Os encontros incendiários de um brasileiro em NY

Os encontros incendiários de um brasileiro em NY

“Só Depois Entenderei”, de Alexandre Vidal Porto, conta história de um diplomata gay entre a liberação sexual e uma paixão obsessiva

Aos 29 anos, o diplomata brasileiro em Nova York se arrisca pela primeira vez a buscar o prazer com outros homens. “Eu tinha passado a vida inteira num combate vão: desejando e evitando desejar,” recordaria ele, décadas mais tarde. O anonimato da internet facilita essa liberação tardia. 

Estamos nos anos 1990, antes do advento das redes sociais, mas já existem salas de conversa online, nas quais os frequentadores se identificam por apelidos. Em uma sala cujo tema era “Sexo gay em Manhattan”, o brasileiro marca encontro com seis homens. O sexo deixa de ser casual com o sétimo homem, um reputado crítico de arte: ele se tornará uma paixão obsessiva que o diplomata carregará ao longo de muitos anos e através de vários países.

Há dois impedimentos sérios à continuidade dessa relação. O primeiro: o diplomata está prestes a deixar a representação brasileira na ONU para assumir um posto na embaixada brasileira na Colômbia. Mesmo que ele permanecesse em Nova York, seria difícil contornar o segundo obstáculo: seu amante não pretende assumir abertamente um romance gay. Ele é casado com uma mulher, tem dois filhos e um enteado.

Esse amor impossível está no centro de Só Depois Entenderei (compre aqui), quinto romance de Alexandre Vidal Porto – que, como o protagonista do livro, é um diplomata de carreira. Quem narra a história é o personagem brasileiro. Já na maturidade, ele examina a turbulência emocional do passado com o distanciamento de quem já o deixou para trás, mas também com uma irreprimível nota de melancolia.

Amor impossível, explica o narrador no primeiro capítulo, é aquele que “ficou encruado” a despeito de todo o esforço para que a relação desse certo. Quem sobrevive a uma paixão frustrada pode se consolar repetindo que “não era para ser,” mas, adverte o personagem, uma pergunta sem resposta sempre retorna ao pensamento: “Como seria se tivesse sido?”. 

O fim do amor vai dilacerar o protagonista em Bogotá, nos meses depressivos que se seguem à separação. Com o tempo, a fixação amorosa parece arrefecer, sobretudo depois que ele encontra seu marido (o “amor principal,” diz o diplomata: aquele que, embora não tenha sido “o mais intenso de todos,” acaba se tornando o mais forte).

Volta e meia, porém, os antigos amantes se reencontram, e se reacende a atração física irresistível que sentem um pelo outro. O romance não traz descrições do ato sexual em si. Em geral, essas cenas são ao mesmo tempo diretas e sucintas (eis como o diplomata recorda a primeira vez com o crítico de arte: “Dentro do apartamento, no vigésimo quarto andar, nos abraçamos, nos beijamos, gozamos, tomamos banho juntos, conversamos, perdemos a noção do tempo”). Mesmo assim, fica bem estabelecido que os encontros eróticos são incendiários. 

Os dois personagens têm várias afinidades — entre elas, o interesse por arte —, mas o elemento que os une parece ser sobretudo a pulsão sexual, que acabará acorrentando o brasileiro a um homem que não tem a coragem de assumir quem de fato é.

Não é só a homossexualidade que o americano busca ocultar. Ele é um judeu que declaradamente não gosta de ser judeu. Também tem problemas com sua origem relativamente humilde em Newark, Nova Jersey — “cenário das histórias de Philip Roth,” lembra o diplomata (faltaria acrescentar que o autor de A Marca Humana nunca renegou nem sua cidade natal, nem sua condição judaica). 

Há outras pistas de que o diplomata não conhece muito bem o caráter do homem que o faz perder a cabeça. Uma delas é construída por Vidal Porto com extraordinária sutileza: o crítico está na sessão de autógrafos de um livro seu quando um primo distante de Nova Jersey se apresenta, com a obra em mãos. Ele reage com frieza a essa lembrança do passado: “Tomou o livro que o parente trazia, autografou-o, estendeu-lhe o livro assinado, deu um sorriso opaco e desviou o olhar para o próximo da fila”.

O título do romance, Só Depois Entenderei, diz respeito ao lento processo pelo qual o diplomata brasileiro vai percebendo que seu primeiro amor não era apenas impossível, mas enganoso. É interessante observar que, embora o protagonista assuma sua sexualidade logo no início da ação, sua narrativa parece contaminada pelos modos furtivos do amante: o diplomata não dá o nome de nenhum personagem — nem mesmo o seu próprio nome.  

Em Cloro, romance que Vidal Porto lançou em 2018, o personagem central, Constantino, é um homem gay que se esconde no armário de um casamento heterossexual, buscando encontros clandestinos para satisfazer seu verdadeiro desejo. Constantino, porém, conquista a simpatia do leitor — ou, pelo menos, sua piedade. O crítico de arte de Só Depois Entenderei dificilmente suscita as mesmas emoções. Sua dissimulação é insidiosa, manipulativa. Um dos trunfos do livro é permitir que o leitor desconfie disso antes que o diploma acorde para a verdadeira natureza de seu primeiro e impossível amor.  

 

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