Do futuro, Ian McEwan observa nossa catástrofe

Do futuro, Ian McEwan observa nossa catástrofe

No romance “O Que Podemos Saber”, o escritor inglês põe em cena um professor de literatura do século 22 em busca de um poema perdido

Já caminha entre os vivos o maior escritor de língua inglesa dos últimos quatro séculos. Aliás, é uma escritora: a romancista Mabel Fisk. Nascida em 2016 na cidade inglesa de Stockport, ela seria, de acordo com Thomas Metcalfe, professor de literatura da Universidade de South Downs, “um gênio imaginativo comparável a Shakespeare.” Nem se preocupe em perguntar como uma menina de 10 anos poderia escrever romances que se equiparem a tragédias como Hamlet e Rei Lear: o fato é que Mabel Fisk ainda está para escrever os livros que Metcalfe exaltará com tanto entusiasmo. 

Metcalfe é a voz que nos fala do futuro imaginado por Ian McEwan, um dos melhores escritores ingleses contemporâneos, em seu mais recente romance, O Que Podemos Saber (compre aqui). 

O professor de South Downs (universidade fictícia, como ele próprio e Mabel Fisk) narra a primeira parte do livro, que começa por uma data: 20 de maio de 2119. Neste dia, ele viaja de sua universidade, na Inglaterra, até a Snowdônia, no País de Gales, para pesquisar o acervo da Biblioteca Bodleiana. O trajeto hoje pode ser feito de carro, em menos de quatro horas. Metcalfe, porém, percorre a mesma distância em um ferry elétrico que toma mais da metade do dia para chegar a seu destino. 

No século 22, com o derretimento das calotas polares, só os lugares altos se mantiveram acima do nível da água. A ilha da Grã-Bretanha se converteu em um arquipélago.

A narrativa de Metcalfe apresenta um mundo em que a Nigéria ascendeu como potência global e os Estados Unidos fragmentaram-se em meio a guerras civis. Nem por isso O Que Podemos Saber cabe na prateleira de ficção distópica, hoje tão atulhada de livros para adolescentes. A sociedade em que vivem Metcalfe e sua colega Rose Church — com quem ele mantém uma relação sinuosa, cheia de idas e vindas — não é nem oprimida pelo totalitarismo absoluto de 1984, nem dopada pelo hedonismo de Admirável Mundo Novo. A superfície seca do planeta, que nunca foi predominante, agora diminuiu drasticamente, mas as pessoas se adaptaram à vida insular.

No capítulo mais fraco do romance, McEwan faz Metcalfe recapitular as causas do Desarranjo, como ficou conhecido o desastre global. É uma sucessão pouco convincente de acidentes nucleares e guerras geradas por inteligência artificial.

Em compensação, o livro amplia seu alcance crítico quando nos convida a observar nossa conturbada era pelos olhos do futuro.

Pouco interessados por história em geral, os jovens estudantes que chegam à Universidade de South Downs manifestam um particular desdém pelo início do século 21. Os viventes desse tempo são tidos como monstros de egoísmo e estupidez, que por escolha deixam a civilização marchar para o abismo. Até mesmo Rose compartilha desse julgamento devastador. 

A abordagem de Metcalfe é mais aberta às contradições e ambivalências da história. Ele talvez gostasse de viver em nossa época de “invenções brilhantes e ambições estúpidas.”

Embora reconheça Mabel Fisk como um gênio maior, Metcalfe é obcecado por um poeta anterior, Francis Blundy. Sua viagem até a Snowdônia tem por objetivo pesquisar os diários da esposa desse poeta, conservados na Biblioteca Bodleiana. Professora de literatura, Vivien Blundy abandonou uma carreira acadêmica promissora para viver com o marido dez anos mais velho em uma propriedade rural reformada. 

Curiosidade: hoje com 78 anos, McEwan regularia em idade com Francis Blundy, sua criatura. A rigor, poderia estar entre os autores estudados por Metcalfe. Talvez por modéstia, não citou a si mesmo — e nem mencionou outros ficcionistas britânicos de sua brilhante geração: Martin Amis, Julian Barnes, Salman Rushdie, Kazuo Ishiguro.    

Em uma noite de 2014, o casal Blundy recebeu oito amigos para celebrar o 54º aniversário de Vivien. Francis homenageou a esposa dedicando-lhe uma coroa de sonetos — uma forma poética difícil, constituída por 15 sonetos organizados segundo exigências precisas (a mais simples delas: todos os sonetos do segundo em diante começam pelo último verso do soneto anterior). McEwan inspirou-se aqui em Marston Meadows: a Corona for Prue, belo poema publicado em 2021 pelo poeta inglês John Fuller.

No jantar do aniversário, Blundy leu o poema e em seguida presenteou a esposa com sua única cópia, manuscrita em um rolo de velino (um tipo de pergaminho). E desde então esse poema inédito se perdeu, inexplicavelmente. 

As catástrofes bélicas e climáticas não derrubaram a internet, e novos sistemas de decodificação conseguem contornar qualquer tipo de criptografia, tornando acessíveis todos os e-mails e mensagens trocados no passado. 

Graças a esses recursos, Metcalfe consegue recolher as opiniões dos amigos de Blundy sobre o poema, em uma passagem que demonstra a fina maestria de McEwan como ficcionista: cada um dos convidados tem uma percepção distinta sobre os 210 versos que foram obrigados a ouvir — e nenhum deles recorda sequer um verso inteiro. 

O romance explora assim o velho abismo entre a informação e o conhecimento: Metcalfe descobre até detalhes íntimos sobre o casal que passa a noite em um quarto na casa dos Blundy, mas lhe falta o essencial — o poema.    

Na busca por essa suposta obra-prima, Metcalfe e Rose acabam entrando em uma espécie de caça ao tesouro. Abre-se então o caminho para a segunda parte do romance, na qual outro personagem assume a narração em primeira pessoa. Mais não se deve dizer, para não privar o leitor de algumas surpresas. 

Basta sugerir que, como em Reparação, provavelmente o melhor dos 18 romances de McEwan, há uma tentativa mal orientada de corrigir um erro do passado através da literatura. 

As páginas mais dolorosas de O Que Podemos Saber descrevem o calvário que Vivien vive com seu primeiro marido, Percy, um afável luthier que sofre de Alzheimer precoce. Esse personagem carrega certo simbolismo: memória e esquecimento estão no cerne do livro. A ambição de resgatar o poema perdido de Blundy talvez revele o desejo de salvar nosso passado — ou nosso presente — de nós mesmos. 

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