio nas fotografias do Rio de Janeiro da primeira metade do século passado, quando os homens usavam ternos, em grande parte de linho e cores claras, adaptando ao calor um código que havia chegado de fora. O tecido amassava, como continua amassando, sem perder a elegância. A partir dos anos 1950, a lã fria ampliou as possibilidades da alfaiataria em temperaturas mais altas. Hoje, ele acrescentaria algodão e misturas de linho com seda, viscose ou o próprio algodão. Um sobretudo de cashmere pode resolver o frio em Londres, mas no verão brasileiro, uma camisa de linho bem cortada costuma ter mais utilidade e causa menos sofrimento.
Essa adaptação não exige trocar um “uniforme” estrangeiro por uma cartilha tropical. Camisas de linho podem ser longas e amplas, clássicas, curtas ou mais ajustadas. As calças também admitem diferentes volumes. O mesmo vale para camisetas e polos, desde que a malha tenha qualidade, textura e caimento suficientes para que o básico pareça uma escolha, não a ausência de uma. A idade não proíbe a silhueta larga nem obriga ninguém a viver dentro de um corte slim. O que muda é a necessidade de perceber se a roupa acompanha o corpo ou está sendo usada para escondê-lo, apertá-lo ou devolvê-lo artificialmente a outra década.
Até os shorts, peça que muitos brasileiros reservam ao esporte e à praia, podem circular pela cidade. Oskar prefere modelos de linho ou algodão, com comprimentos e larguras variados, às bermudas de inspiração americana. Com camisa e materiais naturais, eles se aproximam mais da roupa casual de um verão europeu do que do uniforme de quem foi comprar gelo e acabou ficando para o almoço. Nos pés, ele sugere sapatos clássicos sem cadarço, usados sem meias, ou tênis de linhas simples feitos de materiais naturais. Um bom calçado, lembra, tem palmilha e forro de couro, permite a transpiração e pode acompanhar tanto um casamento quanto um passeio pela calçada de Ipanema. O tênis esportivo, por sua vez, continua ótimo para aquilo que o nome anuncia.
Aos 40, o desafio não está apenas do lado de fora do armário. A cintura pode aumentar, os ombros mudam, a postura já não é a mesma e uma peça que funcionava dez anos antes passa a negociar com outro corpo. A resposta mais comum tem oscilado entre roupas apertadas, como prova de que nada mudou, e o oversized usado como esconderijo. Oskar prefere não transformar nenhuma modelagem em regra. Ajustar-se à nova silhueta não significa desistir dela, mas reconhecer proporções, conforto e movimento sem tentar reproduzir no espelho uma fotografia antiga.
Essa relação também mudou com as canetas emagrecedoras. A perda rápida de peso pode obrigar o homem a rever medidas e proporções e, segundo Oskar, abrir espaço para experiências que antes não faziam parte de seu repertório. Ainda assim, um corpo novo não exige uma personalidade nova. “Renovar o armário não significa mudar o seu estilo, porque estilo é resultado da própria cultura”, afirma. O guarda-roupa maduro, para ele, deve resistir às transformações físicas por ser construído com peças versáteis, duráveis e escolhidas com um propósito que sobreviva à oscilação da balança.
Isso pressupõe aceitar que parte do que está pendurado no cabide perdeu a função. Se fosse abrir o guarda-roupa de um amigo com mais de 40 anos, Oskar começaria pelo excesso de consumo ostensivo: logotipos gigantes, fast fashion descartável e marcas usadas apenas como recibo de status. O alvo não é a grife em si, mas a peça comprada para falar antes de quem a veste. “Está sobrando roupa sem alma, comprada por impulso e sem transparência sobre sua origem,” diz. O armário do homem 40+ já não precisa de quantidade, e sim de itens com história, qualidade, rastreabilidade e possibilidade real de uso.
A mesma lógica define onde o dinheiro deve ser gasto. O luxo, nessa idade, não deveria depender apenas do nome costurado na etiqueta, mas de como a peça entra na vida, conversa com o corpo e dura. Oskar recomenda manter uma base de boa qualidade e investir em poucas roupas ou acessórios capazes de marcar uma assinatura pessoal. A originalidade do conceito, o desenho, o conforto, os materiais e a origem pesam mais do que uma tendência passageira. O homem que já acumulou quatro décadas ou mais não precisa comprar tudo de novo a cada estação. Pode, finalmente, aprender a comprar menos sem parecer que está sempre usando a mesma roupa.
Esse princípio ajuda a entender por que não existe um modelo único de elegância brasileira. Ao longo do século 20, o país tropicalizou o estilo inglês, desejou a informalidade esportiva vendida por Hollywood e continuou olhando para a alfaiataria europeia como sinônimo de sofisticação. O resultado foi uma combinação rica, mas nem sempre consciente, de referências importadas. Oskar percebe agora uma tentativa dos designers brasileiros de construir outra síntese, adaptada ao clima, ao ambiente e à maneira de viver daqui, sem transformar regionalismo em fantasia.
Para ele, o homem brasileiro mais bem vestido não é uma celebridade específica nem aquele que acertou todas as peças recomendadas em um reels. É quem consegue passar da praia ao ambiente urbano sem parecer fantasiado para nenhum dos dois, escolhe roupas que respeitam o lugar onde vive e não precisa usar o preço como argumento. “Esse homem não busca aprovação externa nem ostentação”, diz Oskar. “O que faz é escolher peças que respeitam o meio ambiente e traduzem sua verdade com sofisticação e elegância natural.”















