Estrelado por Emmy Rossum (de Shameless e de The Audrey Hepburn Story) e criado por Elizabeth Meriwether, a mesma por trás de The Dropout e Dying for Sex, o suspense policial Fúria (no original, Furious, que estreou na Disney+) surpreende por vários aspectos. Mas atenção: não se deixe levar pela má tradução do título, cuja melhor versão seria Furiosa. Evite confundir essa série com a brasileira Fúria, da Netflix, sobre o universo do MMA.
O primeiro aspecto positivo é o fato de a minissérie ser uma inteligente mistura de realidade com ficção. Na ficção, há uma referência direta ao filme O Mistério da Viúva Negra, de 1987, estrelado por Theresa Russell e Debra Winger.
Assim como no longa-metragem, as protagonistas são duas mulheres: Alice Black, uma atormentada agente do FBI, vivida por Emmy, à caça da enigmática, esperta e calculista serial killer, Catherine Grace, interpretada por Lola Petticrew.

Mas há uma diferença fundamental. Na história original, a viúva negra mata por dinheiro. Em Furious, a justificativa é outra: vingança.
Sobrevivente de tráfico sexual e de anos de abuso, Catherine decide matar antigos predadores usando doses letais de fentanil, um poderoso analgésico opioide sintético, cerca de 100 vezes mais forte que a morfina. Pequena e com aparência infantil, ela age com frieza e não se deixa levar por qualquer espécie de remorso ou emoção.
É aí que a série ganha uma dimensão que ultrapassa a própria trama. Catherine representa uma figura cada vez mais presente em histórias de violência e impunidade: a vítima que, diante da ausência de justiça de um sistema, decide fazer justiça com as próprias mãos.
E essa vingança vem acompanhada de um dilema incômodo: até que ponto uma vítima pode ser vista como justiceira quando o sistema que deveria protegê-la falhou? Catherine não recebeu justiça das pessoas nem das instituições. Agora, acredita que precisa fazê-la sozinha.

Do outro lado está Alice, que tem nos crimes uma possibilidade de redenção. Também marcada por uma experiência traumática de violência, ela investiga os crimes enquanto tenta reconstruir a própria vida. Sua história cria outro ponto de tensão da série: a mulher que permanece dentro de uma instituição que, no passado, também falhou com ela.
Elizabeth Meriwether assina o roteiro dos três primeiros episódios da minissérie; os demais foram divididos entre quatro mulheres e um homem. Esse aspecto reforça o olhar feminino sobre os temas – estupro, violência, assassinato – e como esses assuntos são tratados em muitas investigações semelhantes.
O que se sobressai nas descobertas de Alice é que a rede de tráfico sexual parece ser infinita, envolvendo figuras poderosas e influentes que, há anos, abusam de mulheres jovens e crianças com total impunidade.

Na crítica à série da revista The New Yorker, a jornalista Inkoo Kang aponta como os crimes sofridos por Catherine ajudam a explicar por que ela é capaz de ganhar a empatia do público mesmo quando, ao se vingar, injeta fentanil à força em quem lhe infligiu tantas dores. Em uma das cenas, ela lembra que tinha apenas 15 anos quando foi vítima de tráfico de pessoas.
Em uma linha semelhante, Lucy Mangan, do The Guardian, aponta Furious como representante de um novo subgênero de drama televisivo, que classifica como “thriller à la Epstein”. Para ela, antes do escândalo envolvendo Jeffrey Epstein e das revelações sobre a extensão de sua rede, uma história como essa poderia parecer absurda. Agora, é uma realidade: predadores estão cada vez mais próximos.















