Em 2025, manuseando os lançamentos na livraria Hatchards, em Londres, peguei por acaso uma cópia autografada do livro Mother Mary Come to Me, da escritora indiana Arundhati Roy. A livreira disse que eu estava segurando uma preciosidade; uma das últimas cópias assinadas do livro de memórias espetacular que tinha acabado de ser lançado.
Ter uma cópia autografada de Mother Mary é de fato um dos maiores tesouros da minha biblioteca. A editora Record acaba de lançar a sua tradução no País, sob o título Meu Abrigo, Minha Tormenta.
O título em inglês foi tirado da música Let it Be, dos Beatles, e coincide com o nome da mãe da escritora, Mary Roy. Arundhati conta sua vida a partir de sua mãe e o impacto da relação conflituosa das duas nas suas escolhas e na sua escrita. O título em português vem de uma passagem do livro em que descreve a mãe como sua tormenta e seu abrigo.
Arundhati se formou em arquitetura na Índia e, em 1997, publicou seu primeiro romance. Em menos de um ano, tornou-se um fenômeno literário.
O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati, venceu o Booker Prize, um dos mais importantes prêmios literários de língua inglesa, que a alçou à fama internacional (o livro foi traduzido para mais de 40 idiomas e vendeu mais de seis milhões de exemplares).
O best-seller se passa em Kerala, no sul da Índia, e acompanha os gêmeos, Estha e Rahel, que crescem em meio a questões de casta, religião, classe e pelas rígidas convenções sociais indianas. O livro foi inspirado na sua vida e de seu irmão.
Depois do sucesso do primeiro livro, ao invés de se dedicar a literatura, Arundhati passou anos escrevendo ensaios políticos. Tornou-se uma das vozes mais controversas da Índia, abordando nacionalismo hindu, desigualdade, sustentabilidade, e os conflitos políticos de seu país e do mundo.

Seu segundo romance, O Ministério da Felicidade Absoluta, foi lançado em 2017, vinte anos depois do primeiro. Não teve o sucesso estrondoso do primeiro, mas chegou a entrar na lista de melhores livros daquele ano e ser indicado a prêmios.
Neste terceiro livro, o sucesso voltou a bater na sua porta. O livro venceu o National Book Critics Circle Award de Autobiografia, concedido por uma das mais tradicionais associações de críticos literários dos Estados Unidos, foi finalista de vários prêmios importantes e entrou na lista do New York Times como um dos 10 melhores livros de 2025.
Além de Arundhati ter revelado detalhes de sua própria vida, sua mãe, Mary Roy, foi uma mulher extraordinária e uma personagem muito interessante. Educadora e ativista pelos direitos das mulheres, se separou do marido e fundou, em 1967 uma escola que se tornaria uma referência em Kerala, além de ter travado uma histórica batalha judicial que garantiu às mulheres sírias cristãs direitos iguais de herança.
Já no papel de mãe, Mary era bem mais complicada.
“‘Saia.’ Eu saí. Eu já estava tão acostumada a sair: ‘Saia da minha casa. Saia do meu carro. Saia da minha vida,’” reconta Arundhati em um trecho do livro. Quando ela era pequena, por ter demorado a obedecer sua ordem de ficar quieta no banco de trás do carro, a mãe a deixou no meio da estrada e só voltou uma hora depois para pegá-la.
Mary morreu em setembro de 2022, aos 88 anos. A dimensão do luto surpreendeu Arundhati e a fez começar a escrever o livro. Ela achava que iria escrever em um fôlego só, mas levou dois anos. Enquanto seu lado de filha lamentava a morte da mãe, o lado escritora sentia a perda da sua personagem mais fascinante.
Mary foi capaz de ensinar Arundhati a ser uma mulher independente e livre e, ao mesmo tempo, se enfurecia por ela ter abraçado a liberdade tão verdadeiramente. Era inspiradora e dominadora, protetora e cruel — minha mãe, minha gângster, resumiu Arundhati. Arundhati escreveu que saiu de casa não porque não amasse a mãe, mas para conseguir continuar a amando.
Enquanto um lado dela recebia o golpe; o outro anotava o aprendizado, ela entenderia anos mais tarde.
Arundhati deixou a casa da mãe aos 16 anos para fazer faculdade em Delhi e a mãe nunca a procurou. Era a filha quem tinha que tomar a iniciativa de contato.
O livro começa como um memoir sobre a relação entre mãe e filha, mas vai se transformando gradualmente na autobiografia de uma escritora. Arundhati mostra como sua criação turbulenta a fez a escritora e mulher tão destemida que é.
O respeito e admiração pelos valores éticos, pela integridade e coragem de Mary, por menos maternal que ela tivesse sido com os filhos, foram suficientes para gerar um amor profundo em Arundhati pela mãe.
“Naquela primeira noite no mundo sem a Sra. Roy, girei sem âncora no espaço, sem coordenadas. Eu tinha me construído em torno dela. Eu me moldei nessa forma peculiar que sou para me adaptar a ela. Nunca quis derrotá-la, nunca quis vencer. Sempre quis que ela partisse como uma rainha. E agora que ela tinha partido assim, eu não fazia mais sentido para mim mesma.”















