Entre jeans desgastados, aventais de artesãos e uniformes industriais, as passarelas vêm olhando para o trabalho.
Na Fendi, modelos circularam por uma fábrica vestindo peças inspiradas no fazer manual.
Na Prada, referências industriais moldaram silhuetas austeras.

Na Miu Miu, aventais domésticos surgiram em versões básicas ou inesperadamente sofisticadas.
Já na Chanel, Mathieu Blazy preencheu o cenário com guindastes coloridos, interessado na ideia de construir um sonho.
Distantes entre si em linguagem, esses momentos, vistos entre as temporadas primavera-verão 2024 e outono-inverno 2026/27, compartilham uma mesma inquietação: a reconfiguração contemporânea da estética ligada à classe trabalhadora.
Não se trata, porém, de um fenômeno inédito. Após a crise financeira de 2008, a desconfiança em relação ao consumo excessivo e à lógica da descartabilidade estimulou o interesse por roupas percebidas como duráveis e conectadas à vida real. Foi nesse contexto que se consolidou o chamado heritage workwear: um revival dos uniformes de trabalho norte-americanos do final do século 19 e início do 20. Jaquetas trucker, peças em lona encerada, gorros de lã, mochilas robustas e botas resistentes passaram a compor produções inteiras, celebrando uma ideia de autenticidade.
O jeans cru era referência importante.
Criada em 1873, quando Levi Strauss e o alfaiate Jacob Davis patentearam a calça reforçada por rebites metálicos, a peça destinava-se originalmente a mineiros, agricultores, ferroviários e operários do Oeste norte-americano. Sua trajetória rumo à cultura popular começou ainda nas décadas de 1930 e 1940, quando passou a representar um ideal de vida ao ar livre e espírito nacionalista.
Foi nos anos 1950 que o denim atravessou definitivamente as fronteiras do vestuário funcional para se tornar um símbolo cultural. No cinema, apareceu no corpo de Marlon Brando, em O Selvagem, e pouco depois ganhou contornos ainda mais míticos com James Dean em Juventude Transviada. Apadrinhado por Hollywood, o jeans virou símbolo de juventude, inconformismo e rebeldia.
O que distingue, então, o momento atual dessa estética? Como toda tendência, ela reaparece transformada pelas urgências do presente. Do trabalho remoto durante a pandemia ao retorno ao escritório, o chamado “efeito uniforme” virou assunto há cerca de três anos, no encalço de Succession, do quiet luxury e da ascensão do conservadorismo em tempos marcados pela instabilidade.
Mais recentemente, o visual oscila entre terno e gravata como em Uma Secretária de Futuro e camisa levemente aberta para um resultado mais despojado. Mescla alfaiataria, sapatos high-vamp, sobreposições e clássicos atualizados convidando à autoexpressão e tendo como conceitos-chave funcionalidade, praticidade e confiança.
Por outro lado, essas questões também nos levam à ressignificação dos uniformes usados na indústria e em serviços domésticos. Começando pelo emblemático desfile masculino da Fendi verão de 2024, realizado na fábrica da marca em Capannuccia, nos arredores de Florença. Enquanto convidados observavam artesãos confeccionando bolsas Peekaboo e Baguette, aventais surgiam reinterpretados em couro, equipados com ferramentas ou transformados em camisas. O trabalho manual deixava de ser bastidor para ocupar o centro da narrativa.
Na mesma temporada, Celine, Ferragamo e Brunello Cucinelli investiram em jaquetas trucker, enquanto Versace e Prada escolheram coletes utilitários. Na Coach, jardineiras de gabardine e denim reforçaram a tendência. Fora das passarelas, marcas historicamente associadas ao vestuário funcional, como Carhartt WIP e Dickies, ganharam popularidade fashionista.
Mas foi na temporada prêt-à-porter 2026 que Miuccia Prada transformou a proposta em statement social. Desde sempre uma apaixonada por uniformes – nos anos 1980 ela misturava peças de Saint Laurent com jalecos –, ela recheou as coleções de suas duas marcas femininas com peças ocupacionais.
Para a Miu Miu, Miuccia estudou imagens das fotógrafas Dorothea Lange e Helga Paris, que documentaram atividades domésticas, para criar aventais desde a versão básica que a atriz Sandra Hüller abriu o desfile até modelos de renda ou de couro com babados como o de Milla Jovovich. Jaquetas, casacos e calças robustos engrossaram a coleção. A jornalistas, Miuccia disse que a coleção foi sobre o trabalho feminino, analisando que “na moda, sempre falamos de glamour e pessoas ricas, mas também precisamos reconhecer que a vida é muito diferente.”
“É uma homenagem bonita às avós, anciãs, sábias e cuidadoras, ou seja, às mulheres que estão por trás da nossa malha fina de vida”, avalia a especialista em tendências, Iza Dezon. Ao mesmo tempo ela identifica uma resposta ao conservadorismo contemporâneo e à romantização do trabalho doméstico promovida pelo fenômeno das tradwifes, influenciadoras que defendem a dedicação exclusiva ao lar como ideal de realização feminina, atrelada à imagem irretocável da Barbie, a exemplo da norte-americana Hannah Neeleman, conhecida nas mídias sociais como @ballerinafarm, com mais de 10 milhões de seguidores.
“O avental da Miuccia ‘empacota’ o corpo, e isso fala muito mais da figura da avó,” analisa a pesquisadora. “Também traz a questão de que cuidar da casa e do outro não precisa estar necessariamente associado ao sex appeal.” Para ela, a estilista italiana constrói há décadas uma sofisticada crítica social por meio da forma como representa o feminino. “Sempre acho que ela está brincando com mais de um sentido”, analisa.

Na coleção da Prada, desenvolvida em parceria com Raf Simons, a discussão assume contornos diferentes. Uniformes operários aparecem combinados a luvas refinadas em uma coleção atravessada pela ideia de um futuro incerto. Iza lembra que a marca sempre seguiu uma estética industrial. “Nosso escritório em Arezzo, que tinha as lojas montadas, parecia uma fábrica,” conta Iza, resgatando os três anos que trabalhou no setor de visual merchandising para a marca.
Segundo ela, os looks do verão 2026 da Prada também evocam tanto um apagamento das distinções de gênero quanto uma atmosfera marcada por conflitos. “Voltei recentemente de uma viagem por algumas cidades da Itália e por Paris e vi várias manifestações pela paz e contra a guerra da Ucrânia pelas ruas,” explica. “Há um sentimento de rigidez no ar e o uniforme me traz isso.”
Para construir um sonho que passa pelo fortalecimento do legado da marca, o diretor artístico da Chanel, Mathieu Blazy, buscou a funcionalidade das criações da fundadora da grife para o outono-inverno 2026/27. “Ela iniciou a revolução da realidade na moda feminina ao se inspirar na moda masculina e em pessoas como ela, que sempre trabalharam. Ao fazer isso, mudou a moda para sempre,” diz o texto sobre a coleção. Daí o cenário com guindastes e sua abordagem de construção em blocos, tendo o tailleur como a estrutura central. Acompanham sobrecamisas e blusões em tweed com shape masculino inspirados em roupas de trabalho.
Para Iza Dezon, essa estética ressalta a ideia de um mundo em construção reverberando os cenários econômico, humano e social. Em meio a essas tensões, a busca pelo essencial surge como valor. Não por acaso, a moda parece interessada novamente em roupas que remetem ao trabalho. Mas, diferentemente do passado, já não se trata apenas de resistência física ou autenticidade. Ao revisitar uniformes industriais, aventais domésticos e códigos operários, as passarelas trazem questionamentos que refletem a vida contemporânea: quem trabalha, quem cuida, quem produz e quais histórias escolhemos tornar visíveis.















