Grey divorce: o que querem os divorciados 60+

Grey divorce: o que querem os divorciados 60+

Em uma década, a separação dos 60+ cresceu 80,5% no País. A maturidade requer mais do que a felicidade construída até aqui

“Até que a morte nos separe” já não faz mais sentido para os adultos 60+. Há muito que se viver, então para que ficar infeliz numa relação? Para cumprir votos clássicos de união? O grey divorce, ou divórcio grisalho em português, cresceu em média 80,5% no Brasil de 2013 a 2023, segundo o IBGE. Este recorte passou de 49.936 para 90.150 mil separações.

“Quem tem 60 anos e tem saúde, pode esperar viver mais duas ou três décadas bem,” diz a geriatra Ana Cláudia Michels. “Graças aos avanços da medicina, ao melhor controle de doenças crônicas e à crescente valorização de hábitos saudáveis, é perfeitamente possível viver esses anos com autonomia física e cognitiva,” diz a médica. “Além disso, percebo uma maior preocupação e planejamento da independência financeira por parte das mulheres que facilita a decisão da separação.”

A procura por autonomia, liberdade e contentamento da população feminina  também são grandes motivadores para o grey divorce.

“Quando você avança cronologicamente, fica mais exigente. Aumenta o desejo de aproveitar os momentos da vida. Com o meu ex, é como se tivéssemos traçado caminhos diferentes,” diz a administradora e professora Mônica Coutinho, 63, que finalizou uma relação de oito anos em maio. “Sou muito ativa e ele não entendia porque eu não desacelerava.” 

A geriatra Ana Cláudia Michels explica que, a partir dos 60, a idade cronológica importa menos do que funcionalidade e autonomia. “Se aos 80 você tem capacidade de decidir sobre como quer viver, inclusive pensando nos relacionamentos, podemos classificar esse caso de envelhecimento como muito bem-sucedido.”

A pergunta que direciona, em parte, a decisão por um divórcio depois de muito já ter vivido junto é: o que eu vou querer para os meus próximos anos? “Hoje você pode apostar de novo, começar mais uma vez. É possível querer mais do que a felicidade construída até aqui,” diz o psicanalista Christian Dunker. 

“Eu nunca tive receio de reconstruir as coisas, tampouco me achava muito velho. Deve ser horrível a pessoa não tomar uma decisão que impacte sua vida de forma absurda por achar que não tem mais tempo,” diz o empresário Gustavo Cardim, 62 anos, que se divorciou aos 50. 

O aumento do interesse e da atividade sexual na maturidade também entram na decisão pelo divórcio. A maior permissão de viver o desejo nesta fase se dá pelo crescimento da expectativa de vida, por tratamentos médicos modernos para disfunções sexuais e pela quebra, ainda que gradual, de tabus sociais.

“O viagra, os amigos, as histórias, os filmes e as novelas, tudo isso mostra como são possíveis, e viáveis, as viradas drásticas e positivas nesta etapa,” diz o psicanalista Christian Dunker.

“Antes, a ideia de que você tinha apenas duas alternativas, a solidão ou um casamento descontente, levava ao conformismo. A percepção de que outras mulheres podem ainda precisar de outros homens (em uma comparação heterossexual) se tornou factível,” diz Christian Dunker. 

Quem bem sabe disso é a jornalista, escritora e sócia da festa Kikando, Kika Gama Lobo, 62. Há três anos ela tomou a iniciativa de criar uma noite de badalação para os 60+ no Rio de Janeiro com um amigo, o DJ Marcos Mamede. 

A ideia veio de festas do tipo que já acontecem em outros países, normalmente lideradas por mulheres maduras que além de desejarem criar um espaço de diversão para si e os amigos, precisam complementar a renda.

“Na primeira, vendemos 350 ingressos em uma semana. Começa às 20h30, vai até meia-noite e meia e mantemos o mesmo formato: disco music dos anos 1980, música brasileira e um pouco da década de 1990. Paramos aí, não toca nada mais moderno,” diz a sócia da festa.

Assim como Kika, outra mulher que decidiu se comunicar com o público 60+ para enfatizar que sempre há muito mais a ser vivido é a escritora e influenciadora digital Fátima Taffo, 72 anos.

Ela foi casada dos 22 aos 43 anos, teve quatro filhos, ficou separada um ano e meio em casas diferentes e, depois, retornou à residência onde morou por décadas para dividi-la, por mais 20 anos, com o ex.

A volta por cima, enfim, veio. Além de morar sozinha, ter investido (com retorno) na carreira de influenciadora digital e se dedicado à escrita, Fátima Taffo também encontrou espaço para o romance. “Me correspondo há um ano e meio com um italiano. Ainda é algo muito utópico, mas é tão bom ter despertada essa vontade de querer alguém do lado, sabe?”

O mundo dos grey divorcees anda agitado. Quem se separou na melhor idade, em busca de liberdade e alinhamento ao próprio desejo, tem sede por experiência. “Especialmente as mulheres,” diz Kika. “Elas fazem tatuagem, entendem-se como lésbicas, viajam sozinhas e transam com homens mais jovens. As maduras estão fazendo um dever de casa inédito. Nós somos a primeira geração dessa maior liberdade após os 60 anos.”

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